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Rio Total
02/07/2004 Número - 375

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O SAPO, O PÁSSARO E A FLORESTA

Ilustração de
Daniela Vasques
“Rospo! Veja aquele pássaro!” – apontou a Colibrã para a ave que alto voava.
- Quase não o consigo ver, Colibrã...
- Pássaro é assim mesmo: quanto mais alto voa mais pequeno aos nossos olhos
fica...
- Essa idéia é antiga. Eu tenho outra.
- Qual?
- Quando algo está perto não vemos totalmente a sua beleza. Conosco também é
assim, se estamos muito próximos, o outro não vê o que de belo e grandioso
dentro de nós temos.
- Que papo é esse, meu querido?
- Verdade! É preciso uma distância para que o outro comece a ver o que em você há
de bom.
- Estou entendendo..., se você olha a floresta bem de perto, enxerga com nitidez
os insetos, os carrapatos e os vermes que rastejam. Para ver a sua beleza você
precisa se posicionar num raio de distância adequado.
- Quanto mais longe mais se vê... Um rosto é assim, de perto se vê os cravos, as
espinhas...
- Mas se a floresta ficar muito longe, some da sua vista.
- Exato! Por isso a distância tem que ser a ideal.
- Nem sabia que existia distância ideal.
- Para tudo, minha amiga, para tudo...
- É mesmo! O pássaro desapareceu!
- Ele continuou a voar e ficou longe do alcance dos que não podem fazê-lo...
- Coisa complicada, Rospo. Quer dizer que se o vôo for muito alto, a visão alheia
não alcança. Às vezes fica–se invisível para os olhos... É isso?
- Estou querendo dizer que temos que ser pássaros e florestas ao mesmo tempo.
- Sei, manter a distância...
- Sim, uma distância saudável, mas o importante mesmo é seguirmos a nossa
natureza de vôo, como o pássaro, sem se preocupar com a visão dos que não
construíram as próprias asas.
- Construir asas??? Loucura, Rospo!
- É, amor, asas não brotam espontaneamente.
- Querido, de longe não se consegue ver a cor dos olhos de um rosto...
- Hã?
MARCIANO VASQUES é professor,
escritor e poeta.
marcianovasques@hotmail.com
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