Helga Szmuk
Acreditar sem Duvidar

Eu sempre escuto as previsões do tempo e das marés na Tv, na véspera de ir à
praia. Eu escolho a maré baixa para andar ou maré alta para nadar, no verão. Mas
nunca soube ou me preocupei como eram feitas estes previsões.
Das previsões meteorológicas eu tinha uma noção, mas das marés, nada. Assim, eu
decidi ligar para o TVCOM e perguntei. A resposta foi evasiva, mas me deram o
email da pessoa que entende deste assunto. Escrevi para ele e no mesmo dia
recebi a resposta. A resposta de 5 páginas com explicações muito bonitas,
fórmulas matemáticas e tudo isto me abriu a mente. É muito mais complexo do que
eu sonhava! Quem me explicou os movimentos das marés se chama Eduardo Marone,
edmarone@ufpr.br
.
Agora eu acho este movimento aparentemente regular das marés muito mais bonito
ainda. Atrás destas previsões tem um conhecimento profundo, mas nós aceitamos
isto como óbvio, como algo que é nosso direito.
Falamos do pôr-do-sol e já sabemos, há séculos, que o sol não se põe. Porque há
pessoas que não pensam assim, que querem saber o porquê das coisas; e estas
pessoas mudaram nossa vida profundamente. Beethoven falou que a maior das
invenções do homem é a música. Para ele que era surdo! Mas tem muito mais...
A Terra parece plana, você anda em linha reta até chegar ao ponto desejado, mas
a linha não e reta. Moisés sentava no Nilo e observou os barcos chegarem do
horizonte e viu primeiro o mastro e somente depois o barco inteiro aparecer. Ele
sabia que atrás do horizonte existe algo. Mas demorou séculos até as pessoas
acreditarem que a Terra é redonda e muitas delas perderam a vida e a honra
defendendo a verdade.

Stonehenge foi o primeiro observatório a registrar as mudanças da altura do Sol
e, portanto, as estações.
Relógio
do sol!
Que
coisa mais linda! Eu acho que cada criança deveria aprender na escola como fazer
um. Assim aprenderiam com facilidade muito mais sobre geografia e
astronomia sem esforço. Simplesmente observando as mudanças das sombras, vão ter
consciência não somente das mudanças mas também seu lugar no universo, sua
latitude e longitude.
Isaac Newton observou uma maçã caindo da árvore e mudou o mundo para nós (não
sei se a história da maçã é verdadeira) mas de qualquer jeito ele não aceitou as
coisas como óbvias. Somente há pouco tempo atrás foi provado que a lei de Newton
é válida para qualquer lugar, portanto, uma lei universal.
Einstein falou que até Deus obedeceu às leis de Newton.
Um simples relojoeiro, o Harrison, salvou muitas vidas de bravos marinheiros
pensando como funciona o tempo e como podemos medir o tempo mesmo em alto mar.
Onde eu moro, em Florianópolis, os mergulhadores acham até hoje naufrágios de
séculos passados, onde inúmeros perderam a vida por não saber a longitude.
E um homem simples achou a solução. Como? Pensando!
Nós nunca devemos aceitar as coisas como certo, como nosso direito, mesmo se
parecem óbvias. Ninguém se preocupa ou questiona como é fantástico ter 2 olhos e
perceber a profundidade dos objetos e a distância. Somente quando você não tem
mais esta maravilha você percebe o mecanismo fantástico da paralaxia - perceber
3 dimensões - mas também existiram pessoas que não pensaram assim. 300 anos
depois de Cristo, Eratóstenes media a circunferência da Terra usando a paralaxia.
Numa época em que a maioria dos homens ainda acreditava que a Terra era plana.
Porque estes homens são diferentes? Eles usam esta máquina maravilhosa e mais
complexa do universo. Nosso cérebro e nossa curiosidade. Eu gosto muito de ouvir
as perguntas das crianças. Elas tem uma curiosidade ainda não contaminada pela
propaganda enganosa.
Eu anotei alguns destas perguntas:
Um menino de 4 anos - Por que as estrelas piscam no horizonte e não piscam no
Zenith?
Outra: um menino de uma favela em São Paulo, depois de ter assistido a um filme
sobre o planeta Saturno. - O que uma pessoa sentiria se estivesse sentada num
dos anéis do Saturno?
Meu filho quando tinha 9 ou 10 anos depois de ter tomado um tombo chorando com o
joelho sangrando: - E tudo e por causa desde tal Newton!
Nós adultos temos muito a aprender com a curiosidade das crianças e dos gênios.
Nada é obvio, o pôr-do-sol, a noite estrelada, o movimento dos planetas e do
universo, a chuva e as ondas do mar. Eu acho uma grande ignorância quando as
pessoas falam: Hoje o tempo está ruim! Não existe tempo ruim. Existe chuva e
sol, vento e calmaria, e muito mais e é por isto que tem vida na Terra. Mas não
e óbvio. Cada vez que olhamos para o céu nossa retina recebe informações através
de um fóton que viajou centenas, milhares de anos através do universo. Algumas
pessoas inventaram lentes cada vez maiores e observatórios cada vez mais
precisos para nos trazer estas informações mais precisas e mais detalhados para
nós. Cada vez que a cúpula de um observatório se abre eu me sinto frente a
frente com um pouco a mais de verdade do universo. É um momento mágico, não
entendo porque as religiosos se trancam dentro de igrejas. Sinagogas e templos
para ficar mais perto com o criador? Para fugir da verdade? Por que? Nada é tão
bonito como a verdade. Conhecer significa apreciar.
Os pais do menino que perguntou sobre o pisca das estrelas nunca contaram para
ele mentiras do Papai Noel, um velho feio de botas num pais tropical. Mas
contaram para ele que foi a mãe e o pai dele que compraram com o trabalho deles
e com o amor por ele. Escolheram o que ele mais gosta. Não é mais bonito? Eu
também prefiro tomar remédios que um médico competente recomendou a tomar chás
milagrosos, ou cremes feitos por mãos não competentes. Tenho inveja do jovens de
hoje que vão saber muito mais ainda sobre as segredos e maravilhas verdadeiros
do universo.
Helga
Texto de
Helga Szmuk,
astrônoma amadora
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