Helga Szmuk

       

 


O mecanismo da evolução e seleção natural foi a grande descoberta de Charles Darwin e Alfred Russel Wallace.

Eles descobriram que a natureza produz mais do que pode sobreviver e o meio ambiente seleciona as espécies que são mais capazes de sobreviver, resultando numa série de lentas transformações de uma forma de vida para outra e criando novas espécies.

Muitas pessoas estiveram e ainda estão escandalizadas pela idéia da seleção natural. Elas sempre imaginaram um criador, esse conceito era tão natural e ao mesmo tempo humano...

Darwin

 

Mas Darwin e Wallace mostraram que há outra maneira  tão humana e tão bonita, mas muito mais lógica: a seleção natural; a música da vida é muito mais bonita  com a passagem do tempo. Os fósseis mostram: "trial or error", uma impossibilidade de prever o futuro.
O segredo da evolução é morte e tempo. A morte de inúmeras formas de vida que não tiveram  capacidade de se adaptar e tempo, que foi necessário para que algumas espécies, de pequenas em pequenas mutações, fossem se adaptando ao meio ambiente.

Parte da resistência da humanidade em compreender esse fenômeno é nossa dificuldade de imaginar um milênio, os ions. Que significam 70 milhões de anos para seres que vivem somente um milionésimo desse tempo? Nós somos as borboletas que voam por um dia e pensam que é para sempre.

Até agora quase todos os cientistas e religiosos fizeram suas teorias sobre a idade da terra sentados num sofá. No entanto, um estudioso, geólogo Lyell, que tinha uma vista deficiente mas  foi dotado de "olhar" para o mundo numa maneira que somente os deficientes visuais têm de sentir e examinar, visitou o Monte Etna, na Sicília, as montanhas na costa e sabia que  tudo isso é resultado de mudanças lentas e profundas.
Ele escreveu o livro: "O principio da geologia".

 

Lyell

   

Em 1831, um jovem começou uma longa viagem... na imensidão do tempo.
Ele levou o livro de Lyell consigo, que fora recomendado  por seu professor. O jovem Darwin começou sua viagem a bordo do Beagle e lia o livro, mesmo durante os muitos ataques de enjôo que sofreu durante os 5 anos de viagem.

Mais tarde ele escreveu: "Parece que meus livros saíram da cabeça de Lyell."

Durante a expedição do Beagle, Darwin observou o mundo de tantas perspectivas diferentes, como poucas pessoas já fizeram: a cavalo, de mula, a pé, de navio, dentro das cavernas, no gelo da Patagônia, na Austrália e até  nas ilhas do Oceano Índico.
 

Colecionou tantas amostras que o comandante falou: "Ele queria afundar o barco."

No Chile, achou fósseis marítimos no topo da montanha, viu um terremoto que elevou o chão meio metro em segundos.

Quando o Beagle alcançou o Pacífico Sul, Darwin já tinha 4 anos de experiência e se sentia mais seguro em interpretar as observações em teorias. Começou a ter sua própria opinião sobre as origens dos atóis de corais.

Em 1834, quando o Beagle viajou das Ilhas Galápagos para o Taiti, Darwin subiu no mastro do navio e viu os atóis brancos espalhados no oceano bravio, como rendas frágeis.
"É maravilhoso como esses invasores frágeis não são vencidos pelas ondas  do Pacífico."

Darwin concluiu que o Atol é a marca de um vulcão desaparecido. Um novo vulcão pode atravessar o solo do oceano e, em erupções sucessivas, construir uma ilha de montanhas em cima do nível do mar. Eventualmente, o vulcão antigo pode afundar por causa da erosão e do colapso lento do solo do oceano.

A beleza dessa teoria consiste em descobrir que o processo é lento e gradual. Corais vivos precisam de luz solar, não podem viver em grandes profundidades. Se a ilha tivesse desaparecido de repente (como a teoria de "catastrofismo" queria) o coral teria sido jogado na profundidade do oceano antes que tivesse tempo de se desenvolver.

Quando Darwin voltou para casa, seu pai exclamou: "A cabeça de Charles mudou!" Ele percebeu  que, além do aspecto físico da cabeça, também muita coisa mudara dentro dela.

Darwin era preguiçoso, não se interessava por nada. "Você será uma desgraça para você mesmo e para sua família" - o pai falava antes.

"Eu descobri que o prazer de observar e raciocinar é maior do que a habilidade  no esporte ou numa profissão" falava Darwin.
Darwin provou que nossa história é uma história de acertos, os que erraram ficaram para trás. Usam tanto a frase: "Errar é humano.", mas isso não é verdade. Acertar é humano.

Antes da viagem, ele ainda acreditava na "oração"; não duvidava uma única palavra da Bíblia. Mas voltou com muitas dúvidas, pois viu que a terra mudava constantemente, e ele tinha dúvida se as espécies também mudavam dando existência a novas espécies. Evolução não era novidade para ele. Seu avô Erasmus Darwin escreveu o livro "Zoonomia". Lera, também o livro do evolucionista Jean Babtista de Lamarque, que achava que experiências de um indivíduo podem ser transmitidas para sua prole. Cavalos ficam mais fortes a cada geração, através das corridas. O pescoço das girafas fica mais comprido por causa do esforço de alcançar as folhas. Essa teoria era muito bonita; assim, pais que trabalham duro, sem vícios, vão ter filhos iguais. Mas não prova como novas espécies surgiram.

A contribuição de Darwin não era simplesmente o argumento que a vida evoluiu - ele nem gostava da expressão "evolução" - mas, melhor: o mecanismo de como surgiram novas espécies.
Por isso, ele deu ao seu livro o título de "A origem das espécies".
Podemos dizer que consiste em 3 premissas e uma conclusão.

A primeira tem a ver com variação. Cada membro de uma certa espécie é diferente; hoje diriam que tem uma característica genética.
Darwin cresceu numa época em que a criação de animais domésticos  na Inglaterra estava no auge.

Segunda premissa: todos os seres vivos produzem  mais descendentes do que o habitat pode suportar. É um mundo cruel, onde somente uma pequena fração de lobos, de tartarugas, de borboletas, chegam à idade de reprodução. Na combinação de fecundidade ilimitada com a limitação dos recursos, Darwin achou o mecanismo que age constantemente em eliminar muitas variações, preservando somente aqueles que conseguem sobreviver e capazes de reproduzir, o que conduz à terceira premissa.

A diferença entre os indivíduos, junto com pressão ambiental, dá a possibilidade de passar suas características genéticas para futuras gerações. A isto ele chama "seleção natural". Traças brancas sobrevivem melhor na neve para serem protegidas contra pássaros predatórios. Assim, somente os mais aptos sobrevivem. Quando situações climáticas mudam repentinamente, esses mais aptos  podem ser não mais aptos e desaparecem.

Darwin concluiu: Seleção natural conduz a novas espécies, o mundo está em constante mudança, a natureza favorece a variedade. Durante a modificação  dos descendentes de qualquer espécie e durante a luta incessante de todas as espécies para se multiplicaram, quanto mais diversificado o descendente se torna, maior será sua chance de sucesso na batalha para a vida.

Darwin fez o esboço de 1839 até 1844, mas não o publicou. Ele pedira que fosse publicado após sua morte. Ele se casou, teve filhos, viveu no campo, e por 15 anos sua obra foi mantida em segredo. Por quê? Como Copérnico e Newton, por medo da igreja. Seu filho falou que ele sempre foi doente; ninguém sabia qual era a doença, que se manifestava com vômitos, dor de cabeça, fraqueza. Falaram até que era conflito interno, dele como católico e sua descoberta. Ele se achou um assassino: matou Adão. Ele sabia que não tinha prova para  mostrar, pois não sabia ainda o que era o "gene". Só em 1866 o gene foi descoberto, mas Darwin já estava morto.

De repente tudo mudou, quando ele recebeu uma carta de Alfred Russel Wallace, pedindo  sua opinião sobre o esboço de um ensaio intitulado:"Sobre a tendência das variedades de se desintegrarem indefinidamente do tipo original". Darwin ficou espantando, pois a teoria contida nesse ensaio era idêntica à sua. Esse fato foi o empurrão para que Darwin apressasse o término e a publicação da sua obra.

Foi sorte para a humanidade Darwin ter deixado os detalhes monótonos, indo direto ao assunto que revolucionou o mundo, com o livro "A origem das espécies por meio de seleção natural".

Para tudo isso, precisa-se de tempo, muito tempo mais do que todos as religiões ensinaram. A descoberta dos genes e o avanço do termo dinâmica provou  tudo isso, mas só depois da morte de Darwin.

O cosmos pode ser densamente povoado com seres inteligentes. Mas a lição Darwiniana é clara: Não haverá seres humanos em outra parte, somente aqui. Só neste pequeno planeta. Nós somos uma rara, bem como uma espécie vulnerável. Cada um de nós é na perspectiva cósmica muito precioso.
Se um ser humano discorda de você,deixa-o viver. Em 100 bilhões de galáxias você não encontrará  outro. (Carl Sagan)

 

Texto de Helga Szmuk, astrônoma amadora

 

 

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