Ilustração de
Daniela Vasques
- Sapabela: adoro compadres.
- Escritor...
- Começou... Escute aqui, minha Sapa, eu quis dizer que adoro amigos...
- Grupinhos...
- Eu disse amigos. Assim, de ocupar espaços e... Além do mais, escritor também
pode ter amigos...
- Claro que sim.
- Então pare de ser chata, seu nome poderá mudar...
- Sim?
- Para Chatabela... É só ficar por aí provocando anfíbios melindrosos que já
ganha o apelido... Já pensou? Um coro berrando: Chatabela! Chatabela! Chatabela!
- Estou brincando, Rospo, mas é bom esse negócio de grupinhos...
- Negócio?
- É, você ocupa um espaço, aí fica um elogiando o outro. O truque é um promover
o outro. Pode ser numa revista, num espaço digital... Não entra ninguém de fora,
nem uma palavrinha sequer pra quem não é membro do clube. Elogios? Só para o
compadre. O outro, que está fora, nem é citado. Se você não cita o outro, ele
não existe.
- Sapabela, você vai se dar mal.
- Repare: um escreve falando do outro, ressaltando a qualidade do outro, que
retribui fazendo o mesmo. Por que você não procura a sua turma? Já pensou? Você
encontra um ou dois compadres e a coisa começa: Rospo descobre tesouro
literário, Coleção Rospo de preciosidades poéticas, Rospo organiza antologia,
Rospo e os significados ocultos da palavra.
- No seu caso: significados explícitos, dona Sapa. Está com falta de assunto?
- Assunto é o que mais tem. Rico furtando é cleptomaníaco. É doente, toma
remédio...
- Pare!
- Usineiro é herói nacional...
- Pare! Feche essa matraca. Essa doeu muito.
- Para avião presidencial não existe bloqueio aéreo...
- Pare! Ninguém vai perdoar você...
- Seria tão bom se apenas o talento ocupasse o espaço das panelinhas...
- Falando em panela, estou com fome...
- De combustível?
- É besta?
- Eu?
- Já sabe que esse papo não colou. A produção de alimentos não será prejudicada
pelo uso da cana ou do milho para se fazer combustível...
- Então, Fidel se fidel. Conforme você viu, tem assunto...
- Não brinque com nome próprio, Sapa, aliás, nem impróprio. Não seja mordaz.
- Nem seja mordaça.
- Você não tem um grupinho, Sapa?
- Não preciso. O feito fala, lembra?
MARCIANO VASQUES é professor,
escritor e poeta.
marcianovasques@hotmail.com