Ilustração de
Daniela Vasques
- Você sabia, Sapabela, que a história O COELHO AMARELO foi inspirada num fato
real, contado por uma professora universitária?
- É mesmo? E qual o nome da professora?
- Amélia. O fato ocorreu com a filha dela.
- Interessante. E como é essa história de ouvir alguém contar um caso e
transformar isso em literatura?
- Não, Sapa, Ele não transforma em literatura. A coisa já é literatura. Ele
apenas recolhe. As pessoas nem imaginam o quanto têm de literatura em suas
conversas. Basta apenas alguém recolher...
- Então quem faz isso não merece um CASCUDO?
- Exato! Câmara Cascudo, os irmãos Grimm, Gabriel Garcia Márquez, Vargas Lhosa,
Jorge Amado, Monteiro Lobato...
- Entendi! Então a tia Anastácia...
- Claro, ao reproduzir fielmente uma fala você está consolidando o estatuto
literário no texto oral que clamava...
- Pare, Rospo! É muita coisa pra minha cabeça...
- Você sabia também que eu preferia que as histórias escritas por Ele tivessem
expressão poética?
- As crônicas conseguem isso, elas têm força poética...
- Estou falando das histórias com sapo, sapinhos e sapões, como eu...
- Você acha que está faltando poesia nelas? Mas essas histórias não precisam
necessariamente de expressão poética! São interessantes na forma como surgem...
- Algumas beiram ao panfleto...
- Como é???
- Sim, é preciso ter cuidado com o panfleto, senão a coisa fica chata...
- Acho que você está muito crítico hoje...
- Essa é a graça, a beleza da vida...
- Ser crítico? Mas você não corre o risco de ser chamado de radical?
- Ah, que bom seria...
MARCIANO VASQUES é professor,
escritor e poeta.
marcianovasques@hotmail.com