Rio Total
12/07/2002
Número - 267

 


O SAPO E O BOLERO

Ilustração de Daniela Vasques




Estava desempregado o sapo cantor de boleros. Batia de porta em porta.

- Assim não dá, sapo. Por que você não canta outro tipo de música, algo assim: mais alegre?

- Mas só sei cantar boleros!

- Ninguém mais quer ouvir bolero, sapo. Sinto muito. Gostei da sua voz, mas...

- Também faço poesia!

- Pra que serve poesia?

E assim lá ia o sapo, desgostoso, desgostoso.

Todo dia a mesma coisa, desde quando resolveu do brejo sair e a cidade grande procurar.

Certa tarde, ouviu um anúncio no jornal: “Rã solitária procura cantor apreciador de boleros. Favor enviar a voz para a caixa postal 53125...”

Foi assim que uma fita atravessou os correios, levando a romântica voz.

Breve, estavam juntos. E sempre, durante um bolero, o sapo pensava:

- Verdade! Sempre existirá uma rã fã do bolero!

E sem mais lero-lero, bolerando bolerando, o sapo, feliz, entoava um bolero.


 


MARCIANO VASQUES é professor, escritor e poeta.
marcianovasques@hotmail.com