Ano 20 - Semana 1.041

 



15 de agosto, 2017


Festival internacional de cinema de Locarno



Rui Martins, convidado especial


Este ano, a grande mídia brasileira não veio aqui a Locarno, (por quê?) e acabei sendo o único jornalista brasileiro na cobertura. Sorte sua que teve um material exclusivo. Marcamos agora encontro para fevereiro, dia 14, quando chegarei a Berlim para o Festival de Berlim, Grande abraço! Rui Martins

 

Locarno seu futuro e os Leopardos surpresa

Terminou o Festival Internacional de Cinema de Locarno com uma indagação do seu presidente Marco Solari sobre o futuro dos festivais, diante das novas tecnologias que revolucionaram a maneira de se fazer e de se ver os filmes. Ao mesmo tempo em que saudou a digitalização ou numerização no mundo do cinema, Solari criou, antes de começar o Festival, uma comissão de jovens de talento e de diversas nacionalidades encarregada de sentir e julgar a maneira como funcionam os dez dias de Festival, tendo em vista o comportamento de seus espectadores nos próximos anos.

Uma primeira análise do público deste ano já revelou ser minoria a presença de jovens entre os espectadores. Isso significa que os festivais de cinema estão condenados a perder seu público e se restringirem à imprensa e profissionais do cinema. Como os jovens encaram hoje o cinema, a diversidade de filmes e as propostas apresentadas num Festival? A mini-tela dos celulares dos jovens concorre com os telões e telas de cinema dos festivais?

"Hoje os jovens já não veem mais a televisão" tinha dito Solari, em julho, no encontro com a imprensa para anunciar o programa de Locarno na sua 70.a edição. "Será que eles se interessarão aos festivais de filmes?" foi a pergunta lançada ao ar, ao anunciar a criação do Board de Jovens dentro do Festival, cujas primeiras reações serão anunciadas durante o decorrer do ano e debatidas pela direção do Festival.

Por enquanto, nada anuncia uma perda de público. Apesar do frio noturno, em pleno verão, e um pouco de chuva, a Piazza Grande manteve seu público ao ar livre e houve afluência nas novas salas de cinema criadas.

Mas as mudanças de comportamento costumam ser repentinas. Se os jovens não se sentirem atraídos, tudo poderá mudar nos próximos anos, não só em Locarno como em todos os outros festivais. Por isso, Locarno quer saber como se assegurar uma transição para o futuro, mudanças a serem imaginadas para os jovens que preferirão ver os filmes dos festivais nos seus celulares.

 

Os Leopardos surpresa

 A edição dos 70 anos de Locarno não deixava surpresa, a partir do anúncio dos filmes selecionados. Seria um festival de forte dominância francesa, seja pelos filmes ou pela presença dos profissionais franceses, acabou sendo também ao nível do júri. E dos cinco premiados, quatro eram co-produções francesas.

O favorito absoluto era um filme americano do filho de David Lynch, Lucky, sobre um velho nonagenário, assimilado por sua semelhança ao Lucky Luke das histórias em quadrinhos. Em último caso, seria premiado o excelente ator, Harry Dean Stanton. Mas não foi.

O Leopardo de Ouro de Melhor Filme (Senhora Fang, de Wang Bing) foi para um documentário sobre uma idosa camponesa chinesa sofrendo de Alzheimer, na cama nos últimos dias de vida, sendo filmada, não se sabe com autorização de quem, numa espécie de morte pública.

O filme de Melhor Direção, Nove Dedos (de F.J. Ossang), esteve longe de obter apreciadores tal era o caos mostrado na tela.

O prêmio de Melhor Atriz para Isabelle Huppert, no papel fantástico de uma professora que se tornava incandescente, foi incompreensível. O tema era importante e focava a dificuldade se ensinar nas escolas localizadas em certas áreas da periferia, mas a própria Isabelle Huppert não apareceu para buscar seu Leopardo de Ouro, talvez por nunca ter acreditado numa premiação.

A atriz merecedora do prêmio era, sem dúvida, a portuguesa Isabel Zuaa, do filme brasileiro As Boas Maneiras, por ser a espinha dorsal do filme. Um premio à negra Isabel teria entusiasmado a crítica, não só por ser merecido, mas porque seria uma resposta às ondas de racismo existentes na Europa.

Premiar o filme em lugar da atriz não teve o mesmo efeito. As Boas Maneiras não corresponde à temática social dos grandes filmes brasileiros, sua história de lobisomem não convence e seu horror é de mau gosto.

Mas como escreveu meu colega do jornal suíço Le Temps, um júri de Festival deve saber o que faz.

 

 



Lucky Luke velho mas não caquético



Quem diria? Lucky Luke o cowboy solitário que fumava um cigarro atrás do outro, antes de deixar de fumar nos desenhos franceses e passar a morder no lugar um ramo de trigo, tem noventa anos e vive no Arizona. Com uma diferença, nos EUA, pátria do Marlboro, Lucky Luke não conseguiu se libertar do tabaco e fuma, mais de um pacote, apesar da insistência de seus amigos preocupados com sua saúde. Isso é o que mostra, sem precisar alardear, o filme Lucky, um dos bons na competição.

Se o filho de David Linch, o também cineasta e ator John Carroll Linch, tivesse encomendado a alguma agência, num casting, um sósia de Lucky Luke não teria achado mais perfeito que Harry Dean Stanton, um idoso, como se diz, amigo do roteirista que, antes tinha pensado até em fazer um documentário sobre Stanton, cujo humor, ironia e lucidez impressionam.

Mas na pele de Lucky Luke, o velho amigo, saiu.se melhor e ficou sob medida. Impecável.

A um pé da cova, como também se costuma dizer, Lucky Luke sem parkinson e sem alzeimer, vive uma outra dimensão, sem qualquer referência ao seu passado no mundo do cartunismo, uma personagem saborosa, irreverente, de ateu empedernido, de crítico dos agentes de seguros de vida e de tudo o mais, tão típicos do mundo americano.
Um traço une Lucky Luke aos demais idosos - a mania das palavras cruzadas e do número de letras para preencher as casas horizontais e verticais.

No contraponto desse Lucky Luke longevo, um animal capaz de viver bem mais, até 200 anos, com a vantagem de não cair nas novas leis de previdência - uma tartaruga com um nome talvez simbólico Presidente Roosevelt.

Lucky é uma pérola rara neste Festival de Locarno, que nos faz sorrir, sem ter humor negro, mesmo se sabemos que Stanton, apesar de sua ginástica light toda manhã e de sua aparente saúde confirmada pelo médico, está a um passo do nada e talvez nem sobreviva ao sucesso do filme de John Carroll Linch.

O cinema é cotado como entretenimento mas, com frequência, e uma recente Palma de Ouro confirmou, dirige suas câmeras para a visão da realidade do efêmero da vida, a velhice, que alguns conseguem controlar embora sem esconder seu efeito devastador, como o irônico Lucky. Porém, uma grande parte, embora se fale muito em maior esperança de vida, provavelmente para aumentar a idade da aposentdoria, vive geralmente doente e impotente, já meio-deitada no caixão.






Locarno e Fanny Ardant transsexual

Nem todos gostaram é o mínimo que se pode dizer do filme de estréia do 70º Festival de Locarno, Amanhã e todos os outros dias, da atriz e realizadora francesa Noémie Lvovsky, um conto, como ela definiu, sobre a solidão de uma menina de 9 anos, vítima, se assim se pode dizer, da separação de seus pais e vivendo com a mãe, ligeiramente mal da cabeça mas que acaba por ser internada, depois de ter fugido de uma loja vestida de noiva e de ter comprado mais de uma dezena de malas de viagem para ir não se sabe onde, em todo caso provocar mudanças repentinas de apartamento.

O filme poderia ter seguido nessa linha da solidão vividas por crianças em famílias monoparentais, situação vivida pela própria cineasta, como contou no encontro com a imprensa. Mas acabou comprometido pela introdução de uma personagem de voz masculina - uma coruja falante. Não falante no modelo dos filmes americanos fantásticos ou das fábulas de La Fontaine, onde os animais falam entre si ou com os humanos. Fala, como tentou explicar a realizadora, como se fosse um animal de companhia da menina, Mathilde, extremamente só e com dificuldade de relacionamento com as outras meninas na escola. Ou seja, a coruja fala na imaginação de Mathilde, porém, isso não fica evidente no filme e a coruja não consegue se introduzir e se diluir no filme, mas permanece como algo intruso e incomodo para os espectadores.

Para boa parte dos críticos, foi uma má escolha para assinalar a 70a. edição, com projeção no telão da Piazza Grande.
Felizmente, a Piazza Grande teve Fanny Ardant num filme de Nadir Moknèche, Lola Pater (referência a Lola Montes e todas outras Lolas ?) com um tema difícil mas bem defendido pela atriz - ela vive um transsexual, Farid, que abandonou a esposa com um filho, Zino, para retornar a viver na Argélia sob a identidade de Lola. A trama do filme é a dificuldade de Zino, já adulto e pianista convertido em afinador de pianos, reconhecer o pai e aceitar esse pai convertido na bela Lola, uma transsexual professora de dança do ventre e ainda por cima lésbica, pois vive com uma amante.

Lola Pater ou o Pai Lola é um filme com um enredo inspirado numa sociedade em transformação que coloca em questão todos os seus tabus, incluindo ainda as transformações da modernidade, entre os próprios descendentes da comunidade muçulmana França, que não se submete à restrição do álcool e aceita o homossexualismo.

Nós que gostamos do filme Lola Pater não afirmamos que Fanny Ardant seja convincente no papel de uma transsexual, mas o filme tem uma beleza intrínseca por ser um reconhecimento da transformação da sociedade em que vivemos, indiretamente contra os homofóbicos e os racistas de todos os matizes.

 





ENTREVISTA COM CARLO CHATRIAN,
DIRETOR ARTÍSTICO DO FESTIVAL INTERNACIONAL DE LOCARNO

Boas Maneiras é renovação no cinema brasileiro


Rui Martins, convidado especial



Carlo Chatrian, diretor artístico do Festival Internacional de Locarno, nos afirmou numa entrevista exclusiva que o cinema latinoamericano está numa boa fase, tomando como exemplo o cinema brasileiro. Para ele, o filme As Boas Maneiras, na Competição Internacional, de Juliana Rojas e Marco Dutra, produzido por Sara Silveira, mostra a renovação do cinema brasileiro. Deu também destaque para Severina, de Felipe Hirsch, e para Era Uma Vez Brasília, de Adirley Queirós.

Uma atração latinoamericana em Locarno, contou Chatrian, será o filme La Telenovela Errante, uma espécie de filme póstumo do realizador chileno Raúl Ruiz, pois sua viúva, Valeria Sarmiento - também cineasta - recuperou as bobinas do filme perdidas mas encontradas depois da morte de Ruiz, e cuidou a montagem, com a experiência de quem sempre montou os outros filmes do marido.

O Festival de Locarno começará quarta-feira dia 2. O filme Boas Maneiras será exibido domingo dia 6, um dia depois da exibição de Severina.


Entrevista com Carlo Chatrian para Rui Martins


Quais os critérios na seleção dos filmes?
Os filmes que escolhemos foi porque gostamos e porque são bons filmes. Nada mais que isso.

Gostou, então, do filme brasileiro?
O filme brasileiro na competição, As Boas Maneiras, é um filme para se ir descobrindo à medida que se desenvolve a história, por isso eu não quis fazer revelações durante a coletiva com a imprensa suíça e internacional. É um filme de jovens realizadores, Juliana Rojas e Marco Dutra, que estiveram com seu primeiro filme Trabalhar Cansa, em Cannes, na mostra Um Certo Olhar.
É um filme único, mesmo se começa como tantos outros filmes brasileiros com uma jovem afrobrasileira que trabalha como doméstica para uma mulher rica, branca. A partir disso, o filme toma diversas direções. Iremos descobrir a patroa grávida, mas acho que não devo desvendar tudo, apenas que o filme se transforma depois num filme de horror. Este ano quisemos colocar dois ou três filmes desse gênero na competição, mas com realizadores já consagrados. Esse filme produzido por Sara Silveira representa a renovação no cinema brasileiro.

Outro filme brasileiro?
Na mostra Sinais de Vida temos o filme de Adirley Queirós, com bons filmes anteriores: Era Uma Vez em Brasília. Um filme de ficção científica que deverá ser surpreendente. Ele inclui política no filme com o impeachment de Dilma Roussef, mas com esse episódio deslocado para o futuro.

Outra participação latinoamericana?
Um filme póstumo do realizador Raúl Ruiz, falecido em 2011, que dispensa apresentação por ser um dos grandes cineastas não só do Chile, mestre do surrealismo, um dos herdeiros de Buñuel. O filme, cujo título é La Telenovela Errante, é algo extraordinário. Foi filmado em 1990, portanto há 27 anos, mas não chegou a ser montado por terem se perdido as bobinas. Finalmente, no ano passado, essas bobinas foram encontradas numa Universidade americana. Não sei que viagem fizeram essas bobinas para chegar lá, mas a realizadora Valeria Sarmiento, que sempre montou os filmes de Ruiz e que era sua esposa, concluiu em pós-produção e cuidou da montagem do filme, coisa não tão difícil, imagino, pela maneira como Ruiz ordenava suas filmagens facilitando a montagem.
Este filme será exibido pela primeira vez aqui em Locarno, na competição internacional. Será um presente de aniversário para os 70 anos do Festival de Locarno, mesmo porque Ruiz foi um dos cineastas premiados com o Leopardo de Ouro, aqui em Locarno, com seu filme Três Tristes Tigres. La Telenovela Errante é um filme que vem do passado mas fala do presente. É um filme que emprega o estilo da telenovela para falar da realidade que não existe mais, de um mundo imaterial. Filme dividido em sete dias ou sete temas diferentes. Começa com o adultério, a seguir um tema político tratando de um terrorista, depois aborda uma espécie de vagabundagem, e assim por diante, entrando numa espécie de pesadelo, com as pessoas olhando a televisão e ao mesmo tempo sendo vistas pelas personagens da televisão. É um filme 100% Ruiz.

Como se pode definir o cinema hoje na América Latina?
Encontra-se num estado muito bom. Há um outro filme brasileiro aqui na mostra Cineastas do Presente, do produtor Rodrigo Teixeira, dirigido por Felipe Hirsch, Severina. Foi todo rodado no Uruguai e tem o estilo do francês Jacques Rivette, um tanto fantástico. É a história de um livreiro e de uma jovem que frequenta a livraria, embora não se saiba se ela é real ou um fantasma projetado pelo dono da livraria.É um ano com mais filmes brasileiros em Locarno, enquanto no ano passado era a Argentina com mais filmes. Os aspectos principais tratados pelos filmes são o fantástico e o político.

E, enfim, o cinema português?
É um ano forte do cinema português, mas infelizmente tivemos de deixar de lado dois filmes muito bons que não entraram na competição internacional. Temos, porém, um primeiro filme, na mostra Cineastas do Presente, Verão Danado, de Pedro Cabeleira, que será uma das boas surpresas deste ano.



 

 Filmes Brasileiros no Festival de Locarno

 

 


Rui Martins


O Festival Internacional de Cinema de Locarno está próximo, irá de 2 a 12 de agosto. Na coletiva com a imprensa, foram revelados os filmes selecionados. Entre eles três filmes brasileiros, um na competição internacional, e um filme suíço falado em português. Carlo Chatrian, diretor do Festival, disse ter visto 4 mil filmes para chegar à seleção nas diversas mostras.

As Boas Maneiras, filme de medo rodado em São Paulo, dos cineastas Juliana Rojas e Marco Dutra, coprodução francobrasielira, foi selecionado para a competição internacional do Festival de Cinema de Locarno.
Severina, filme do cineasta e diretor de teatro Felipe Hirsch, coproduzido com o Uruguai, estará na competição da mostra Cineastas do Presente.
Para a mostra Sinais de Vida, foi selecionado o filme de Adirley Queirós, Era Uma Vez Brasília, uma espécie de ficção científica com preocupações sociais.
Falado em português mas dirigido pelo suíço Samuel Chalard, o filme Favela Olímpica, mostrando os prejudicados pelos Jogos Olímpicos do Rio, foi escolhido para a Semana da Crítica.

Filme de dar medo?

As Boas Maneiras conta a história de uma babá, responsável por uma criança sobrenatural, mutante, dentro, portanto, do esquema de seres diferentes dos normais comum no seriados e grande produções norteamericanos.
Como se trata de estreia em Locarno, só depois de projetado se poderá saber qual o toque nacional explorado nessa história fantástica filmadapor um camera francês em São Paulo.
Em todo caso, os dois realizadores Juliana Rojas e Marco Dutra já fizeram um filme de sucesso, Trabalhar Cansa, que garante uma abordagem original. O inesperado de situações parece provocar medo ou susto na babá e nos espectadores.

Severina

O filme de Felipe Hirsch, um dos grandes diretores brasileiros de teatro, trata de um amor obsessivo. Existe em Severina um mistério sedutor e enigmático. Jovem de nacionalidade desconhecida, Severina rouba livros numa livraria.
A estreia será em Locarno, pouco se sabe do roteiro, além dessa síntese,

Era uma vez Brasília

O filme do braziliense Adirley Queirós é uma espécie de ficção político-científica, que se passa no Ano Zero depois do Golpe e mistura a história de um agente intergalático enviado a Brasília para matar o presidente Kubitschek, cuja nave se perde no espaço e no tempo, aterrissando na periferia da capital federal, em Ceilândia. O Congresso Nacional não tem mais deputados e senadores mas é habitado por monstros. Também vai estrear em Locarno.

Favela Olímpica

Não se sabe se o cineasta suíço Samuel Chalard se inspirou nas reportagens do jornalista australiano, que provocou a ira dos cariocas chamando de Favela Olímpica as instalações para as olimpíadas.
O filme foi feito durante a construção do Parque Olímpico junto à favela de Vila Autódromo.
Alguns habitantes da favela, condenados a deixar o local para as obras das olimíadas, conseguiram adiar sua expulsão, enquanto as obras avançavam nos terrenos antes ocupados pela população pobre.


Rui Martins é convidado do Festival Internacional de Cinema.



 


Direção e Editoria
IRENE SERRA
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