Ano 22 - Semana 1.117

 




1º de março, 2019



Rui Martins, convidado para o Festival

 Internacional de Cinema de Berlim,


de 7 a 17 de fevereiro, 2019

Urso de Ouro em Berlim para o filme Synonymes, filme francês do israelense Nadav Lapid

O júri do Festival Internacional de Cinema de Berlim, composto de seis membros entre eles o realizador chileno Sebastián Lelio, presidido pela atriz francesa Juliette Binoche, concedeu o Urso de Ouro pra o filme francês Synonymes, dirigido pelo israelense Nadav Lapid. A delirante história de um israelense que se exila em Paris e decide não falar mais o hebreu.

O Urso de Ouro é a história delirante de um jovem israelense que se exila em Paris e decide não falar mais o hebreu.

Foram os seguintes os prêmios, distribuídos entre os filmes que concorriam na competição internacional:

O Urso de Ouro para o filme francês Synonymes, de Ladav Lapid

O Urso de Prata, correspondente ao Prêmio do Grande Júri para o filme francês Grâce à Dieu, de François Ozon

O Urso de Prata, correspondente ao Prêmio Alfred Bauer foi para o filme alemão Systemsprenger, de Nora Fingscheidt

O Urso de Prata de Melhor Diretor foi para a cineasta Angela Schanelec, no filme alemão Eu Estava Em Casa, Mas...

O Urso de Prta de Melhor Atriz foi para Yong Mei, no filme chinês So Long, My Son, do cineasta Wang Xiaoshuai

O Urso de Prata de Melhor Ator foi para Wang Jingchun, no filme chinês So Long, My Son, do cineasta Wang Xiaoshuai

O Urso de Prata de Melhor Roteiro foi para o filme italiano Piranhas, de Claudio Giovannesi

O Urso de Prata de Melhor Contribuição Artística foi para o filme norueguês Out stealing Horses, Hans Peter Moland

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CURTAS METRAGENS

Urso de Ouro para a Melhor Curta Metragem para o filme Umbra de Florian Fischer und Johannes Krell

Urso de Prata correspondente ao Prêmio do Júri para o filme Blue Boy de Manuel Abramovich

Prêmio Audi de Curta Metragem para o filme Rise da brasileira Bárbara Wagner e Benjamin de Burca

A brasileira Bárbara Wagner repartiu prêmio com Benjamin de Burca

Curta metragem indicada pelo Festival de Berlim para os Prêmios do Cinema Europeu - Suc de Síndria (Watermelon Juice) de Irene Moray




Berlim - filme alemão faz lembrar cinema da boca do lixo

O filme sensação no Festival Internacional de Cinema de Berlim, que deixou zonzos os críticos de cinema e abarrotou o imenso salão destinado às entrevistas coletivas foi A Luva Dourada, do realizador Fatih Akin. Nele há um pouco de Rogério Sganzerla com José Mojica Marins, no relato hiperrealista dos crimes do assassino em série Fritz Honka, de Hamburgo, capaz de provocar nos espectadores nojo, repulsa e aversão, junto com a impressão de vir da tela do cinema um cheiro fétido, provocado pelos cadáveres em decomposição, no sotão onde vivia Fritz Honka.

O assassino atacava mulheres solitárias

O bairro de St. Pauli, em Hamburgo, nos anos 70, era uma espécie de Boca do Lixo, versão alemã, onde à noite se reunia o rebotalho ou refugo humano, desde bebados a prostitutas, jogadores de baralho, traficantes, nazistas, zombies e criminosos. Ali havia, e ainda há, um boteco ainda que era mais sórdido nos anos 70, o Luva Dourada.

Esse hiperrealismo também lembra o dinamarquês Lars von Trier. Porém Fatih Akin, com suas prostitutas obesas e desdentadas, sua decoração de bonecas no sótão maldito, seu assassino estrábico com um olho maior que o outro atrás dos óculos de lentes grossas e a ligeira corcunda do criminoso, vai bem além do Nosferatu de Murnau ou Herzog. E lembra também Frankstein. Porém, o filme de Fatih Akin não provoca medo mas sim repulsa e nojo.

Sem dúvida, alguns críticos devem ter deixado a sala de projeção para ir vomitar. Isso, porém, não significa uma rejeição do filme pela crítica, que tomou um choque mas correu imediatamente para a coletiva do realizador Fatih Akin, logo após a projeção do filme, lotando totalmente a sala.

O filme foi baseado num livro biográfico do assassino, escrito pelo alemão Heinz Strunk, digno do jornal paulista Notícias Populares da mesma época. Entre as cenas grotescas e nauseabundas, como os vermes das carnes podres de suas vítimas caindo do teto sobre os vizinhos de baixo, há o gesto de uma de suas vítimas, uma sobrevivente, de passar mostarda no pênis flácido e impotente do seu quase assassino. Menção simbólico aficionado com a preferência nacional alemã pela salsicha igualmente flácida.

Apesar do mau cheiro do sótão e da figura estranha de Fritz Hunka, a descoberta de seus crimes só ocorreu ao haver um princípio de incêndio no seu prédio, motivando um controle dos apartamentos e do sótão pelos bombeiros.



Berlim - Filme ridiculariza o machismo católico ortodoxo na Macedônia

Depois do anticlerical Graças a Deus, do francês François Ozon, o Festival Internacional de Cinema reincide com outro filme de crítica à religião, e, desta vez, o alvo é a Igreja Ortodoxa da Macedônia. Uma festa, na data da Epifânia, que consiste no desafio de recuperar uma cruz lançada ao rio pelo padre local, caiu no ridículo, pois pela primeira vez, em toda Macedônia, foi uma mulher a mais rápida, desencadeando uma reação machista.

Se existe Deus, não é masculino mas feminino

Todos os anos, a tradição ortodoxa, na Macedônia, é a de lançar ao rio uma cruz no rio mais próximo. Quem consegue mergulhar e achar o símbolo cristão no fundo do rio pode guardar a cruz, com o valor de amuleto capaz de dar sorte. Porém, ninguém esperava que, em 2014, uma mulher de 32 anos, Petrunyia, desempregada, com diploma superior em História, mergulhasse junto com os rapazes da região e recuperasse a cruz, desencadeando uma vaga machista, envolvendo não só os rapazes derrotados mas igualmente a Igreja, a polícia e a própria justiça

A realizadora macedônia Teona Struger Mitevska se inspirou desse episódio, publicado nos jornais da época mas abafado pelas autoridades civis e religiosas, para fazer um filme de denúncia do caráter machista daquela comemoração popular da Epifânia, destinado a fazer muito mais vagas e provocar muito mais escândalo na
Macedonia e nos países ortodoxos, que o fato ocorrido há cinco anos.

Segundo a realizadora Teona, o ocorrido provocou na época uma simples pequena notícia no jornal local, na rubrica fatos diversos, mostrando o comprometimento da imprensa com os poderes político e religioso da região, além de ter sido demitida a única jornalista ativa na divulgação desse episódio pela televisão.

Por uma razão principal, o filme Deus Existe, Seu Nome é Petrunyia foi até agora o mais aplaudido pelos críticos, viveu um standing ovation no momento da entrevista coletiva da realizadora e atores do filme com a crítica, e a atriz principal Zorica Nusheva, no papel de Petrunyia, é a mais cotada para o Urso de melhor atriz.

Mais do um previsível sucesso internacional, num momento em que até a Berlinale divulga um documento criando uma paridade entre os filmes de gênero, são as previsíveis repercussçoes do filme nos países dos Balcâs, onde as mulheres ainda estão longe de um acesso à igualdade com homens, não apenas entre os ortodoxos como entre os muçulmanos.

A realizadora Teona Struger Mitevska, uma feminista convicta, como se reafirmou no encontro com a crítica, tomou praticamente como missão pessoal, denunciar com seu filme a situação inferior das mulheres no seu país e nos Balcãs em geral, com o objetivo de ajudar numa mudança dessa situação entre os jovens macedônios.

A jovem Petrunyia, causadora do escândalo e inspiradora do filme, deixou a Macedônia faz algum tempo e vive atualmente em Londres. Ausente na apresentação do filme, imagina-se que poderá vir a Berlim, caso haja uma premiação.

Na sinopse do filme, a Berlinale destaca - ¨Teona Strugar Mitevska faz uma sátira raivosa mas melancólica, denunciando que o mergulho religioso para celebrar a Epifania é um assunto de homem. Mas desta vez é Petrunya quem recupera a santa cruz das águas geladas. Contra todas as pressões, ela defende seu triunfo. Uma sátira sobre a mudança democrática na sociedade macedônia que transmite um severo julgamento aos representantes da igreja, do judiciário e da mídia. As simpatias do filme são todas com a mulher determinada que se posiciona contra as tradições arcaicas e o oportunismo paralisante¨.




Berlim – O jornalista que inspirou a Fazenda de Animais de Orwell

O jornalista galês Gareth Jones foi o primeiro a testemunhar e a descrever a fome na Ucrânia em 1933 - uma catástrofe desencadeada pela política de reforma agrária de Stalin. Entretanto, enfrentou muitas dificuldades para trazer essa informação ao Ocidente. Um encontro com George Orwell deu a idéia do livro A Fazenda dos Animais ao autor de 1984. O filme Mr. Jones, da realizadora Agnieszka Holland é um retrato cinematográfico da época, baseado em acontecimentos reais.

Gareth Jones, o primeiro jornalista a revelar a fome na URSS nos anos 30, é filme em Berlim

¨A grande fome na URSS nos anos 30, causadora de centenas de milhões de mortos, foi um terrível crime humanitário de Stalin, muito pouco conhecido. Hoje, com a realização desse filme, é como se os fantasmas das vítimas tenham vindo para pedir justiça. O jornalista Gareth Jones era alguém muito inteligente corajoso, embora um tanto ingênuo, tanto que acabou sendo assassinado na Manchúria, onde fazia outra grande reportagem, com menos de 30 anos, por um agente soviético¨, conta a realizadora polonesa Agnieszka Holland.

Ela aproveitou para ressaltar a importância do trabalho dos jornalistas livres, mas alertou para o mal causado pela imprensa corrupta e pelos jornalistas vendidos. A democracia só pode funcionar com uma imprensa livre. Entretanto, no mundo de hoje a informação pode ser alterada e controlada pelas redes sociais da Internet. Para ela, Stalin foi um dos maiores assassinos da história, mas acabou se tornando um herói por ter ganhado a guerra contra Hitler.

O filme conta um provável encontro de Gareth Jones com o escritor George Orwell, que teria inspirado o livro a Fazenda dos Animais, escrito no final dos anos 30 mas só publicado em 1945, graças ao sucesso de 1984.

Em março de 1933, o jornalista galês Gareth Jones tomou um trem de Moscou para Kharkov, na Ucrânia. Desembarcou numa pequena estação e partiu a pé numa viagem pelo país onde estemunhou, em primeira mão,os horrores da fome.

Por toda parte, há pessoas mortas e em todos os lugares encontram-se policiais e agentes do serviço secreto soviético, encarregdos de impedir que notícias sobre essa catástrofe da fome sejam divulgadas ao público em geral. A coletivização forçada da agricultura por Stalin tinha provocado miséria e ruína, conta Gareth Jones, a política agrícola de Stalin tinha sido um fracasso.

Apoiado por Ada Brooks, uma repórter do New York Times, em Moscou, Jones consegue levar essas notícias chocantes ao Ocidente, desmentindo seu rival, o jornalista americano pró-Stálin Walter Duranty, ganhador em 1933 do Prêmio Pulitzer, que, mais tarde, foi contestado.

Filmado na Polônia, na Escócia e em locações originais na Ucrânia.


Berlim - graças a Deus, o crime está prescrito

Quando Alexandre vê, numa cerimônia religiosa, o padre Bernard Preynat, que dele abusou, ainda trabalhando na Igreja com crianças, ele e outras vítimas tomam medidas legais contra o pedófilo, diante da cumplicidade do arcebispo Philippe Barbarin. Filme-realidade, o julgamento será dia 7 de março em Lyon.

i Filme francês denuncia padre pedófilo e cumplicidade da Igreja

Um só padre católico, na região de Lyon, na França, abusou de mais uma centena de crianças, quando no exercício de sua função de orientador espiritual junto ao movimento católico dos escoteiros mirins A quase totalidade dessas crianças não ousava reagir e nem contar para os pais. Apenas algumas, o que motivou cartas para o arcebispo da cidade. Cartas que não provocaram nenhuma reação da direção da Igreja, mesmo se tais atos iriam repercutir na vida adulta dessas crianças, algumas traumatizadas sexualmente.

Mais grave, esse mesmo padre Freynat, continuou no seu trabalho com as crianças, pressupondo-se ter continuado a agir como um pedófilo, desta vez com uma certa cumplicade do arcebispado, para o qual Freynat seria simplesmente um doente atraído por crianças e não um autor de crime sexual, sujeito a processo e prisão.

Esse não é apenas o enredo de um filme, mas a realidade ocorrida na mais católica e conservadora cidade francesa, onde o arcebispo Philippe Barbarin, também adotou
o mesmo método de seu antecessor, minimizando os atos de pedofilia e permitindo ao sacerdote continuar no exercício de sua função.

Ao silêncio da Igreja e dos pais, que descartavam as informações dos filhos julgando-as invenções ou exageros, seguiu-se o das autoridades locais de Lyon, dispostas a apoiar o arcebispo Barbarin, quando, enfim, a Justiça começou a agir, diante das denúncias apresentadas pelas próprias crianças, agora já adultos, muitos com traumas dos abusos na infância, reunidos num site online, cujo nome A Palavra Libertada, decidiu processar judicialmente o padre e o arcebispo.

O filme do cineasta francês Fançois Ozon descreve todo o processo de conscientização e organização dos adultos abusados sexualmente na infância e adolescência e com o apoio de suas famílias e as etapas de ações junto à Polícia e à Justiça, lembrando nisso os filmes políticos de investigação dos anos 60-70, como os de Costa Gavras. Por coincidência, Graças a Deus - titulo do filme - estreou em Berlim e começará a ser exibido na França, justamente quando a Justiça irá se pronunciar sobre a culpabilidade ou não do arcebispo Philippe Barbarin, no próximo dia 7 de março.

A última cena do filme, cujas cenas são filmadas dentro de Igrejas ou com as famílias de fiéis devotos católicos traídos por um padre e um arcebispo, coloca em destaque a própria questão da existência de Deus. Em todo caso, o Vaticano tinha sido informado do que se passava em Lyon, sem agir, e diante de uma espera condenação do arcebispo Barbarin, deverá agir, se penitenciar ou se descredibilizar.

O título do filme - Graças a Deus - diante da prescrição dos crimes, demonstra a hipocrisia do arcebispo Barbarin - foi uma frase por ele pronunciada durante uma entrevista coletiva com a imprensa em Lyon.

Site online organizado em Lyon pelas vítimas do padre pedófilo Bernard Freynat - https://www.laparoleliberee.fr/sitemap/


Nota - Na França, o julgamento do cardeal Philippe Barbarin terminou no Tribunal Criminal de Lyon. Após 4 dias de audiência, a decisão final foi reservada para o dia 7 de março. O cardeal Barbarin é acusado por nove vítimas de ter mantido silêncio, embora estivesse ciente dos atos de pedofilia do padre Bernard Freynat de sua diocese. O promotor não exigiu uma condenação contra o cardeal, considerando que os fatos estão prescritos. Mas para alguns demandantes, esse processo já é uma vitória em si.




Decepção com o filme de abertura em Berlim

Berlim começa com um romantismo otimista mas irreal.
Gentileza e boas intenções podem ser a história de um filme, mas nada têm a ver com a realidade da vida numa cidade como Nova Iorque, por isso, foi um tanto incompreensível a abertura do Festival de Berlim com o filme da dinamarquesa Nora Scherlig.



The Kindness of Strangers ou a Gentileza dos Estranhos, a história de uma jovem mãe com dois filhos não chega sequer a ser uma fábula sobre o milagre da autoajuda numa grande cidade, contando com uma mulher pode romper o casamento, justamente com um policial capaz de localizá-la, e sobreviver utilizando-se de pequenos furtos.

Nora Scherlig reconhece que seus personagens estão longe de qualquer intenção política, mostrando que desde seu ponto de partida seu filme estaria mais próximo de um conto de fadas, irreal e desnecessário, um tanto distante dos filmes exibidos em Berlim, mesmo se sua intenção era contar histórias de diversas pessoas em crise, ajudados por bons samaritanos.

A sinopse do filme deixa os espectadores realistas decepcionados - ¨com um olhar aguçado, Lone Scherfig explora o comportamento humano em condições extremas. Ela retrata a dureza da vida na selva urbana, mas também demonstra o que pode crescer quando estranhos se aproximam em amizade e com o coração aberto¨. Poderíamos acrescentar - de boas intenções o inferno anda cheio.Tive vontade de contar também como alguns de seus primeiros filmes estavam ligados ao começo de minha carreira de jornalista. Decidi guardar para mim minha erxperiência pessoal, nada de auto-show. Conto só aqui, já quase no final desta Berlinale, partilhando de certa forma, com Agnès Varda, algumas recordações.

Vi Cléo de 5 a 7, em São Paulo, não me lembro exatamente em qual cinema. Nessa época, sem o domínio atual da distribuição norteamericana, era possível assistir na capital paulista os filmes franceses, talvez com certo atraso. O primeiro filme de Agnès Varda é de 1962, talvez tenha sido exibido em São Paulo em 1963/4.


Porém, me lembro muito bem do cinema no qual passou Le Bonheur. O cinema não deve mais existir, poderei checar na minha próxima viagem. Mas era numa galeria da rua Barão de Itapetininga. Lançado em 1964, devo ter visto em 1965, já repórter do Estadão, onde lia atentamente a página de cinema do Rubem Biáfora. Quem sabe seria um minifestival de cinema francês.

Quando na Berlinale, Agnès Varda mostrou algumas cenas de Le Bonheur me lembrei até do momento em que descia a escada rolante para ver o filme. Coincidência, vivíamos o começo da ditadura militar com Castelo Branco, era ainda light, se assim podemos definir. Hoje, vivemos não uma ditadura militar, mas o início ainda light de um governo de extrema direita. Espero que a comparação termine aí e que esse governo não nos leve também a uma gradativa eliminação da liberdade de expresão e à repressão.

Mesmo porque minha segunda lembrança forte de Agnès Varda, foi em Paris, onde já estava exilado desde agosto de 1969. Uma lembrança indireta, não vi Varda, mas estive no estúdio de seu marido Jacques Demy, para uma entrevista logo depois do sucesso do filme Os Guarda-Chuvas de Cherbourg. O Brasil nessa época vivia uma violenta ditadura. Que a história não se repita.

O que mais contar de Agnès Varda? Que ela deixou seus cabelos embranquecerem, mesmo porque está com noventa anos? Que sua filha Rosalie e seu filho Mathieu viajam com ela em suas conferências com o público francês e na escolha de novos projetos? Sim, porque Agnès Varda, pelo jeito ainda não se aposentou e seu documentário Varda par Agnès não será seu último filme.

BERLIM, TRÊS FILMES BRASILEIROS NA MOSTRA FóRUM

O Festival Internacional de Cinema de Berlim divulgou os títulos de três filmes brasileiros selecionados para a mostra paralela Fórum.

A Rosa Azul de Novalis, Querência e Chão são os três filmes brasileiros selecionados pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim para a mostra paralela Fórum.

A Rosa Azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, se reporta ao escritor alemão Georg Friedrich Philipp Freiherr von Hardenberg, 1712;1801, teólogo, filósofo, poeta, cujo pseudônimo é Novalis, considerado um precursor da literatura moderna. O ambiente é o apartamento em São Paulo, onde vive Marcelo, quarentão, soropositivo, dotado de grande memória, recitando trechos da novela Heinrich von Ofterdingen, numa postura nada convencional: de bruços com o cabo de uma rosa azul, símbolo do romantismo no século XIX, enfiado no ânus.

Querência, de Helvécio Marins Jr., é um longa metragem rodado no interior, onde outro Marcelo rural e nada urbano, sonha em ser animador de rodeios e não tira seu chapéu de vaqueiro.

Chão, de Camila Freitas, trata da luta pela reforma agrária no Estado de Goiás e da oposiçâo do agronegócio aos defensores da agricultura ecológica. Mostra, como numa parábola, a queda do governo de esquerda, que nâo criou estruturas para a reforma agrária, substituído pelos conservadores.

O cinema brasileiro tem ainda dois filmes na mostra paralela Panorama.

O primeiro é Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes. Na cidade de Toritama, considerada um centro ativo do capitalismo local, mais de 20 milhões de jeans são produzidas anualmente em fábricas caseiras. Orgulhosos de serem os seus próprios chefes, os proprietários destas fábricas trabalham sem parar em todas as épocas do ano, exceto no Carnaval: chega a semana de folga. Vendem tudo que acumularam e descansam em praias paradisíacas.

O segundo é Greta, de Armando Praça, segue a sinopse do filme ainda inédito: Pedro, um enfermeiro homossexual de 70 anos, fervoroso fã de Greta Garbo, precisa liberar uma vaga no hospital onde trabalha para Daniela, sua melhor amiga. Para salvar Daniela, decide ajudar Jean, um jovem que acaba de ser hospitalizado algemado por ter cometido um crime, ao qual ajuda a fugir e esconde em sua própria casa até sua recuperaçâo. Nesse período, ambos se envolvem afetiva e sexualmente. Essa relação será essencial para Pedro sobreviver à perda de Daniela, e provoca mudanças surpreendentes nele mesmo e no seu modo de viver a solidão.

Na mostra Geraçâo, está o filme Espero tua re(volta), de Elisa Capai, um documentário ainda inédito no Brasil. Um retrato do movimento estudantil, que ganhou força a partir do ano de 2015, ocupando escolas estaduais por todo Brasil. Acompanhando três jovens do movimento e com imagens de arquivo de manifestações desde 2013, o documentário tenta compreender as reivindicações estudantis a partir do ponto de vista dos estudantes envolvidos.

 BERLIM SELECIONA MAIS DOIS FILMES BRASILEIROS

O Festival Internacional de Cinema de Berlim selecionou mais dois filmes brasileiros para a mostra paralela Panorama: Divino Amor e La Arrancada.

La Arrancada, falado em espanhol é um documentário do cineasta amazonense Aldemar Matias, numa coprodução com Cuba e França. Ainda inédito no Brasil, o filme conta a história de Jenniffer, uma jovem atleta que está questionando seu compromisso com a equipe nacional de atletismo de Cuba. Sua mãe, Marbelis, trabalha numa instituição de saúde pública em Havana. Enquanto seu irmão mais novo se prepara para deixar o país, as dúvidas de Jenniffer se fortalecem. Essa crônica familiar intimista e sensível retrata uma juventude num país de futuro incerto.

Divino Amor, de Gabriel Mascaro, é uma coprodução com o México, Noruega e Dinamarca, e se insere dentro do Brasil evangélico. Joana, uma escrivã de cartório usa sua posição no trabalho para salvar casais que ali chegam para se divorciar. Procura convencer os casais a participarem de uma terapia religiosa de reconciliação no grupo Divino Amor, a fim de manter a família dentro da fé e da fidelidade conjugal. O prazer é um presente de Deus para a manutenção da família e da procriação do reino de Deus. Mas seu esposo Danilo se confirma infértil e Joana convive com o sentimento de ter uma família incompleta.



Hoje o destaque é para o filme de François Ozon, na competição internacional com o filme Graças a Deus.

Filme em Berlim, poderia também ter João de Deus

A hipocrisia de religiosos que se aproveitam da proteção dada pelas igrejas e se servem da crença em Deus de tantos devotos, ou ainda pior, da inocência infantil vai ser um dos temas no próximo Festival Internacional de Cinema de Berlim, com a projeção do novo filme do conhecido cineasta francês François Ozon, cujo título foi inspirado numa frase do cardeal Barbarin, arcebispo de Lyon, Graças a Deus.

O ator principal poderia ser o milagroso curandeiro João de Deus, denunciado por mais de quarenta mulheres por atos de abuso sexual, havendo também acusações de pedofilia. Um dos importantes filmes do Festival de Berlin em 2015 foi O Clube, do realizador Pablo Larrain, recompensado com o Prêmio do Júri. Tratava de padres pedófilos reunidos numa cidade do sul do Chile. Essas denúncias coincidem com uma nova política do Vaticano, relacionada com os padres pedófilos, nem sempre satisfatória como ocorreu na cidade francesa de Lyon.

O filme de François Ozon trata da pedofilia cometida por um padre católico na França, acobertada por seus superiores. Não se trata de um documentário,embora Ozon nisso tivesse pensado, Porém de uma reconstituição com base em depoimentos de três homens, hoje adultos e com família, vítimas de abusos sexuais quando meninos escoteiros, na versão católica do movimento de Baden Poweel, pelo padre Bernard Freynat.

O caso e depois processo Freynat começou quando Alexandre, 40 anos, pai de cinco crianças, católico praticante, viu numa igreja de Lyon o padre Freynat, do qual fora vítima. Revoltado por saber que ele ainda trabalhava com crianças do escotismo, decidiu alertar o bispo de Lyon sobre os riscos vividos pelos meninos. Mas o cardeal arcebispo de Lyon, Barbarin, utilizava sempre desculpas para justificar sua falta de iniciativas contra o padre pedófilo, isso levando Alexandre a apresentar queixa na Polícia. Porém, os abusos estavam prescritos, garantindo ao padre Freynat, protegido por sua corporação, poder praticar novos abusos.

Diante da cumplicidade da Igreja, Alexandre decidiu criar a associação A palavra liberada, e com isso isso surgiram outras vítimas do padre Freynat, quando escoteiros católicos. Sua queixa na Polícia deu origem à abertura de um processo judiciário, que hoje se beneficia de uma nova lei tornando prescritos abusos pedófilos só depois de 30 anos de sua ocorrência.

Numa primeira fase, o caso foi arquivado, mas dez das 70 vítimas conhecidas, decidiram abrir um novo processo contra o bispo por não ter denunciado e nem punido o padre Bernard Freynat por abuso sexual. Depois de 2016, data do primeiro processo, soube-se que o arcebispo de Lyon havia excluído quatro padres também por denúncias de pedofilia. Isso não impediu que o novo processo, no qual é citado igualmente o Vaticano, sem prescrição dos fatos, prosseguisse, devendo haver um pronunciamento da justiça, em janeiro, pouco antes do Festival de Berlim. Quebrando uma velha regra que exige filmes inéditos na competição, o filme Graças a Deus, foi exibido, faz alguns dias, num cinema da cidade de Orleans.

Embora o jornal francês online Mediapart tenha encarregado três jornalistas de investigação do "Caso Freynat", o cineasta François Ozon não quis fazer um versão francesa de Spotlight, limitando-se a reconstituir os fatos sob a visão dos três homens vítimas de pedofilia.

O título do filme baseia-se numa frase do cardeal Barbarin numa entrevista para a imprensa francesa, há dois anos, na cidade de Lourdes. O cardeal disse textualmente e isso está gravado na Internet, "Graças a Deus, eles (os crimes de pedofilia) estão prescritos..." , manifestando indiretamente seu alívio pela não possibilidade de processo, naquela época, contra o padre Freynat.

François Ozon é um dos maiores cineastas franceses da atualidade.

Além de Graças a Deus, de François Ozon, o Festival Internacional de Cinema de Berlim anunciou outros cinco filmes na principal Competição:
The Ground Beneath My Feet (Áustria), de Marie Kreutzer
The Golden Glove (Alemanha/França), de Fatih Akin
I Was At Home, But (Alemanha/Sérvia), de Angela Schanelec
A Tale of Three Sisters (Turquia/Alemanha/Holanda/Grécia), de Emin Alper
Ghost Town Anthology (Canadá), de Denis .

A presidente do Júri será a conhecida atriz francesa Juliette Binoche.

O Festival Internacional de Cinema de Berlim exibirá seus filmes do 7 ao 17 de fevereiro. Esse será o último Festival organizado pelo Dieter Kosslick, que se aposenta. Em 2020, assumirá a direção da Berlinale ou Festival Internacional de Cinema de Berlim, o italiano Carlo Chatrian, que deixou o Festival Internacional de Cinema de Locarno.



 

Direção e Editoria
IRENE SERRA
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