Ano 21 - Semana 1.065

 

  

 



15 de fevereiro, 2018

Festival Internacional de Cinema de Berlim

de 15 a 25 de fevereiro/ 2018


Rui Martins



Filme de animação abre o Festival de Cinema de Berlim

Muitos cachorros de todas as raças, na abertura do 68º Festival Internacional de Cinema de Berlim. Estão reunidos na Ilha dos Cachorros, depois de retirados de seus donos e expulsos da cidade por ordem do prefeito. Essa história de perseguição aos cães nada tem a ver com os dálmatas ameaçados por Cruela, mas é um filme de animação do diretor americano Wes Anderson, tipo fábula alegórica, ao que parece relacionado com refugiados. Um outro filme de Wes Anderson escolhido para abrir o Festival, há dois anos, foi o Grande Hotel Budapeste.


Dogs


As atrações internacionais são o novo filme de Steven Soderbergh, Unsane, anunciado como thriller ou filme de horror; Gus van Sant traz Don´t Worry, We Won´t Get Far on Foot; o francês Benoît Jacquod aparece com seu filme Eva, vivida por Isabelle Huppert; Utoia 22 de Julho, do norueguês Erik Poppe, conta o massacre de jovens noruegueses por um fanático de extrema-direita; Museu, do mexicano Afonso Ruizpalacios, conta um ousado roubo num importante Museu de Antropologia, tendo com ator principal Gael Garcia Bernal; e um documentário do veterano diretor argentino Fernando Solanas, Viaje a los Pueblos Fumigados, denuncia o excessivouso de agrotóxicos nas plantações.


Unsane


Eva

22 de julho
Utoia, 22 de julho

Sem esquecermos o filme do diretor filipino Lav Diaz, contando os anos de chumbo da época do ditador Ferdinand Marcos, Season of the Devil. Há também a história do poeta dissidente Dovlatov, na época de Bresnev, na União Soviética, cujos livros não eram publicados, contada pelo realizador Alexey German Jr. O filme Revolução Silenciosa, do alemão Lars Kraume, sobre a classe de estudantes secundários punida pelo governo da Alemanha Comunista, depois de terem apoiado a revolta húngara de 1956. Há mesmo um filme aparentemente religioso de Cédric Kahn, A Oração, na contracorrente dos filmes anticlericais exibidos nos últimos anos.


Filmes brasileiros em baixa

Este ano, não há nenhum filme brasileiro na competição internacional - o Brasil apenas participou da produção do filme As Herdeiras, de Marcelo Martinessi, que assinala a estreia do cinema paraguaio no Festival. Outra participação indireta é a do diretor brasileiro José Padilha, já premiado com o Urso de Ouro, que preferiu fazer cinema em Hollywood. "Fazer cinema no Brasil é um inferno", disse ele numa recente entrevista ao jornal Folha. Ele dirige, com destaque especial mas fora de concurso (poderia ganhar outra vez o Urso?), o filme 7 Dias em Entebbe, programado a partir do domingo.



O cinema brasileiro concorre ao Urso de Ouro, na mostra de Curtas-Metragens. Ali estão Alma Bandida, de Marco Antônio Pereira; Terremoto Santo, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca; e o diretor Ricardo Alves participa com o realizador português João Salaviza, do curta Russa, filmado em Portugal.

A seleção dos longa-metragens brasileiros na Berlinale, como também é conhecido o Festival, já parece ter sido definida nos últimos anos - vão para a mostra paralela Fórum, onde como o nome indica, se prestam a debates. Ou para a mostra Panorama.

Este ano, só há uma produção brasileira no Fórum, com dupla direção de Gabraz Sanna e Anne Santos, Eu sou o Rio, cujo título foi mal traduzido para o inglês como I am the River. O tradutor não porcebeu se tratar da cidade do Rio de Janeiro e não de uma corrente de água. I am the Rio tem como personagem principal o pintor e músico de São Gonçalo, Tantão.

Na mostra Panorama há cinco filmes: Tinta Bruta, de Márcio Reolon e Felipe Matzembacher, mais quatro documentários. Um rodado por Karim Ainouz, no Aeroporto Central de Tempelhof, desativado há muitos anos e seus hangares servindo agora para acolher dois mil refugiados, vindos da Síria e do Iraque.

Os outros documentários são: Bixa Travesty, documentário de Kiko Goifman e Cláudia Priscilla; Ex-Pajé, documentário de Luiz Bolognesi; O Processo é um documentário de Maria Augusta Ramos sobre o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.


Padilha revive a Operação Entebbe


O cinema brasileiro ficou fora, este ano, da competição internacional do Festival Internacional de Cinema de Berlim, mas um de seus melhores cineastas, José Padilha, dirige o filme angloamericano 7 Dias em Entebbe, remake de um drama real.

Foi o sequestro, há 41 anos, de um avião da Air France, em 27 de junho de 1976, desviado da rota, ao sair da escala em Atenas, por 7 sequestradores (5 palestinos e dois alemães), indo para Benghazi, na Líbia, e depois para Entebbe, antiga capital de Uganda, na época do ditador Idi Amin Dada.

Os 290 passageiros mais 12 tripulantes foram divididos entre 95 judeus e 195 não judeus, logo libertados. Os judeus ficaram num galpão ao lado do aeroporto com os 12 tripulantes, vigiados pelos sequestradores e por militares ugandenses. Os sequestradores pediam a libertação de 53 palestinos presos em quatro países diferentes, caso contrário iram explodir o avião com os passageiros judeus.

Mas na madrugada do dia 3 de julho, quatro aviões militares Hércules israelenses desembarcaram jipes com cem militares comandos de elite e, numa operação resgate relâmpago recuperaram os passageiros e tripulantes reféns e liquidaram os sequstradores e 20 soldados ugandenses. Morreram três reféns e o chefe da operação, o tenente-coronel Yoni Nataniau, irmão de Benjamin Nataniau, atual primeiro-ministro israelense.

Não se sabe ainda como José Padilha tratou esse tema cheio de suspense, pois a estréia mundial do filme será no Festival de Cinema de Berlim. Existem diversas versões dessa intervenção israelense. Apenas seis dias depois da libertação dos passageiros, o jornalista Alessandro Porro, enviou de Israel, onde era correspondente da Veja, o texto do que seria o primeiro livro - Operação Resgate - publicando imediatamente pela Editora Abril.

Mostra Panorama

O Brasil tem mais dois filmes na mostra Panorama (47 filmes de 40 paísees): O Processo, de Maria Augusta Ramos, que recebeu, na sua fase final de montagem, um apoio de cem mil reais,oferecido pelo Fundo Mundial de Cinema - uma iniciativa conjunta do Festival Internacional de Cinema de Berlim, Berlinale, com o governo alemão e o Instituto Goethe.

O Processo, do qual já falamos em novembro (Berlinale doa cem mil a cineasta de Brasília), é um documentário sobre os debates parlamentares durante o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que também intervém no filme.

Outro filme na mostra Panorama é Tinta Bruta, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher. A dupla de realizadores já havia estado na mostra Fórum, há três anos, com o filme Beira-Mar, sobre a adolescência. Agora, se trata do personagem GarotoNeon, que se cobre de tinta e se deixa filmar por uma webcam em poses eróticas, transmitidas pela Internet. Até descobrir haver um imitador, que deseja encontrar, pois vive na mesma cidade.




A estreia do Paraguai na Berlinale

O cinema paraguaio chega pela primeira vez à competição internacional da Berlinale com o filme As Herdeiras, de Marcelo Martinessi, cineasta premiado há dois anos, em Veneza, com A Voz Perdida, melhor curta-metragem na paralela Orizzonti.

Desde 1992, Martinessi, 44 anos, realiza documentários baseados em temas sociais, como discriminações e abuso de crianças. Em 2009, seu curta-metragem Karai Norte tinha sido projetado na paralela Talentos, da Berlinale. Foi uma revelação por ter seus diálogos em guarani e por ter sido o primeiro curta-metragem paraguaio na Berlinale.

Karai Norte ganhou o Prêmio Glauber Rocha nas Jornadas Internacionais de Cinema da Bahia. Seu outro documentário Calle Última contou com o apoio da Unicef e teve financiamento da União Européia.

O Brasil deu uma pequena participação na coprodução do filme As Herdeiras, pela empresa Esquina Produções Artísticas, cujo investimento contou com a aprovação da Ancine e do BRDE, dentro do Programa Brasil de Todas as Telas.

A história

O cenário, descrito pela produção, segundo um roteiro de 2013, é a capital paraguaia Assunção em 2001. Duas mulheres vivem juntas há mais de três décadas. De boa posição social, haviam herdado dinheiro suficiente para viver sem precisar trabalhar. Mas agora, quando ambas já estão com mais de 60 anos, essa herança acabou.

Com o tempo e em meio à difícil situação econômica, a relação delas foi se desgastando e se tornou uma sequência de silêncios intermináveis. Tudo se complica ainda mais quando uma delas é presa pelas dívidas que contraiu para que ambas pudessem manter o mesmo nível de vida. Esta separação altera o equilíbrio imaginário em que viviam e as obriga a transformar um mundo que até então permanecia parado.


 

Três curtas brasileiros em Berlim

Três curta-metragens brasileiros foram selecionados para a competição internacional da categoria, no Festival Internacional de Cinema de Berlim do 15 ao 25 de fevereiro, e fazem parte do grupo de 22 filmes de 18 países concorrendo aos Ursos de Ouro e de Prata.

São eles: Alma Bandida, de Marco Antônio Pereira; Terremoto Santo, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca; e Russa, de Ricardo Alves em colaboração com o realizador português João Salavisa.

Alma Bandida, filmado em Minas Gerais, trata da incompatibilidade entre pessoas e conta a história de Fael, desejoso de presentear sua namorada.

Em Terremoto Santo, Bárbara Wagner e Benjamin de Burca estabeleceram parceria com uma gravadora de música gospel da cidade de Palmares, em Pernambuco, a fim de tratar dos aspectos sociais e estéticos da prática pentecostal. A liturgia dos cultos evangélicos é especialmente musical nessa região da Zona da Mata, marcada pela história da cana-de-açúcar e habitada por jovens que buscam nos cantos de louvor uma forma de trabalho.

Russa é filmado no Bairro do Aleixo, no Porto, numa realização dupla lusobrasileira. "A convite da Câmara Municipal do Porto, os realizadores João Salaviza (Urso de Ouro em 2012) e Ricardo Alves Jr. estiveram no Porto em residência artística para a produção de uma curta-metragem. As narrativas e fragmentos de intimidade que encontraram no território escolhido, o Bairro do Aleixo, transformaram-se na matéria de um filme, por eles realizado, intitulado “Russa”.
Russa volta ao Bairro do Aleixo no Porto, visitando a irmã e os amigos com quem celebra o aniversário do filho. Neste breve encontro, Russa regressa à memória coletiva do bairro onde três das cinco torres ainda se mantêm de pé."

Foram também selecionados dois curtas portugueses: Onde o Verão Vai (episódios da juventude), de David Pinheiro Vicente; e a coprodução Madness, de João Viana, com Moçambique, Guiné Bissau e Qatar.

"Os curtas da competição internacional deste ano tratam a realidade diretamente e contribuem assim de maneira ativa para a comprensão social e política da atualidade. Os cineastas capturam pequenos momentos, histórias e tópicos locais e os conectam aos eventos de grande impacto", segundo comunicado distribuído pela Berlinale. As relações de gênero e as estruturas de poder ainda estão longe de ser iguais ou equilibradas, mas são temas dessas obras", completa o comunicado.

Paralelamente, haverá também um programa especial de curtas-metragens dedicado ao 50° aniversário da Revolução Estudantil de Maio 1968, na França, com 12 filmes da Alemanha, Áustria, Suécia e Estados Unidos "mostando estratégias estéticas ainda hoje atuais".

O realizador português Diogo Costa Amarante, Urso de Ouro no ano passado com Cidade Pequena, é um dos três jurados que escolherão os Urso de Ouro e de Prata deste ano.

 

 

 

Berlinale seleciona filmes brasileiros



O Brasil já tem um lugar de destaque assegurado na mostra Panorama, no próximo Festival Internacional de Cinema de Berlim (Berlinale, do 15 ao 25 de fevereiro).

Entre os onze primeiros filmes selecionados para essa mostra, sob o tema geral Desobediência, um é alemão em coprodução com o Brasil e a França, e dois são brasileiros.

O filme alemão é um documentário, ainda em realização, dirigido pelo cineasta brasileiro Karim Ainouz (de origem argelina) com filmagens do cotidiano de refugiados sírios e iraquianos recebidos pela Alemanha, vivendo nos hangares abandonados do antigo aeroporto de Tempelhof. O lugar onde esses refugiados esperam ter encontrado a segurança, é atualmente um parque de recreação para os berlinenses.

Karim Ainouz que, há três anos, participou da competição internacional da Berlinale com o filme Praia do Futuro, terminará o documentário Aeroporto Central de Tempelhof antes de fevereiro.

O segundo filme é Ex-Pajé ou Ex-Xamã, de Luiz Bolognesi, mostrando a iminência do etnocídio de um indígena Paiter Suruí, vivendo na bacia amazônica. É a história de um ex-xamã cristianizado, Perpera, que retorna aos espíritos que havia abandonado para preservar sua identidade cultural.

O terceiro, é um filme de Kiko Goifman e Cláudia Priscila, Bixa Travesty, tratando da "política do corpo" e tendo com atriz a cantora transsexual Linn da Quebrada.

 


 

Braziliense vai ter cem mil para terminar "O Processo"


A cineasta brasiliense Maria Augusta Ramos vai receber do Fundo Mundial de Cinema o equivalente a cem mil reais para terminar seu filme O Processo, um documentário sobre o processo do impeachment de Dilma Rousseff.

O Fundo Mundial de Cinema é uma iniciativa conjunta do Festival Internacional de Cinema de Berlim, Berlinale, com o governo alemão e o Instituto Goethe.

Paralelamente, Maria Augusta Ramos tinha obtido o equivalente a 30 mil reais numa campanha de levantamento de fundos (pela Kickante) para montar O Processo, depois de mais de 450 horas de filmagens na Câmara, Senado, durante o impeachment, incluindo entrevistas e cenas com Dilma Rousseff e o ex-ministro da Justiça José Cardoso. A cineasta não quis tentar financiamento do filme pela Lei Rouanet.

Durante o processo do impeachment, Maria Augusta Ramos tinha afirmado estar pagando do seu próprio bolso as despesas com as filmagens em Brasília.

Documentarista, com um estilo próprio, influenciado por seu professor holandês Johan van de Keuken, ela não pretende fazer ficção, sentindo-se mais atraída pela realidade que busca retratar nos seus filmes.

Seu novo documentário, O Processo, com finalização prevista para 2019, será talvez um dos primeiros a ser projetado sobre a destituição da primeira presidente mulher no Brasil. Outros cineastas, Anna Muylaerte, Petra Costa e Douglas Duarte, também acompanharam a crise política e documentaram a queda da presidente.O cineasta braziliense Adirley Queiroz foi o primeiro a concluir seu filme, que se transformou numa ficção, Era uma vez em Brasília, menção honrosa no Festival de Locarno.

Sem poder fugir à uma tomada de posição, por ter acompanhado o dia a dia do processo da queda de Dilma Rousseff, a cineasta considera o impeachment como um golpe parlamentar da direita.

Maria Augusta Ramos, nasceu em Brasília em 1964, estudou Musicologia em Paris e Londres, formando-se depois em cinema na Holanda, onde viveu. Já conquistou diversos prêmios nacionais e internacionais com seus documentários curtas e longas-metragens. Em 2006, criou a produtora Nofoco Filmes.

Alguns dos filmes por ela dirigidos - Seca, Futuro Junho, Morro dos Prazeres, Juízo, Justiça, Desi, Brasília, um dia em fevereiro.


Rui Martins está em Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

 

 


Direção e Editoria
IRENE SERRA
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