Astronomia não tem barreiras para aqueles que sinceramente amam as estrelas. Este é o caso de Helga Szmuk, nascida na Aústria e já aposentada, morando no Brasil. Helga freqüentemente viaja para o outro hemisfério, para se encontrar com seus amigos de outros países e apreciar a astronomia. Esta é sua estória...


Nome: Helga Szmuk
Residência: São Paulo
Ocupação: Aposentada
Astrônoma desde: antes da Segunda Guerra

"Eu amo e vivo a astronomia desde meus cinco anos de idade. Meu pai era capitão de navio em uma época em que não existia radar ou aparelhos similares. Ele me levava para a ponte de comando e me ensinava a amar e viver as estrelas, o oceano e o amplo horizonte.

"Meu primeiro instrumento foi o binóculo do meu pai (que eu ainda uso). Ele foi um presente dado pelo rei da Noruega a meu pai, por seu navio ter sido a primeira grande embarcação ocêanica a entrar nos fiordes. Ele é chamado ‘Das Auge Gottes’ ou "Olhos de Deus" e tem em torno de cem anos.

"Eu agora tenho um Meade de 4 polegadas e um refletor de 6 polegadas. Nosso grupo de astronomia, aqui em São Paulo, tem um Cassegrain de 20cm que nós montamos em um lugar que nos foi cedido perto do Observatório Nacional. Lá é seguro, relativamente escuro e o mais importante, está em permanente alinhamento polar. Vocês não sabem como é difícil conseguir este alinhamento no hemisfério sul. A maioria das nossas conversas gira em torno de como consegui-lo, através de uma nova forma mais simples.

"O que mais me excita na astronomia? Talvez a similaridade entre astrônomos e 'homens do mar' como meu pai. Seus vastos horizontes (em todos os aspectos), nenhum patriotismo local, sua maneira de pensar, nenhuma competição, mas apenas compartilhar o céu e o oceano. Com a tecnologia tão avançada em ambos os campos, marinheiros ou capitães têm perdido seu contato com a natureza, eles apenas observam seus computadores e planos, perdendo este contato. Por outro lado, os astrônomos, com seus aparelhos maravilhosos, ainda têm prazer em observar os céus a olho nu.

"É difícil dizer quem é meu guia ou mentor. Eles são tantos: Galileu, Einstein, Steven Hawking, Clyde Tombaugh, os jovens do Texas Star Party que com seus telescópios simples, têm um enorme conhecimento do céu, e um entusiasmo e paciência comigo... Eu amo todos.

"Minha maior surpresa foi quando Roger Tuthill e eu observamos o eclipse solar de 1992 em um jato sobre o oceano Atlântico Sul. Eu já tinha visto muitas fotos, slides e vídeos de eclipses, mas esta experiência foi única. Eu me questionava por que somente os humanos têm o privilégio de ver a lua e o sol do mesmo tamanho, e somente 40 pessoas na Terra, inclusive eu, os estavam vendo assim. Foi um evento espetacular, por que eu tive o privilégio de ver e viver isso?

"Outra grande surpresa e descoberta na astronomia é que as pessoas são iguais em todo o mundo. Agora tenho mais tempo para viajar e não preciso mais me preocupar com a minha família. Agora, que já estou com mais de 60 anos, posso apreciar muito mais a astronomia. Eu mantenho uma extensa correspondência com astrônomos em todo o mundo e no Brasil.

"É inimaginável enxergar aonde estará a astronomia amadora, no próximo século. Ao longo da minha vida, nós fomos, em meio século, do sextante da época de meu pai ao CCD. Eu posso ver, em minha fantasia, que onde a astronomia profissional se encontra hoje, será aonde estarão os amadores em 10 anos. Este é o começo do próximo século.

"Uma fato engraçado me aconteceu a dois anos atrás, quando eu retornei ao Brasil do TSP. Eu comprei no Mc-Donald Observatory, dois móbiles do sistema solar e dois balões com estrelas e constelações, para os netos de duas amigas minhas, que não se conheciam. No primeiro dia em que uma das avós levou seu neto ao parque, o menino levou o balão para mostrar para as outras crianças. Um outro menino se aproximou dele e disse: ‘eu tenho igual’. Obviamente ninguém acreditou nele. O primeiro menino disse então: ‘eu também tenho um sistema solar’. O segundo menino respondeu: ‘eu também’. Desnecessário dizer que só havia dois destes no Brasil, ou talvez na América do Sul. Um dos meninos perguntou ao outro: ‘como você conseguiu isto?’. Ele respondeu então, que uma amiga de sua avó trouxera para ele. O outro logo falou: ‘o meu também’. Quando eu soube disso, logo deduzi que aqueles eram os dois únicos meninos com aquelas preciosidades. Eles hoje são bons amigos, e a astronomia os juntou em uma cidade de 12 milhões de habitantes.

"Parece que a astronomia entrelaça-se em muitas vidas. Na expedição do eclipse eu conheci um homem chamado Moshe Bain. Nós perguntamos um ao outro, como havíamos nos interessado por astronomia. Ele me disse que um 1938, seu pai estava fugindo dos nazistas na Europa, em um navio ilegal que o levaria para a Palestina. Como o navio não poderia se aproximar da costa; os passageiros teriam que seguir, no meio de uma noite sem luar, as últimas três milhas em balsas de salvamento.
"Felizmente, o capitão do navio ensinou a todos os homens jovens como navegar seguindo a Polaris, a Estrela do Norte. Neste ponto, eu o interrompi e lhe contei o final da estória: ‘O nome da pequena vila que seu pai desembarcou é Athlin’. Naturalmente, ele ficou muito surpreso e queria saber como eu sabia. E eu lhe disse que o capitão do navio era o meu pai.

"Minha paixão por astronomia veio de meu pai, desde que eu era uma menina. O pai de Moshe, cuja vida foi salva seguindo a Polaris, passou seu amor pelas estrelas para seu filho. Isto aconteceu há 54 anos no Mediterrâneo, e nos colocou juntos em outro continente."

Fonte: Amateur Astronomy
Tradução de Irene Serra

 

Conhecendo mais de Helga Szmuk

UMA VIDA DE CONTRASTES


Terra natal: Áustria, Viena, mas não é minha terra preferida.
Língua que falo melhor: Nenhuma. Falo, escrevo e penso em 6 línguas, todas com sotaque. Continuei meus estudos em muitos países, com suas diversas línguas.

Minha mãe era austríaca de Viena, meu pai oficial da marinha inglesa. Minha mãe gostava de música, conheceu Sigmund Freud, Gustav Mahler, etc. Meu pai detestava Viena e foi feliz somente no mar, no navio.

Eu aprendi com ele a manejar o sextante antes de aprender a ler e escrever. Eu aprendi navegação com as estrelas, e muitas historias dos gênios da astronomia e navegação. Durante as longas viagens, meu pai me contava como outras crianças aprenderam as histórias de fadas. Minha mãe achava que Viena era o centro do mundo, e eu fui obrigada a estudar balet na ópera em Viena.

Foi assim que eu vivi: entre 2 mundos! Meu mundo verdadeiro ficou enorme. Um mundo sem fronteiras, sem patriotismo, sem um clube favorito, mas com um horizonte de 360º .

Casei-me com um médico húngaro e cada um dos meus filhos nasceu em outros países e começaram a vida com línguas diferentes. Quando falo com eles no telefone temos sempre problemas em decidir em que língua vamos falar.

Eu fugi da Áustria do Hitler, fugi da Hungria dos comunistas, fugi do Israel da guerra.

Há pouco tempo aprendi a me comunicar pela Internet. A Internet me dá a possibilidade de estar em contato com o mundo, meus filhos e netos, que moram longe de mim.

Eu sofri descolamento da retina e perdi a vista de um olho, então, no momento, a coisa mais preciosa e importante são os 20% da visão do outro olho.

Anualmente vou para Texas Star Party, lá me encontro com Bob e uma vez por ano ele vem aqui, sempre em função da astronomia!




Revista Rio Total
Direção e editoria
Irene Serra