Desde criança me lembro da diferença entre latitude e
longitude. As latitudes são paralelos e circundam o globo terrestre
em linhas paralelas do Equador ate os pólos, como anéis.
Os meridianos de longitude vão em outra direção: vão de
norte a sul. A distância entre eles nas proximidades do Equador é
maior e nas proximidades dos pólos é menor até que,
no pólo norte e sul, eles se encontram.
Ptolomeu 150 anos DC já os desenhou no 1º mapa mundi. Ele
deu nomes para lugares em ordem alfabética e sua posição com
latitude e longitude.
O Equador era o zero e o fim do mundo. Embaixo disso tudo
derretia (o sol, a lua e os planetas perto dessa linha entre o trópico
de Capricórnio e o de Câncer).
Já a marca zero da longitude foi determinada pelo homem.
Ptolomeu escolheu as Ilhas Madeiras como marco zero de
longitude, depois Açores, Cabo Verde, Roma, Kopenhagen,
Jerusalém, St. Petsburg, Paris, Filadélfia até, finalmente,
Londres.
O marco zero do meridiano é puramente político e aqui está
a grande diferença: latitude é definida pela lei da natureza e
longitude pela lei do homem.
Encontrar a latitude é fácil até mesmo para crianças.
Longitude não. A longitude é
fundamental para a navegação. Encontrar a longitude ocupou grande
parte da história da humanidade.
Qualquer marinheiro pode estimar sua latitude pela duração
do dia, pela altitude do sol ao meio dia, etc, etc...
A medição da longitude é obtida pelo tempo. Para saber a
longitude no mar é necessário saber que horas são a bordo do
navio e também a hora no porto de saída ou qualquer lugar de referência.
A diferença entre os dois horários mostra a distância
percorrida. Cada dia no mar, quando o navegador ajusta seu relógio para meio dia local, ele precisa saber que horas são
no ponto de saída. Cada hora de diferença significa 15 graus de
longitude. Isso mostra a distância percorrida e sua posição no
momento.
Os
mesmos 15 graus de
longitude no Equador são exatamente 1000 milhas marítimas. Ao
norte e ao sul o valor em milhas fica menor. Um grau de longitude em
qualquer parte da Terra vale 4 minutos, mas em distância varia de
68 milhas no Equador até quase nada nos pólos. Saber o horário em
2 lugares diferentes ao mesmo tempo hoje
é brincadeira com relógios de pulso baratos - mas era
impossível no tempo dos relógios de pêndulo. No convés de
um navio ele acelera ou freia ou pára completamente. Mudanças de
temperatura esticam ou encolhem o pêndulo.
Por
falta de um método prático para determinar a longitude, cada capitão
na era da exploração, se perdeu no mar. De Vasco de Gama até
Vasco Nunes de Balboa, Fernando de Magalhães até Sir Francis Drake,
todos eles navegaram pelas forças atribuídas à boa sorte ou às
graças de Deus.
Mais
e mais navios saíram para explorar o mundo, para a guerra, para o enriquecimento dos reis, achar ouro e fortunas, conseqüentemente,
mais e mais vítimas. A solução de achar a longitude se tornou
mais urgente. Os reis da Europa foram os mais interessados na solução
desse problema.
Em outubro 1707,
no sul da Inglaterra, 4 navios de guerra afundaram com 2000 marinheiros
perdidos. Rei George da Inglaterra e Rei Luis XIV da França foram
os mais ativos nessa busca. Finalmente, em 1714, o parlamento da
Inglaterra estabeleceu o famoso "ato da longitude" com um
prêmio enorme em valores de hoje, alguns milhões de dólares, para
quem finalmente resolvesse o problema da longitude.
Um
simples relojoeiro inglês, um gênio de mecânica, dedicou sua vida
a resolver esse problema. Ele encontrou
o que Newton achava impossível! Ele inventou um relógio que levou
o tempo de um porto de saída
até qualquer lugar do mundo. John Harrison de berço humilde, mas
de uma inteligência invejável, quis receber esse prêmio formidável.
Um homem sem quase nenhuma educação
formal, tinha 17 anos em
1714, quando o prêmio foi estabelecido. Mas ele o recebeu somente
quando tinha 66 anos e apenas a metade, com seu H4 (Harrisson4)
Parece
um relógio de bolso
comum, mas com tamanho de 5 polegadas de diâmetro. Antes, ele já
tinha construído 3 outros H1,H2 H3 junto com o seu irmão James.
Eles nunca assinaram os relógios.
Ele tinha as partes sem fricção,
sem pêndulo, com partes que não se dilatam no calor ou se contraem
no frio. Mas a comissão nunca estava satisfeita. Eles queriam que
um astrônomo ganhasse o prêmio. O erro permitido era 1/5 minuto de
arco ou 30 milhas marítimas.
O primeiro
teste com o H4 foi feito na Jamaica, em 1761. Depois de 81 dias de
viagem o relógio estava 5 segundos atrasado. No Equador isto significa um erro
de 1 ¼ minutos de arco ou 1 ½ milhas náuticas. Melhor do que foi
esperado dele. Mas eles acharam que poderia ter sido sorte ou
coincidência e que
o teste precisava ser repetido. O segundo teste foi realizado
entre Inglaterra e Barbados. Dois
astrônomos foram mandados juntos, primeiro para estabelecer
a longitude, observando um eclipse de um satélite de Júpiter. O
relógio de Harrison H4 foi a
bordo do navio H.M.Tartar, junto com o filho de John William. Na chegada a Barbados, o H4 estava 40 segundos
adiantado, um erro de 110 minutos de arco. A performance do H4
foi verificada e
confirmada pelo astrônomo a bordo.
Harrison, finalmente, foi
considerado apto a
receber o prêmio. Mas o comitê
não quis pagar tudo, somente a metade. Com ajuda do rei George III
ele recebeu o restante, quando já estava com 80 anos. Outro requerimento
para receber o prêmio era que precisava ser possível copiar o relógio
para ser usado em todos os navios.
A primeira cópia
era K1 e foi dada ao Capitão Cook para ser testado na sua viagem para a Antártica. A segunda cópia K2 já foi
feita com um preço muito menor e foi dada ao Capitão Blight, em
1787, no Bounty. A tripulação fez um motim e levaram K2
consigo para Pitcairn, onde ficou até 1808, quando foi roubado outra
vez e finalmente retornou para Inglaterra em1843.
H4: Harrisson o adorava e
disse: "Não existe no mundo mais uma coisa
igual a esse medidor de tempo e da longitude."
Ele está exposto no
Museu Nacional Marítimo de Londres, protegido com vidro e com a inscrição
simples: John Harrison A.D 1759 (AD= anno domini). Os
visitantes que olham primeiro para H1 depois para H2 e, depois para
o H3, encontram depois em uma sala especial o H4, que mudou a navegação
no mundo inteiro!
Uma
coincidência ocorreu durante esses anos de procura. Harrison estava
procurando um material que não dilatasse e nem encolhesse. Nessa
tarefa, visitou muitos oficinas para experimentar materiais
diferentes. Assim ele se encontrou com John Jeffery, um artesão em
fazer relógios, um maçom do The Worshipful Company of Clockmakers.
Ele seguiu as especificações do Harrison, mas usou material que não
adiantou ou atrasou com a mudança da temperatura. Além disso ele
inventou um modo que o relógio não parou durante o tempo em que
era dado corda (neste intervalo o navio já andou uma ou 2 milhas).
Todos os outros relógios do Harrison pararam durante esta operação.
Alguns relojoeiros consideram o relógio do Jeffery o primeiro relógio
de precisão.
Harrison guardou este relógio sempre no seu bolso e os
filhos e netos dele contaram que ele mesmo considerou o relógio do
Jeffery a verdadeira máquina da longitude de bolso. Ele mencionou
isto para a comissão da longitude, em 1755. Quando Harrison
terminou o H4, ele admitiu que este tem mais semelhança com o relógio
do Jeffery do que o H1 ,H2 ou H3. Mas só uma única peça tem
o nome do Jeffery e o nome do Harrison está em todos os relógios
de bordo.
A história dos heróis da
ciência é estranha. Tanta luta, tanto sacrifício e por pouco
tempo. Depois do H4 logo inventaram o rádio, o radar, etc e o relógio
não era mais necessário para a navegação desperdício? Não, é
evolução, uma coisa conduz à outra. Mas porque as verdades são tão
bem escondidas? E tão
difíceis de achar? A partir dos deuses da chuva, do sol, dos
planetas até hoje um longo penoso
caminho foi percorrido.