Ano 22 - Semana 1.113

 




16 de fevereiro, 2019

Emocionante reencontro. Primeiro, ela, Agnès Varda, sentada na cadeira de realizadora, conta na tela da Berlinale, como foram seus mais de sessenta anos no cinema, filme por filme. Terminada a projeção desse filme-documentário, ela surge em carne e osso, lúcida, expressão verbal fluida e inteligente, com seu corte de cabelo que nunca mudou e que lembra o dos nossos índios. E começa a conversar com os jornalistas.



Rui Martins, convidado para o Festival Internacional de Cinema de Berlim,
de 7 a 17 de fevereiro, 2019

Tive vontade de contar também como alguns de seus primeiros filmes estavam ligados ao começo de minha carreira de jornalista. Decidi guardar para mim minha erxperiência pessoal, nada de auto-show. Conto só aqui, já quase no final desta Berlinale, partilhando de certa forma, com Agnès Varda, algumas recordações.

Vi Cléo de 5 a 7, em São Paulo, não me lembro exatamente em qual cinema. Nessa época, sem o domínio atual da distribuição norteamericana, era possível assistir na capital paulista os filmes franceses, talvez com certo atraso. O primeiro filme de Agnès Varda é de 1962, talvez tenha sido exibido em São Paulo em 1963/4.


Porém, me lembro muito bem do cinema no qual passou Le Bonheur. O cinema não deve mais existir, poderei checar na minha próxima viagem. Mas era numa galeria da rua Barão de Itapetininga. Lançado em 1964, devo ter visto em 1965, já repórter do Estadão, onde lia atentamente a página de cinema do Rubem Biáfora. Quem sabe seria um minifestival de cinema francês.

Quando na Berlinale, Agnès Varda mostrou algumas cenas de Le Bonheur me lembrei até do momento em que descia a escada rolante para ver o filme. Coincidência, vivíamos o começo da ditadura militar com Castelo Branco, era ainda light, se assim podemos definir. Hoje, vivemos não uma ditadura militar, mas o início ainda light de um governo de extrema direita. Espero que a comparação termine aí e que esse governo não nos leve também a uma gradativa eliminação da liberdade de expresão e à repressão.

Mesmo porque minha segunda lembrança forte de Agnès Varda, foi em Paris, onde já estava exilado desde agosto de 1969. Uma lembrança indireta, não vi Varda, mas estive no estúdio de seu marido Jacques Demy, para uma entrevista logo depois do sucesso do filme Os Guarda-Chuvas de Cherbourg. O Brasil nessa época vivia uma violenta ditadura. Que a história não se repita.

O que mais contar de Agnès Varda? Que ela deixou seus cabelos embranquecerem, mesmo porque está com noventa anos? Que sua filha Rosalie e seu filho Mathieu viajam com ela em suas conferências com o público francês e na escolha de novos projetos? Sim, porque Agnès Varda, pelo jeito ainda não se aposentou e seu documentário Varda par Agnès não será seu último filme.

BERLIM, TRÊS FILMES BRASILEIROS NA MOSTRA FóRUM

O Festival Internacional de Cinema de Berlim divulgou os títulos de três filmes brasileiros selecionados para a mostra paralela Fórum.

A Rosa Azul de Novalis, Querência e Chão são os três filmes brasileiros selecionados pelo Festival Internacional de Cinema de Berlim para a mostra paralela Fórum.

A Rosa Azul de Novalis, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro, se reporta ao escritor alemão Georg Friedrich Philipp Freiherr von Hardenberg, 1712;1801, teólogo, filósofo, poeta, cujo pseudônimo é Novalis, considerado um precursor da literatura moderna. O ambiente é o apartamento em São Paulo, onde vive Marcelo, quarentão, soropositivo, dotado de grande memória, recitando trechos da novela Heinrich von Ofterdingen, numa postura nada convencional: de bruços com o cabo de uma rosa azul, símbolo do romantismo no século XIX, enfiado no ânus.

Querência, de Helvécio Marins Jr., é um longa metragem rodado no interior, onde outro Marcelo rural e nada urbano, sonha em ser animador de rodeios e não tira seu chapéu de vaqueiro.

Chão, de Camila Freitas, trata da luta pela reforma agrária no Estado de Goiás e da oposiçâo do agronegócio aos defensores da agricultura ecológica. Mostra, como numa parábola, a queda do governo de esquerda, que nâo criou estruturas para a reforma agrária, substituído pelos conservadores.

O cinema brasileiro tem ainda dois filmes na mostra paralela Panorama.

O primeiro é Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, de Marcelo Gomes. Na cidade de Toritama, considerada um centro ativo do capitalismo local, mais de 20 milhões de jeans são produzidas anualmente em fábricas caseiras. Orgulhosos de serem os seus próprios chefes, os proprietários destas fábricas trabalham sem parar em todas as épocas do ano, exceto no Carnaval: chega a semana de folga. Vendem tudo que acumularam e descansam em praias paradisíacas.

O segundo é Greta, de Armando Praça, segue a sinopse do filme ainda inédito: Pedro, um enfermeiro homossexual de 70 anos, fervoroso fã de Greta Garbo, precisa liberar uma vaga no hospital onde trabalha para Daniela, sua melhor amiga. Para salvar Daniela, decide ajudar Jean, um jovem que acaba de ser hospitalizado algemado por ter cometido um crime, ao qual ajuda a fugir e esconde em sua própria casa até sua recuperaçâo. Nesse período, ambos se envolvem afetiva e sexualmente. Essa relação será essencial para Pedro sobreviver à perda de Daniela, e provoca mudanças surpreendentes nele mesmo e no seu modo de viver a solidão.

Na mostra Geraçâo, está o filme Espero tua re(volta), de Elisa Capai, um documentário ainda inédito no Brasil. Um retrato do movimento estudantil, que ganhou força a partir do ano de 2015, ocupando escolas estaduais por todo Brasil. Acompanhando três jovens do movimento e com imagens de arquivo de manifestações desde 2013, o documentário tenta compreender as reivindicações estudantis a partir do ponto de vista dos estudantes envolvidos.

 BERLIM SELECIONA MAIS DOIS FILMES BRASILEIROS

O Festival Internacional de Cinema de Berlim selecionou mais dois filmes brasileiros para a mostra paralela Panorama: Divino Amor e La Arrancada.

La Arrancada, falado em espanhol é um documentário do cineasta amazonense Aldemar Matias, numa coprodução com Cuba e França. Ainda inédito no Brasil, o filme conta a história de Jenniffer, uma jovem atleta que está questionando seu compromisso com a equipe nacional de atletismo de Cuba. Sua mãe, Marbelis, trabalha numa instituição de saúde pública em Havana. Enquanto seu irmão mais novo se prepara para deixar o país, as dúvidas de Jenniffer se fortalecem. Essa crônica familiar intimista e sensível retrata uma juventude num país de futuro incerto.

Divino Amor, de Gabriel Mascaro, é uma coprodução com o México, Noruega e Dinamarca, e se insere dentro do Brasil evangélico. Joana, uma escrivã de cartório usa sua posição no trabalho para salvar casais que ali chegam para se divorciar. Procura convencer os casais a participarem de uma terapia religiosa de reconciliação no grupo Divino Amor, a fim de manter a família dentro da fé e da fidelidade conjugal. O prazer é um presente de Deus para a manutenção da família e da procriação do reino de Deus. Mas seu esposo Danilo se confirma infértil e Joana convive com o sentimento de ter uma família incompleta.



Hoje o destaque é para o filme de François Ozon, na competição internacional com o filme Graças a Deus.

Filme em Berlim, poderia também ter João de Deus

A hipocrisia de religiosos que se aproveitam da proteção dada pelas igrejas e se servem da crença em Deus de tantos devotos, ou ainda pior, da inocência infantil vai ser um dos temas no próximo Festival Internacional de Cinema de Berlim, com a projeção do novo filme do conhecido cineasta francês François Ozon, cujo título foi inspirado numa frase do cardeal Barbarin, arcebispo de Lyon, Graças a Deus.

O ator principal poderia ser o milagroso curandeiro João de Deus, denunciado por mais de quarenta mulheres por atos de abuso sexual, havendo também acusações de pedofilia. Um dos importantes filmes do Festival de Berlin em 2015 foi O Clube, do realizador Pablo Larrain, recompensado com o Prêmio do Júri. Tratava de padres pedófilos reunidos numa cidade do sul do Chile. Essas denúncias coincidem com uma nova política do Vaticano, relacionada com os padres pedófilos, nem sempre satisfatória como ocorreu na cidade francesa de Lyon.

O filme de François Ozon trata da pedofilia cometida por um padre católico na França, acobertada por seus superiores. Não se trata de um documentário,embora Ozon nisso tivesse pensado, Porém de uma reconstituição com base em depoimentos de três homens, hoje adultos e com família, vítimas de abusos sexuais quando meninos escoteiros, na versão católica do movimento de Baden Poweel, pelo padre Bernard Freynat.

O caso e depois processo Freynat começou quando Alexandre, 40 anos, pai de cinco crianças, católico praticante, viu numa igreja de Lyon o padre Freynat, do qual fora vítima. Revoltado por saber que ele ainda trabalhava com crianças do escotismo, decidiu alertar o bispo de Lyon sobre os riscos vividos pelos meninos. Mas o cardeal arcebispo de Lyon, Barbarin, utilizava sempre desculpas para justificar sua falta de iniciativas contra o padre pedófilo, isso levando Alexandre a apresentar queixa na Polícia. Porém, os abusos estavam prescritos, garantindo ao padre Freynat, protegido por sua corporação, poder praticar novos abusos.

Diante da cumplicidade da Igreja, Alexandre decidiu criar a associação A palavra liberada, e com isso isso surgiram outras vítimas do padre Freynat, quando escoteiros católicos. Sua queixa na Polícia deu origem à abertura de um processo judiciário, que hoje se beneficia de uma nova lei tornando prescritos abusos pedófilos só depois de 30 anos de sua ocorrência.

Numa primeira fase, o caso foi arquivado, mas dez das 70 vítimas conhecidas, decidiram abrir um novo processo contra o bispo por não ter denunciado e nem punido o padre Bernard Freynat por abuso sexual. Depois de 2016, data do primeiro processo, soube-se que o arcebispo de Lyon havia excluído quatro padres também por denúncias de pedofilia. Isso não impediu que o novo processo, no qual é citado igualmente o Vaticano, sem prescrição dos fatos, prosseguisse, devendo haver um pronunciamento da justiça, em janeiro, pouco antes do Festival de Berlim. Quebrando uma velha regra que exige filmes inéditos na competição, o filme Graças a Deus, foi exibido, faz alguns dias, num cinema da cidade de Orleans.

Embora o jornal francês online Mediapart tenha encarregado três jornalistas de investigação do "Caso Freynat", o cineasta François Ozon não quis fazer um versão francesa de Spotlight, limitando-se a reconstituir os fatos sob a visão dos três homens vítimas de pedofilia.

O título do filme baseia-se numa frase do cardeal Barbarin numa entrevista para a imprensa francesa, há dois anos, na cidade de Lourdes. O cardeal disse textualmente e isso está gravado na Internet, "Graças a Deus, eles (os crimes de pedofilia) estão prescritos..." , manifestando indiretamente seu alívio pela não possibilidade de processo, naquela época, contra o padre Freynat.

François Ozon é um dos maiores cineastas franceses da atualidade.

Além de Graças a Deus, de François Ozon, o Festival Internacional de Cinema de Berlim anunciou outros cinco filmes na principal Competição:
The Ground Beneath My Feet (Áustria), de Marie Kreutzer
The Golden Glove (Alemanha/França), de Fatih Akin
I Was At Home, But (Alemanha/Sérvia), de Angela Schanelec
A Tale of Three Sisters (Turquia/Alemanha/Holanda/Grécia), de Emin Alper
Ghost Town Anthology (Canadá), de Denis .

A presidente do Júri será a conhecida atriz francesa Juliette Binoche.

O Festival Internacional de Cinema de Berlim exibirá seus filmes do 7 ao 17 de fevereiro. Esse será o último Festival organizado pelo Dieter Kosslick, que se aposenta. Em 2020, assumirá a direção da Berlinale ou Festival Internacional de Cinema de Berlim, o italiano Carlo Chatrian, que deixou o Festival Internacional de Cinema de Locarno.



 

Direção e Editoria
IRENE SERRA
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