
Saudades, minha amiga
Conheci Helga virtualmente, em 1997, através de um depoimento seu ao Mandic. Escrevi a ele pedindo o contato e, em instantes, a ligação entre nós duas estava feita. Uma empatia imediata.
Motivada por sua paixão à Astronomia, criamos "Navegando nas Estrelas", seção na qual ela escreveu, mensalmente, por todo esse período, sem nunca ter falhado. Quando viajava, já deixava pronto, antecipadamente, o artigo.
Incansável, respondia a todos os emails que recebíamos para esclarecimento de dúvidas sobre astronomia e, muitas vezes, o assunto abordado se transformava em matéria. Crianças com dúvidas escolares eram sua preferência. Mas, certa vez, quando uma mãe pediu que elaborasse o trabalho de casa que valia nota, ela esbravejou. Ensinar, explicar, sim. Ajudar na malandragem e preguiça de pesquisar, não.
Em 1998 Helga nos chamou para participarmos do Star Party Campinas. Encontramo-nos em sua casa, para um almoço de confraternização e logo que me vê, exclama:
Como você é alta! Pensei que fosse pequenininha, é sempre tão gentil. Diverti-me com a comparação e logo associei "os melhores perfumes nos menores frascos". Ainda bem que nem sempre é assim...
Foi nessa ocasião que, pela primeira vez, observei em um telescópio. E, então, descobri como o grupo de astrônomos
é unido, participante, cada um chamando outro colega para apreciar um objeto focado. Momento único!
Lembro-me das explicações de Bob Osborn, da alegria do Diniz, do Julio nos entrosando com os demais participantes.
Aliás, devo um agradecimento ao Diniz pelas fotos cedidas ao site e aos vários astrônomos que, gentil e pacientemente, me tiraram dúvidas por todo esse tempo. Quando Helga tinha dificuldade em "botar na minha cabeça" o que queria falar, pedia-lhes socorro e inúmeras vezes recebi suas mensagens e abnegadas colaborações.
Quantas partilhas Helga fez comigo de assuntos de sites específicos e de grupos
dos quais ela participava! Sabia que eu os apreciava, mesmo sem me dedicar à
área. Era pelo conhecimento em si.
Por duas vezes Helga esteve no Rio, para eventos de Astronomia. Em uma delas o
Bob também veio e, em outra, ficou hospedada em minha casa, em Ipanema. Quando
Luiz e eu acordávamos ela já estava voltando da praia, onde ia nadar. Era
apaixonada por esse esporte e campeã, até mesmo na terceira idade. A bem dizer,
idade não lhe era empecilho; seu dinamismo
não encontrava barreiras.
Para saber um pouco mais da Helga, é só passear na seção de Astronomia, em
http://www.riototal.com.br/astros/biohel.htm, ler suas "matérias especiais"
e "conhecimento" em
http://www.riototal.com.br/astros/, logo aqui abaixo - e que prometo colocar
em arquivo mais bem elaborado - ou ler seus artigos no CooJornal em
http://www.riototal.com.br/coojornal/hszmuk-arquivo.htm .
Ah, sim, não deixe de ver as receitas culinárias que ela enviava e que estão no
Boca Boa
http://www.riototal.com.br/bocaboa/. Enfim, ela participava de tudo, com
prazer.
Vou sentir saudades. Saudades do bate-papo quase que diário, que se calou
definitivamente em 27/2; da força que
trocávamos em momentos difíceis; dos puxões de orelha mútuos; das nossas 'brigas' sem
razão de ser, apenas pela incompreensão da sua dificuldade de expressão da linguagem ou pelo nosso gênio muitas
vezes turrão, de querer dar a última palavra (Afinal, quem não é assim? Apenas
não admitimos que o mais sábio é quem se cala primeiro.) E ela contestava: "precisamos nos explicar".
Em um de seus últimos emails, ela me fez rir ao contar essa história.
Transcrevo-a, deixando um tanto de sua alegria e bom humor entre nós:
Quando o Bob esteve aqui, nós fomos para o planetário. De noite, no caminho para
casa, começou a chover. O Bob tirou o casaco e cobriu o telescópio em baixo do
braço. Eu estava procurando um táxi e pensei que estava avistando um. Levantei
os 2 braços e dei sinal. De repente um carro da polícia subiu a calçada e
prendeu o Bob por trás. Eles pensaram que ele tinha uma arma apontando para mim
e eu acenado para o carro da polícia invés de um táxi. Depois demos todos uma
grande risada. O Bob falou que com certeza a foto dele estaria em todos os
aeroportos como "wanted", procurado. Mas desta vez a burrice foi minha. A
polícia foi muito eficiente e rápida.
Descanse, amiga. Certamente estará nadando nas nuvens, pulando estrelas,
voltando a ver o completo azul. Estaremos sempre com você em
nossos pensamentos e em algum novo dia nos encontraremos. Até lá, fico
apenas com o cheiro do Nescafé do Diniz.
*
Amigos se despedem de Helga
Moshe Bain
Amigos,
Estou muito triste, mal consigo escrever algumas palavras. Ainda no mês passado
o meu amigo e astrônomo amador Ernesto Nagy Filho esteve de férias com a família
em Florianópolis e visitou a d. Helga, inclusive tendo me enviado algumas fotos
que fez com ela, animada como sempre.
Foi através dela que conheci o Roger Tuthill, o Dobson e muitos outros
astrônomos (inclusive os que hoje compõem a REANET!). Em maio de 1994 estivemos
juntos no TSP e observamos o eclipse anular do Sol em El Paso. Sua energia e
alegria de viver era contagiante, e seu desapego aos bens materiais era um
reflexo de sua bondade: lembro-me de quando doou o binóculo 11x80 que tinha, sem
pestanejar, quando achou que o destinatário poderia fazer bom uso dele... Isto
sem falar na famosa carta do capitão do Titanic para seu pai, que foi para o
museu da cia. de navegação, mas isto já é outra longa estória.
Quem acompanhou a seção de cartas dos leitores do jornal O Estado de São Paulo
nos últimos anos também ficou conhecendo a Helga como missivista ocasional do
jornal --- mesmo morando em Florianópolis, suas cartas apareciam no Estadão,
sempre expressando suas opiniões sobre todo tipo de assunto de forma, digamos,
incisiva, pois ela não tolerava e não tinha qualquer respeito pelas “enrolações”
que nossas “autoridades” são pródigas em criar. Mais alegria ela me disse que
tinha, porém, em contribuir para “sites” ligados à divulgação da astronomia ---
participou de vários deles. E me disseram que foi matéria de reportagem da
revista Astronomy no período em que foi publicada no Brasil --- infelizmente eu
não tenho este exemplar.
Neste momento de adeus, só posso dizer que seu exemplo e sua memória serão
inesquecíveis para todos os que a conheceram.
Sentiremos saudades...
Juan Miguel
Nosso pesar!
Helga é mais uma estrelinha do céu...
Até.
Walmir
Acabo de chegar de viagem e vi essa triste notícia. Tristeza e uma grande
saudade enorme que fica de nossa querida Helga.
Luiz Nusbaum
Por mais que saibamos que é inevitável, sempre causa sofrimento e tristeza a
perda, em especial de alguém tão especial como Helga. A conheci na praça Buenos
Aires, paparicando os cachorros dos outros, e logo houve uma sintonia forte
entre ela e eu e em especial com meu labrador Billy e uma amizade surgiu.
Lembro-me de tê-la como convidada de honra num jantar de Pessach e como ela
ficou brava quando alguém perguntou se ela era astróloga, rss. Não compartilhava
da sua paixão pela astronomia mas me deliciava com suas histórias, inclusive
suas "memórias" que li numa tacada só. Pelo menos agora ela está mais próxima
dos astros e estrelas que ela tanto amava. Deixa muitas saudades.
Sentimentos à familia.
José Carlos Diniz
Recebi com imensa tristeza a notícia do
falecimento da amiga Helga... nesse momento vem-me a mente o nosso primeiro
encontro na Texas Star Party. Estimulado e auxiliado pelo seu entusiasmo lá
compareci. Helga conhecia todo mundo e a todos me apresentava com alegria.
Convivemos por uma semana sob aqueles céus e ainda agora, emocionado, escuto sua
voz vinda da escuridão à minha procura: Dinixxxxx !!! Onde está você???
Ela pouco enxergava de um olho e nada do outro, mas pacientemente todos
mostravam a ela seus telescópios e ela embevecida olhava, olhava, até distinguir
o objeto, e de lá saía como uma criança, alegre e feliz por mais uma visão do
Universo.
Não tinha papas na língua, do alto de sua experiência e vivência, dizia o que
queria, na lata, sem rodeios, mas era suave nas relações e fraterna nas
amizades. Lutadora, nunca esmorecia diante dos obstáculos e ria das
dificuldades.
Usava letras grandes no computador para continuar a se comunicar. Participava de
um monte de listas. Membro do Eclipse Chasers, ríamos quando ela contava que
John Dobson dormira na sua casa. Conheceu e conviveu com um número enorme de
celebridades da sua grande paixão, a astronomia.
Dava aulas de inglês, nadava e só tinha oitenta e tantos anos! Um exemplo. Suas
histórias de vida eu as ouvia boquiaberto, era uma enciclopédia!
Era a primeira a reconhecer trabalhos dos colegas e seu entusiasmo era
contagiante.
Hoje triste, sinto saudades do pouco tempo vivido com Helga e choro sua perda
que não é só minha, mas de toda a astronomia.
Adeus amiga Helga, ainda guardo comigo o Nescafé da primeira viagem...
*
A historia do Nescafé era uma coisa muito especial na amizade do Diniz com Helga.
Segundo ele mesmo relata: No Texas, só tinhamos "chafé" e a Helga,
providencialmente, levou um pacote de Nescafé. Bebiamos café forte e os
americanos queriam saber que bebida era aquela e ela dizia que era segredo. Isto
foi motivo de boas risadas entre nós por um bom tempo.
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