Calendários


Todos nós temos uma idéia de como o tempo afeta nossa vida, mas pouca gente pode expressar em palavras a definição do tempo. Nós sentimos que o tempo é medido em termos de processos repetitivos na natureza: o balançar de um pêndulo, a rotação da Terra, a mudança das estações, etc.

O primeiro processo para definir e medir tempo foi astronômico. De fato, 3 processos astronômicos diferentes fazem relógios quase perfeitos:
1- A rotação da Terra ao redor de seu eixo, a unidade a qual chamamos DIA;
2- A órbita  da Terra ao redor do sol, o ANO;
3- Um relógio no céu que marca 29.5 dias, o Mês sinódico e a órbita da Lua ao redor da Terra.

Nós não sabemos exatamente quando o homem começou a registrar o tempo, não sabemos se teve noção do tempo antes de saber escrever ou desenhar. No sul de Londres tem um monumento fantástico, a mais antiga prova de que os homens usavam as estrelas  para marcar o tempo. O nome é Stonehenge (hanging stone). Foi construído muito antes dos Celtas invadirem a Grã-Bretanha. O método de datar através do carbono 14 provou que a idade dessa obra é de 3000 anos antes de Cristo, quando foram colocadas as primeiras pedras no chão.  As pedras de pé foram em 2600 AC e os últimos acertos  em 1800 AC. Demorou 1200 anos para ser completado.

Por que foi construído?
Quando alguém fica no centro da construção, é quase "forçado" a olhar em uma certa direção e esta direção leva você exatamente ao ponto onde o sol se levanta no solstício do verão e do inverno. Também algumas linhas apontam para o nascer e pôr da lua cheia, perto dessas datas.

Stonhenge era um lugar santo ou religioso, um observatório e calendário. A construção de Stonhenge mostra a luta do homem em dominar a passagem do tempo através dos astros. E ainda, mostra a coisa mais importante: o universo é regular e previsível, demonstrando que o movimento das estrelas e do Sol é repetido em intervalos iguais. Mas há um  problema. O número de dias em um ano é um número ímpar. O ano tem 365 dias, 5 horas e 48 minutos (365.2422 dias);  a revolução da Terra e a translação ao redor do Sol não têm relação entre si. A cada ano a Terra está atrasada 6 horas, em 4 anos  um dia inteiro. Se não for corrigido, depois de algum tempo, no nosso hemisfério, o verão não seria mais em dezembro e no hemisfério norte não seria mais inverno. A agricultura, o plantio, a colheita, os feriados religiosos, tudo seria numa época diferente.

Muitos povos tentaram fazer isso. Os egípcios tiveram um ano de 365 dias e depois uma festa de 5 dias. (Os brasileiros adorariam isso!)
Outros fizeram calendários baseados no movimento da lua, em que a cada ano o número de meses varia.
A reforma calendária mais próxima de nosso sistema de hoje foi feita durante o reinado de Júlio Cesar, 48 anos antes de Cristo. Nessa época, o calendário era 3 meses fora da realidade das estações. Sosigenes precisava primeiro colocar os feriados religiosos em seus devidos lugares, nas estações, e depois fazer algo para que esse erro não acontecesse outra vez. Um mês extra foi adicionado. Depois um decreto foi criado, em que o ano tem 365 dias e a cada 4 anos um dia seria adicionado: nosso ano bissexto. Esse calendário Juliano era muito melhor, somente com um pequeno erro de 11 minutos e 14 segundos. Mesmo assim, através dos séculos o erro ficou mais visível e em 1582 os 11 minutos haviam se tornado em 11 horas.

Os astrônomos nesta época mostraram ao papa que o relógio do sol era errado. No dia 21 de março (equinócio) o ponto do Sol não estava no lugar devido. Alguma coisa deveria ser feita e o calendário Gregoriano foi promulgado: 4 de outubro de 1528 foi chamado 15 de outubro. O ano mais curto na história.
Somente em 1752  a Inglaterra aderiu e os russos somente em 1917.

A maioria das unidades do tempo vem da Babilônia. O sistema sexagesimal (minutos, segundos ou 24 horas/dia) é uma exceção curiosa vinda do Egito. Os egípcios dividiram o céu em 36 partes na longitude, chamado decans. Porque 24 horas de 36 decans? No Egito, a noite mais curta de verão tem 10 horas, 15 decans para atravessar o meridiano, mas somente 13 são visíveis, os outros estão perdidos no crepúsculo. Restam 12 como limite seguro para uma noite de verão. Mas muda com as estações, então a base segura: 12 de dia e 12 de noite. Isto pode ser uma explicação porque 24 horas/dia.

Por que a duração do dia dura 24 horas? Por que não 20 ou 12?
Nossa Terra se formou pelo ajuntamento de corpos pequenos no início da formação. Um desses impactos de um corpo do tamanho de Marte criou a Lua e determinou a duração do dia. Uma vez a Lua formada, contribuiu para diminuir a velocidade da rotação da Terra e a duração do dia. Através das pedras em Utah, que têm sinais das marés antigas e outros "rastros", os paleontologistas e estratígrafos deduziram que há 900 milhões de anos a duração de um mês era 23,5 dias (4 dias mais curtos do que hoje) e o dia durava 18 horas. Nos últimos 2500 anos, desde que os eclipses foram registrados, o dia ficou mais longo de 2.3 mil segundos por século. O freamento adicionou 1 segundo/ano desde 1820. Em 31 de dezembro um segundo será adicionado antes da meia noite.
Não comece a beber antes!

O bispo de Alexandria providenciou um mapa com 95 anos (5 ciclos metônicos) para calcular a Páscoa. O mapa terminou no ano que nos chamamos  531 A.C. Depois, um monge Dionisius, fez os seguintes cálculos para festejar a Páscoa: 19 para o ciclo metônico, 7 para os dias da semana, 4 para os anos bissextos, chegando no número 532. A base  do ciclo Dionisius é exatamente 532 anos antes, quando o equinócio e a lua nova coincidiram. Somente depois de 2 séculos dessa época, Dionisio foi aceito.

No século 16 admitiram que o AC (antes de Cristo) não coincide com o nascimento de Cristo. Então, festejar o quê? Uma data incerta? Quando começa o século 21? A presença de um zero não tem nada a ver com isso. Se você tem 100 livros escritos e quer lê-los em ordem da série, de um até 100, quando você leu todos os 100 você terminou uma série. A nova série começa com 101! Então o milênio começa com 2001.

No baile da Terra e da Lua ao redor do Sol, a duração dos meses não cabem exatamente em um ano (não é divisível por 2). Mas com o afastamento da Lua da Terra, chegou-se ao ponto de hoje, em que durante o eclipse a Lua cobre exatamente o disco do Sol. E por isso é um espetáculo único no sistema solar. Mas isso não vai durar para sempre. Os 3.8 metros de afastamento  por século vai até mais 600 milhões de anos e depois.... não haverá mais eclipse total! Eu gostaria muito de ver isso. O último eclipse! Quem gostaria de assistir junto comigo? Eu pago a passagem com acompanhante!

Helga Szmuk, astrônoma amadora

 

Revista Rio Total

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