Rio Total
31/10/2002
Número - 284


O SAPO NA FILA

Ilustração de Daniela Vasques



Um sapo falando na fila incomoda.

- Pára, sapo! Vou te engolir.

- Quem vai engolir sapo?

- Isso já é moda no Brasil.

O sapo, educado, apela para o bom senso.

- Estou aqui para exercer o meu direito!!!

- O seu direito é votar! Não ficar falando...

- Deixe o sapo falar.

- Eu estou aqui há duas horas. Não quero ouvir papo de sapo. Ainda mais com este calor - disse uma eleitora com um colar.

- Eu quero ler.

- Eu quero voltar para o meu lar.

- Eu queria o mar.


O sapo decidiu calar.


Passado algum tempo, alguém resolveu provocar.

- Vai votar em quem, sapo?

O anfíbio, cândido, fala de seu candidato.

- Esse não, sapo!!! - berram na fila.

- Deixem o sapo votar em que ele quiser.

- O voto é secreto.

- Esse candidato vai transformar o país num brejo.

- Então está pra sapo!

- Vocês estão implicando com o coitado...

E assim foi até à hora do voto. Não deixaram o pobre em paz.


- E então, sapo, fez a sua parte?

- Fiz a primeira. Votei.

- E qual é a segunda, sapo?

- Fiscalizar. Isso vai levar quatro anos.



 


MARCIANO VASQUES é professor, escritor e poeta.
marcianovasques@hotmail.com