Ano 11 - Semana 548

 



 

  29 de setembro de 2007
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O Guru da Cerveja


"Não gosto de fazer compras", garante Michael Jackson enquanto procuramos nos abrigar da forte chuva em um táxi. "Mas farei uma exceção para comprar cerveja." Não, não é aquele Michael Jackson. Não estamos falando do cantor, estamos num passeio com Michael Jackson, o crítico que escreve sobre cerveja, que agora percorre Manhattan.

Jackson, 60 anos, escreveu mais de 14 livros sobre cerveja e uísque, que foram traduzidos para 16 línguas e venderam mais de 3 milhões de exemplares. Seu documentário de televisão em seis partes, "O Caçador de Cerveja", foi exibido em 15 países. Acrescentam-se a isso as colunas regulares em jornais e as infindáveis sessões de degustação de cerveja do redator estabelecido em Londres, e temos um poeta de cerveja em tempo integral. O que explica a alegre reverência com que os "loucos por cerveja" - o termo afetivo usado por Jackson para qualificar pessoas que apreciam boa cerveja - o cumprimentam praticamente em todos lugares aonde vai.

À primeira vista, Jackson não é uma celebridade típica. De fala mansa e afável, ele tem uma juba de cabelos grisalhos despenteados, sobrancelhas grossas e olhos negros que observam o mundo através de óculos amarelos (Não têm marca. Ele os chama de "barateiros".) Seu paletó esportivo de lã, camisa de denim e calças cáqui mereceriam ser passados a ferro. Apesar de Jackson não ter barriga de bebedor de cerveja, sua cintura pode ser um dos reveses de sua carreira bem-sucedida como crítico de bebidas.

Mas o conhecimento que lhe deu fama fica imediatamente evidente quando iniciamos nossa turnê de compra de cerveja na B&E Beverage, uma loja em Chelsea com 300 tipos de cerveja de todo o mundo. Ao entrarmos em um corredor ladeado de garrafas de muitas cores e formas, Jackson pondera uma contradição. "A imagem internacional é de que os Estados Unidos são um lugar onde todos tomam Budweiser e não há mais nada. Mas debaixo desse manto de Bud existe uma grande diversidade. Na Alemanha ou na Inglaterra, você não consegue encontrar cervejas tão diversas", diz.

Ele aponta para várias marcas à medida que passeamos pela loja. Aqui está a cervejaria Sierra Nevada, fundada "por dois sujeitos sem experiência no negócio. Agora é a maior microcervejaria", enfatiza Jackson. Aqui temos a cerveja Stoudt. "Stoudt é o nome de uma família, não da cerveja preta", explica Jackson. "Carol Stoudt é uma cervejeira. Ela é uma figura muito amada na indústria." Aqui está "Liberty Ale", da Anchor Brewing Co. "O lúpulo está explodindo na garrafa", diz ele. "A cerveja é tão amarga, é como beber um martini."

De repente, algo chama sua atenção. "Hebreu, a Cerveja Escolhida" produzida pela Schmaltz Beer Co. "É uma piada?", pergunta. Contudo, como nunca a experimentou, Jackson decide comprar uma garrafa "só para divertir".

Na seção de cervejas internacionais, ele descobre a Chimay belga por US$ 4,50 a garrafa, a Traquair escocesa por US$ 5,50 e a cerveja do Natal da Áustria, Samichlaus Bier, por US$ 4,50 a garrafa. "É a cerveja tipo lager mais forte do mundo", explica Jackson, referindo-se à Samichlaus.

Nem Jackson nem a cerveja tinham essa fama internacional há 25 anos. Na época, ele trabalhava como jornalista em Londres. A cerveja aparecia muito no noticiário devido à "Campanha pela ale real", um movimento contra a cerveja industrializada iniciado por três jornalistas. Impressionado pelos esforços deles, Jackson achou que também poderia fazer algo para reabilitar a cerveja e melhorar seu status para o nível do vinho.

"A imagem popular era que o vinho pertencia à classe alta e a cerveja, à baixa", conta Jackson. "Ambos são bebidas fermentadas. A diferença fundamental é que no vinho você começa da fruta e na cerveja você começa do grão."

Quando ele propôs um livro sobre a cerveja, seu editor não se empolgou. "As pessoas que bebem cerveja não conseguem ler", recorda-se Jackson do que ouviu. "Eles se sentam com um pacote de seis garrafas diante da TV." Durante os anos seguintes, ele aprendeu muito sobre diferentes estilos de cerveja em diferentes países. "Não acordei uma manhã e disse ‘Nossa! Existe uma brecha no mercado’", observa. Ele queria entender os diversos estilos de cerveja: como são elaborados, o sabor que deveriam ter e como poderiam ser saboreados. Jackson também decidiu descrever aromas e sabores. A tarefa não era tão simples porque a terminologia da cerveja estava repleta de jargões.

Hoje, como o vinho, a cerveja tem sua própria linguagem. Os termos do vinho foram um ponto natural de partida. "A cerveja pode ser levemente encorpada ou plenamente encorpada, macia ou firme, magra, rala, viscosa ou xaroposa, seca ou doce", define Jackson. Mas há alguns termos que ele utiliza com cuidado, como "leve", "forte", ou "robusta". Embora pareçam auto-evidentes, Jackson vê ambigüidade neles: "Estamos falando de teor de álcool, corpo, sabor ou cor?"

Para evitar confusão, ele nunca usa "leve" para indicar cor. "Eu diria ‘uma cor dourada pálida’", explica. "Diria ‘toda encorpada’ ou ‘plena em sabor’." Poderia dizer ‘forte’ se fosse citar a percentagem de álcool. Tenha em mente, aconselha Jackson, que a cor nada tem a ver com o teor alcoólico da cerveja. Por exemplo, o dourado pálido da Duvel leva as pessoas a pensar erroneamente que é uma cerveja inocente. Contudo, essa cerveja belga, tipo ale, conta com 8,5% de álcool em volume.

"A Duvel tem uma grande complexidade de sabores", afirma Jackson. "O álcool é coberto por sabor frutado parecido com pêssego derivado do levedo e o requinte adicional vem de sabores de laranja e camomila de lúpulo."

Com a chuva ainda caindo forte como se todos os barris no céu tivessem sido destampados, fomos almoçar em uma cervejaria Heartland Brewery, na Union Square. No caminho, Jackson deu mais dicas: ao contrário do vinho, a maioria das cervejas se deteriora com a idade. "Se você vê uma garrafa poeirenta de cerveja, não pense que é tão boa quanto um vinho poeirento", compara. As probabilidades são de que "vai cheirar como um gambá". Com a exceção de cervejas muitos fortes que contêm açúcares fermentáveis e levedo vivo - como a Fuller’s Vintage Ale - a maioria deve ser consumida após a fabricação.

Na cervejaria Heartland, Jackson examina a lista de cerveja e me pergunta: "Como você se sente: rica, macia e suave ou frutada e refrescante? Sinto-me como alguns lúpulos - seco e tentador." Nesse momento, dois cervejeiros da casa chegam para cumprimentos. Falam sobre a fabricação, a festa de 60º aniversário de Jackson em março em Brickskeller, um pub em Washington com mil tipos de cerveja e, evidentemente, a gravata que é a marca registrada do especialista.

A gravata pintada à mão mostra um Jackson alegre erguendo um copo de cerveja, com um globo no fundo e manchas de verde, vermelho e laranja por todo lado. Ele usa a gravata em todas as ocasiões de degustação e discurso.

A gravata é o elemento mais marcante do traje de Jackson. Ele odeia perder tempo em compras e adquire suas meias, camisas e sapatos nos aeroportos ao redor do mundo. No entanto, gosta de comprar livros. Revela que toda vez que entra numa livraria fica tentado a levar o estoque inteiro. Atualmente, pensa em ter uma nova pasta de executivo, para substituir a sacola de computador que usa para carregar suas coisas. Quanto à cerveja - por que gastar dinheiro em algo que lhe é oferecido de graça? Seu escritório em Londres armazena 1.500 garrafas que recebeu como amostras. O único lugar onde ele paga pela cerveja, revela, é seu pub local. Então o guru da cerveja tem uma predileta? A resposta é um diplomático não. "Há uma cerveja certa para o momento certo", diz.
 

KATYA KAZAKINA - Dow Jones Newswires