01 de fevereiro, 2018
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O Samba


Angela Nassim (Lynn)

 

Grande responsável pelo sucesso histórico do carnaval carioca, o samba  surgiu no fim do primeiro Império, na Bahia. Tem origem em antigos ritmos trazidos pelos escravos africanos para o Brasil. Na Bahia, durante séculos, essas expressões musicais de festas profanas tiveram expressivas transformações.
No início só existiam o jongo, o batuque e o cateretê. Mais tarde, veio o fado brasileiro e por último o samba. Da Bahia, o samba foi para Sergipe e depois veio para o Rio de Janeiro, onde progrediu.
O primitivo samba era o RAIADO, com som e sotaque sertanejos. Depois, veio o samba CORRIDO, já melhorado e mais harmonioso e com a pronúncia da gente da capital baiana. Apareceu então o samba CHULADO que é este samba hoje em voga; é o samba rimado,

Origem do Samba

SAM - que quer dizer pague e BA - que quer dizer receba. A respeito contam a seguinte lenda:

Havia na Bahia um africano escravo. Sua mulher e seus filhos também eram escravos. Com muito sacrifício, ele conseguiu juntar uma certa quantia de dinheiro e escondê-la em um lugar bem seguro. Adoecendo gravemente e sentindo a ronda da morte, chamou o filho mais velho, a quem revelou tudo: que em tal sítio, debaixo de uma árvore que tinha sinal, cavando cinco palmos, deveria encontrar uma lata e dentro dela uma cuia contendo a quantia. Com esse dinheiro, libertasse a sua velha companheira de mais de 50 anos e todos os seus filhos. E pobre velho concluiu:
- Eu morrerei escravo. Irei servir a Deus Nosso Senhor - lá no Céu! Peço que todos rezem por mim. 

Reunidos mãe e filhos, todos começaram a rezar Ave Marias três vezes ao dia - às 6 horas da manhã, ao meio-dia e às 18h. E como que por milagre, mesmo sem a assistência médica, a que o escravo não tinha direito, ele foi melhorando. O filho possuidor do segredo, vendo isso, correu ao lugar indicado, cavou, descobriu a lata e de posse do dinheiro, fugiu para a então província do Pará. 

Restabelecido e sabedor da fuga do filho, o velho foi ao local e certificou-se da velhacaria, informou à mulher e aos filhos, para que todos ficassem sabendo da ação indigna de seu filho mais velho. Em africano, ele pronunciou esta sentença:      
OLORUM NÃ LARÉ (Deus te desconjure) 

Daí em diante, mulher, marido e os filhos restantes, começaram a trabalhar; trabalhar com afinco e algum tempo depois obtinham a carta d'alforria. Enquanto isso sucedia na Bahia, o velhaco fugitivo progredia no Pará e, anos depois, estando muito rico, viu-se acossado pela saudade dos pais e dos irmãos a quem traíra, ou do torrão onde nascera ou mesmo pelo remorso e regressou à Bahia disposto a obter por qualquer preço a sua liberdade e de sua família, conquistando deste modo o perdão de seu pai. Qual, porém não foi sua surpresa quando chegou e soube que, da família, era ele o único escravo e que seu pai estava muito rico, como chefe da estiva!

Procurou então os africanos que na Bahia constituíam o "conclave" e prometeu ao Chefe uma quantia bem regular se conseguisse que seu pai o perdoasse. O caso era dos mais graves e só mesmo o "conclave" poderia resolver, depois de um africano haver excomungado seu filho. O Chefe tomado em alta consideração a oferta, combinou com os outros membros do "conclave" e disse ao rapaz:
- Mê fio, vai havê um fésta glande, que sua papai é obligado a cumplacê. Vossuncê vai também ni festa e léva "bongo" di papai qui vai sê obligado a lecebê e predoá.

O Chefe foi mediatamente embolsado da oferta, porque o seguro morreu de velho... No dia da festa, o velho africano na sua boa fé, lá compareceu. Eis que de repente surge-lhe o filho. O velho exclamou possesso:  
OLANA! (Amaldiçoado)

O Chefe fez um sinal e houve silêncio profundo. Reuniu-se o "conclave" e na sua soberania deliberou: 
QUE não havia motivo para que a divergência continuasse, em vista do arrependimento e das boas disposições do filho perante seu pai, a quem por intermédio do Conselho, pedia perdão.
QUE o regime africano não sofrera golpe, por quando o filho se apossou do dinheiro, teve em mente aplicá-lo no trabalho honesto, fazendo crescer o cabedal dos africanos e seus descendentes.
QUE deste modo, não havia motivo para a "excomungação".
QUE em vista do arrependimento do filho e suas disposições querendo indenizar seu pai e dele obter o perdão e a bênção, o pai estava na obrigação de receber a indenização, perdoar e abençoar o filho.
Resolvendo deste modo, o "conclave" obrigou ao pai abençoar o filho, depois de proferir o perdão em voz alta:
MOFO - RIJIM - É! (Eu te perdôo)

Feito isso, deu-se a cerimônia da sentença.
Todos de pé, num gesto uniforme e em alta voz, dirigindo-se ao filho exclamaram:
SAM!...(Pague)

E ele respeitoso, depois de ajoelhar-se ante os membros do
Conselho, ajoelhou-se aos pés do pai oferecendo-lhe um pacote com a quantia roubada. Em vista da indecisão do pai, que fora tomado de grande emoção, os conselheiros batendo com o pé repetidas vezes ordenaram:
BA! (Receba)

As pessoas presentes, segundo o ritual, repetiram:
SAM! BA!

Ninguém se atrevia a desrespeitar uma decisão do Conselho, porque sabia ao que estava exposto. Pai e filho, num apertado abraço, ficaram bons amigos. Em seguida, pela pacificação da família, que era muito conceituada, todos cantaram e dançaram repetindo sempre: SAM! BA! - E aí está a origem do samba.

Publicado anteriormente na Revista Rio Total em 2001


 




Direção
IRENE SERRA
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