Rio Total
15/08/2003
Número - 328


O SAPO E O CORAÇÃO

Ilustração de Daniela Vasques



 Estão os três amigos numa festa, quando o Rospo faz uma declaração inesperada.

- Sapabela, eu a amo do fundo do meu coração!

- Rospo, que surpresa!

- Está errado, Rospo.

- O que está errado, Doutor Aparecido Palestra ?

- Dizer que ama alguém do fundo do coração, pois a gente ama com o cérebro. O coração é apenas um músculo. É com o cérebro que a gente sente...

Como a Sapabela demonstra ter ficado impressionada com a intervenção do amigo cientista, o Sapo decide enfrentar a argumentação.

- Errado nada, meu caro Doutor, as palavras nascem em universos específicos. Nascido no trovadorismo, o “amor que vem do coração”, tornou-se um símbolo universal aceito por todos os povos e épocas.

- Que interessante, Rospo...

- Tem a ver com o pulsar da vida, Sapa.

- Fale mais.

- O coração, para a ciência, é apenas um órgão, mas no universo literário & poético é o símbolo universal do amor. Seria esquisito se o romantismo tivesse escolhido outro órgão. Creio que não soaria bem alguém dizer que ama alguém do fundo dos seus rins ou do fundo do seu fígado.

- Ou do fundo do seu cérebro!- arremata a Sapabela.

- E então, meu caro doutor Aparecido Palestra, satisfeito?

- Você tem razão, meu jovem amigo, eu sou especialista no universo cientifico, mas desconheço os motivos do universo poético.

- Mas eu fiquei curiosa com uma coisa, Rospo...

- O que foi, Sapabela?

- Que história é essa de “amo você do fundo do meu coração!”?

- É...bem...er..hã...

- Explique, meu amigo, a palavra é toda sua.

- O coração está pulsando muito rápido, Doutor...

- Eis um momento em que os dois universos se cruzam.
 


MARCIANO VASQUES é professor, escritor e poeta.
marcianovasques@hotmail.com