Helga Szmuk


OBSERVADORES DO CÉU


Antes de começar este artigo de John Dobson, quero dizer algumas palavras sobre ele. Antes de conhecer John, eu já conhecia seus discípulos, os integrantes dos "sidewalk astronomers" - Astrônomos das Calçadas. 
Ele  colocam os telescópios nas calçadas das ruas de San Francisco e chamam as pessoas para  mostrar um pouco do nosso universo. 

John é o inventor do famoso "Dobsonian telescopio", um modelo de telescópio usado no mundo todo, simples,  barato e relativamente fácil de ser construído, e que tem a vantagem de ser montado e desmontado em pouco tempo. 

Helga e um telecópio Dobsonian, no Texas Party de 2000
foto de Bob Osborn

John nunca ganhou nada com isso, não recebeu vantagem financeira nenhuma. Ele hoje poderia ser milionário. Quando tive a grande honra e felicidade de conviver com ele  por   semanas na minha casa, eu lhe perguntei - Por quê? 
Ele estava com 78 anos e falou: - Com todo este  dinheiro que poderia ter ganho e junto às preocupações com bancos e ações (um ramo do qual não entende absolutamente nada) podia ser enterrado em baixo da terra vítima de ataque cardíaco ou outras doenças. Agora estou com saúde, posso ser útil, e não posso comer mais de 3 vezes por dia; dispenso o carro do ano, pois minha velha van me leva para onde eu quiser. 

Ele me  deu um livro que  ele escreveu sobre cosmologia com o título: Astronomia para  crianças dos 8 anos aos 80. Só que ele errou num ponto: hoje tem 86 anos e ainda trabalha, dá palestras, viaja para todas os cantos do nosso planeta com perfeita saúde.

        John Dobson

 Observadores do céu

    
Um dos problemas da sabedoria da humanidade é que o que  enxergamos da superfície deste planeta não tem semelhança com com o Universo em geral. 

Nosso planeta é feito de ferro e rocha, mas a maior parte do universo é hidrogênio. As ações que vemos na superfície do nosso planeta são quase todas feitas na luz do sol. Mas o universo é movido pela gravidade. O que  enxergamos são continentes, oceanos, rios, lagos, florestas, desertos...

O universo é quase todo gás, parte condensado pela gravidade para formar galáxias e estrelas e algumas partes salpicadas com poeira cósmica. A poeira é feita de hidrogênio do interior das estrelas e espalhado através das galáxias pela explosão e o vento solar de estrelas muito maiores e muito mais quentes do que nosso sol. 

Mas a poeira é rara e, tal como nossos corpos, a rocha em que nós vivemos, é feito dessa poeira. É uma preciosidade rara. Os elementos mais pesados, tais como ferro, se afundaram para o centro coberto pela rocha e o manto da crosta é uma camada fina de água e gás.

Esta peça de museu que tem idade de 5 bilhões de anos, os componentes dos rochas, se infiltraram na água e fizeram nossos oceanos salgados. O sal de nosso sangue é o sal dos oceanos antigos há uns 400.000.000 anos. Nesta época, nossas ancestrais saíram através da terra para encontrar água e outros peixes. Nós somos seus descendentes, e nossos corpos são pequenos sacos de água salgada pendurado como roupa para secar em nossos ossos e procurando oxigênio da camada em cima de nós, e olhando com admiração através da escuridão da noite a vastidão do universo acima.

O próprio oxigênio que respiramos é libertado pela luz do sol através de  nossos parentes fotossintetizantes. Primeiro, pelas algas azuis e verdes e depois pelos folhas verdes tropicais. Até a chuva é acionada pela luz do sol. Mas o universo em geral tem muito pouca atmosfera, e não tem chuva e nem luz do sol. É muito frio, muito escuro e muito solitário, tentando desesperadamente cair em si através da atração inexplicável das partículas entre si. 

Mesmo a radiação do sol é causada por esta atração que empurra a temperatura do centro do sol até 15 milhões de graus celsius. E somente porque a velocidade do colapso foi reduzida através da fusão nuclear no seu centro, o sol está  banhando nossa terra com raios mornos há 5 bilhões de anos. Somente esta diminuição permitiu nosso longo desenvolvimento genético até conseguirmos sair da água e contemplar as maravilhas do céu estrelado.

Apesar de que nós, como organismo vivo, devemos nossa existência e nosso lento e longo desenvolvimento ao sol, o brilho ofuscante nos proibia de contemplar o universo durante o dia. O azul do céu durante o dia não é a cor do ar, mas simplesmente as ondas mais curtas da luz do sol espalhadas pela camada de gás em cima de nós. Esta camada de gás não iluminada pelo sol durante a noite é suficientemente transparente para nos permitir contemplar os cantos extremos de universo.

Mas somente olhando, observando, não é suficiente. É o começo. Nós precisamos entender o que nos vemos, e isto tem uma história. Entender se fundamenta na base de conceitos que chegam até nós do passado, não é um passado muito remoto. Isto não aconteceu nos primeiros cem milhões de anos depois que saímos da água e olhamos ao nosso redor. Porque nesses dias e noites remotos as informações e conceitos que se formaram não podiam ser transmitidos de geração à geração. Faltou-nos o mecanismo para transmissão. Não é transmitido geneticamente e não existiam palavras - palavras escritas. Através de conceitos o conhecimento é transmitido e, a idade que chamamos com muito orgulho: a idade da ciência, é uma idade de somente alguns milhares de anos. A linguagem falada também é  bastante recente. E mesmo a linguagem de corpo,  sinais com o corpo tais como alguns macacos usam. Orangotangos, gorilas, chimpanzés, têm somente 50 milhões de anos. Nós ganhamos uma capacidade de observar, e de entender. E isto é o que nos separa de todos os outros seres deste planeta!   

Para ajudar as pessoas que vivem nesse planeta a compreender o universo em que nos vivemos, colocamos nossos telescópios na frente de shopping centers, nas calcadas das cidades para que as pessoas possam ver os planetas, as luas do nosso sistema solar. Nós também temos filtros seguros para observar os manchas solares. Se possível, levamos nossos telescópios maiores nos parques e nas reservas, e também para o exterior onde as pessoas podem observar objetos mais distantes, de lugares escuros longe das luzes da cidade.

Qualquer pessoa é bem-vinda a se juntar a nós!

 

  John Dobson, fundador dos Sidewalk Astronomers 
(Astrônomos das Calçadas) 
e inventor do Dobsonian telescopio 


 

 

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