Rio Total
29/11/2002
Número - 288


O LIVRO DO ROSPO

Ilustração de Daniela Vasques



- Fiquei sabendo que o Rospo escreveu um livro.
- É verdade, Sapabela, ele está todo empolgado.
- Quem diria, Colibrã, um amigo escritor.
- Dizem que é uma obra -prima. Quem leu gostou muito e não pára de elogiar.
Falando nisso, aí vem ele.
- Olá, meninas.
- Como vai o nosso autor?
- Já sabem?
- Aqui no brejo notícia boa se espalha logo. Quero um exemplar do seu livro.- diz a Sapabela, enquanto a Colibrã aproveita para teorizar.
- Quem lê viaja...
- Viaja de trem, Colibrã. E quem escreve viaja de avião...
- Rospo, você está animado.

Uma semana depois, um novo encontro.
- Rospo!!!
- Diz, Sapa.
- Eu e a Colibrã lemos o seu livro. É maravilhoso. Adoramos. É lindo. Uma beleza. Parabéns! Um belo livro.
- Parem, que eu fico envaidecido.
- Mas é fantástico, Rospo. É um livro espetacular. Quando vai escrever outro?
- Esperem um pouco, meninas. Vocês não vão comentar nada do meu livro?
- Comentar?
- E o que acabamos de fazer, por acaso?
- Vocês apenas elogiaram. Só ouvi elogios.
- E não está satisfeito?
- Elogiar é fácil. Todos fazem isso, principalmente na nossa frente. Eu preciso de comentários, de pessoas que realmente leram a minha obra.
- Está vendo, Sapabela? Já ficou esnobe.
- Não é isso, amigas. É que nenhuma leitura é neutra. Ler significa participar da obra. Elogios só não valem. Eu posso comprar um livro e sair por aí elogiando, dizendo que é fenomenal, maravilhoso, mesmo sem ter lido. Como ninguém questiona, nem debate nada: certamente passarei por um bom leitor. Eu quero questionamentos, debates, críticas, opiniões, discussões...
- Rospo, em qual Europa você pensa que está?
 


MARCIANO VASQUES é professor, escritor e poeta.
marcianovasques@hotmail.com