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Helga Szmuk
TEXAS STAR PARTY - 2000
Sim, é outro
mundo mesmo, depois de ler todas as notícias sobre assaltos,
assassinatos, corrupção, etc, etc, chegamos em Dallas e viajamos
12 horas de carro até Fort Davis, nos
Davis Mountains. Cada vez que chego lá me transformo numa pessoa
diferente. No meio das montanhas, no deserto, há uma paz, um silêncio
inimaginável. Os animais silvestres cruzam o caminho, ninguém os
atropela, ninguém tem pressa.
Nós (Bob Osborn,
Diniz e eu) ouvimos música clássica no rádio, ninguém falou
nada, todo mundo se sentiu pequeno e ao mesmo tempo importante nesse
universo maravilhoso. Eu não sei sobre
que escrever: As pessoas maravilhosas? O cenário sublime? O
observatório que tem duas cúpulas apontando para o infinito? Não
existe igreja, sinagoga ou mesquita que possa fazer com que nos
sintamos em união com o Criador. Aqui é criação, sem artifícios,
sem imagens mal feitas, sem sacerdotes, sem sermões. Depois de abraços
e gritos de alegria, a gente encontrou os velhos amigos e também
alguns novos. Fomos 700 astrônomos de todo mundo com seus telescópios
mais simples feitos em casa até os mais sofisticados, enormes, para
ver e sentir o universo como era há 8 bilhões de anos! Agora já decidi, vou falar das pessoas, ou melhor de uma das pessoas: meu, nosso amigo Bill. Ele dirigiu de San Francisco sozinho - às vezes o filho Mark vem com ele. Mas este ano ele estava sozinho, em companhia de seu telescópio. Ele dorme no carro dele, então, quando o telescópio está desmontado no carro, não tem lugar para dormir: ou ele ou o telescópio.
Bill nos mostra as galáxias mais distantes, as aglomerações mais bonitas, e as acha numa precisão incrível. Numa coisa ele não faz economia: nos oculares que usa. São da mais alta qualidade e ele gasta todo seu dinheiro com isso. Na escuridão de Fort Davis ele conta histórias, nós fazemos perguntas e ele responde todas. Com uma clareza, uma simplicidade incrível! Depois de cada noite a gente se sente enriquecido.
Bill é um funcionário aposentado da US MAIL - do correio dos Estados Unidos. Há alguns anos ele sofreu um derrame, tendo dificuldades em falar e está mancando com uma das pernas. Há 2 anos ele teve uma pneumonia grave, por isso nós já pensamos que vamos perder nosso Bill. Mas ele não se deixa vencer tão facilmente. A altura de um Dobsonian de 25” é bastante para dar medo a qualquer um de subir a escada que ele construiu. Ele sobe e desce a noite toda para colocar os objetos do universo no foco exato, trocar os oculares conforme a necessidade. Às vezes precisa de aumento maior, às vezes menor, ele sabe tudo! E faz isso para os outros terem uma idéia do verdadeiro universo. O universo que não precisa de propaganda, de panfletos, de rezas, de donativos, ou sacrifícios, nem de imagens artificiais, pois tudo aquilo é verdadeiro!
Há uma brincadeira no Texas, em que as pessoas precisam identificar um certo número de "deep sky objects" que é muito difícil e, depois, elas são contempladas com um botão muito bonito para colocar como troféu no chapéu. O Bill emprestou seu enorme telescópio aos amigos para facilitar a tarefa. Alem do seu profundo conhecimento do céu, tudo isso fez com que mais pessoas pudessem se divertir e aprender. Eu nunca vi o Bill posar na frente de um observatório famoso ou junto a uma celebridade. E todos nos fazemos isso! Faz parte da auto-estima e orgulho das pessoas, mas o Bill não precisa disso.
Na
última noite o céu estava encoberto e ele aproveitou a ajuda dos
meus amigos Bob e Diniz para desmontar o telescópio. Mas... agora não
tinha mais lugar para ele dormir. Então, ele
se despediu de nós (que é sempre penoso) pôs o pé no
acelerador e se foi, no caminho longe de volta para San Francisco. O
mundo precisa de mais gente como Bill, sorte que o contato com ele e
contagioso! E muito! Obrigada,
Bill, por mais uma semana maravilhosa e mais uma lição de vida!
Fotos de José Carlos Diniz, astrofotógrafo Texto de Helga Szmuk, astrônoma amadora
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