Ano 21 - Semana 1.091

 

  

 



1º de setembro, 2018

Nova diretora garante:

Festival de Locarno terá realidade virtual

A nova diretora artística do Festival de Cinema de Locarno, Lili Hinstin, promete incluir a Realidade Virtual, como nova expressão cinematográfica, dentro do seu objetivo de tornar Locarno pioneiro na renovação de formas. Sua preocupação é a de atrair o público jovem que tende a se ausentar das projeções nos cinemas e Piazza Grande, diante das opções oferecidas pela nova tecnologia.



A francesa Lili Hinstin foi a escolhida para assumir o lugar do diretor Carlo Chatrian que deixa Locarno em setembro, para assumir em março a direção-artística da Berlinale ou Festival Internacional de Cinema de Berlim. Atualmente, Lili Hinstin dirige o Festival Internacional de Cinema de Belfort (cidade francesa), cujo título é sugestivo EntreVistas, e onde são selecionados apenas filmes de jovens realizadores (do primeiro ao terceiro filme) do cinema independente.

O Festival EntreVistas de Belfort tem duração de oito dias, na segunda quinzena de novembro. Este ano, será do 18 ao 25 de novembro. A seleção não foi ainda completada, mas dela costumam participar filmes brasileiros. No ano passado, competiram dois filmes longa-metraagem brasileiros: Arábia, de João Dumans e Affonso Uchôa, e Corpo Elétrico, de Marcelo Caetano.

Embora menor, mas considerado o segundo mais importante festival francês depois de Cannes, EntreVistas de Belfort tem uma estrutura semelhante ao Festival Internacional de Locarno, em grande evolução nos últimos anos e equiparado atualmente aos de Berlim e Veneza.

O fator decisivo para a escolha de Lili Hinstin para dirigir Locarno teria sido sua preocupação com as novas formas da cinematografia.

Entretanto, Lili não quer assustar ninguém, ela promete manter as mesmas estruturas da competição internacional e das atuais mostras paralelas. Um ajuste pessoal só será feito na equipe encarregada de proceder às seleções de filmes, provavelmente reforçada com seus especialistas de Belfort.

No que se refere ao cinema brasileiro, português e latinoamericano não deverá haver modificações nas escolhas de Locarno, pois estão sempre presentes em Belfort, tanto longas como curtas-metragens, e são, portanto, bem conhecidos pela nova diretora de Locarno.

Antes de Lili Hinstin, Locarno já foi dirigido pelo francês Olivier Père. Uma das preferências para os candidatos à direção de Locarno, é de falar o italiano, pois o festival está no cantão do Ticino, na Suíça italiana. Ora, Lili Hinstin, que nasceu em Paris em 1977, é formada em línguas, literaturas e civilizações estrangeiras pela Universidade de Paris e de Pádua, na Itália.


Por Rui Martins, que esteve em Locarno, convidado pelo 71º Festival Internacional de Cinema de Locarno.

 

 

 

71º Festival Internacional de Locarno


Rui Martins

Ouro para filme sobre imigração em Singapura

O Leopardo de Ouro foi para o filme Uma Terra Imaginada, do realizador Zeo Siew Hua, de Singapura, sobre a situação naquele país dos trabalhadores imigrantes vindos dos países vizinhos.

Vai terminando o 71º Festival Internacional de Cinema de Locarno e aparecem algumas surpresas: nenhum prêmio para o longo filme de 14 horas, A Flor, de Mariano Llinás, e nenhum prêmio para Sibel, o filme sobre uma comunidade conservadora turca, do casal francoturco Guillaume Giovanetti e Çagla Zencirci, sobre intolerância, considerado um dos melhores filmes pela crítica.

O Leopardo de Ouro foi para o filme Uma Terra Imaginada, do realizador Zeo Siew Hua, de Singapura, sobre a situação naquele país dos trabalhadores imigrantes vindos dos países vizinhos.

O Prêmio Especial do Júri foi para o filme choque da competição internacional - M, maiúsculo, de Yolande Zauberman, relatando casos de abusos sexuais e de pedofilia por religiosos e rabinos ortodoxos em Bnei Brak, Israel.

A Melhor Realização foi atribuída à chilena Domingas Sotomayor pelo filme Tarde para Morrer Jovem, sobre uma comunidade perto de Santiago do Chile.

Melhor Atriz foi para a romena Andra Guti, no filme Alice T., de Radu Muntean, no qual representa uma adolescente agressiva.

Melhor Ator foi para o coreano do sul Ki Joobong, no filme de Hong Sangsoo, Hotel à Beira do Rio, um poeta conhecido que reencontra seus dois filhos adultos, ao se sentir próximo da morte.

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Filme A Flor conquistou Locarno


Duas horas antes de serem anunciados os prêmios do Festival Internacional de Cinema de Locarno, uma coisa é certa, o filme argentino A Flor, de Mariano Llinás, foi o filme mais comentado, mais visto, mais amado ou mais detestado, destes dez dias.

Primeiro por sua duração: 14 horas, com projeções todas as manhãs. Um filme longo pode se tornar penoso, pode ser o sofrimento de um pequeno número de aficionados dos chamados filmes de autor. Porém, é fácil saber se tem penetração no público: basta se olhar na sala. Está cheia? ou tem meia-dúzia de gatos pingados?

A Flor era um exceção, porque em princípio não se seleciona filme longo para a competição, pois vira um quebra-cabeça a programação da exibição. Porém, o diretor do Festival, deixando Locarno para dirigir Berlim, tinha ampla liberdade de movimento. E aceitou. Disse mesmo na coletiva em julho com a crítica, ser um filme destinado a ficar na história do cinema, a imprimir sua presença.

Outra exceção foi a de se reservar uma grande sala, todas as manhãs, para projeção de A Flor, no mesmo horário de um outro filme em competição, forçando-se os jornalistas a tumultuarem suas agendas. Como havia oito projeções de A Flor, cada uma com hora e meia ou duas horas de duração, muitos críticos decidiam ver pelo menos duas delas.

A coisa complicava porque A Flor não é um seriado ou telenovela. As histórias começam mas não terminam e, pior, não continuam na próxima projeção. Cada história tem vida própria, a maioria mostram as quatro belas mulheres envolvidas, principalmente em espionagens. Em síntese, cada dia uma surpresa ou atração. Sem cansar ou dar sono porque A Flor conta as histórias de maneira diferente, é esse seu forte. E a música e a fotografia, e as tomadas nos prendem.

Alguns falam em um toque godardiano, é verdade, pode ser, mesmo porque, depois do filme, como antigamente, se procura interpretar isto ou aquilo mostrado no filme. Não é um filme que se injeta no espectador submisso. Ele é diferente, mas dizer ser godardiano seria restringí-lo, ele tem de tudo que o cinema já fez de bom. E a cada dia de projeção se espera qual será o novo menu, a nova trama, a nova receita.

A outra novidade é a de se misturar a crítica com o público. O cinema fica cheio, sai pouca gente durante a projeção, e há aplausos. Talvez A Flor não seja o melhor filme do Festival de Locarno, mas é o mais diferente. E é claro, depois de A Flor, os festivais não poderão mais exigir filmes de duas horas no máximo.

E a música? Desde ontem. o último capítulo, quando a maior parte do filme era uma homenagem ao cinema mudo, num silêncio total, ficou tocando na minha cabeça a música de fundo dos letreiros finais, as contribuições ao filme em termos de atores, produtores e tudo mais. E essa música que cola nos ouvidos, sequer está gravada, me confessa Mariano Llinás.

Algo de novo no cinema? talvez nem tanto porque a base é a mesma, porém uma nova utilização dos recursos até agora utilizados em cinema. Mariano Llinás é criativo, original, inova, amplia nossa visão, nos oferece algo inteligente e por isso a maioria adorou A Flor, porque sai daquele prato batido do feijão com arroz à macarronada.

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A Sedução da Carne, de Bressane

A sedução da carne pode levar a um complemento da alimentação, mas também à destruição, como enfatizou Bressane, em conversa com os espectadores, depois da apresentação de seu filme surrealista Sedução da Carne, na mostra paralela Sinais de Vida, do Festival Internacional de Cinema de Locarno. No Brasil, para se chegar aos rebanhos bovinos se destroem florestas, pratica-se a monocultura da soja e se interrompem mesmo os ciclos das águas, disse ele sobre o aspecto literal da carne.
Por Rui Martins, em Locarno convidado pelo Festival Internacional:

Nem todos entendem ou gostam dos filmes de Bressane, mas existem grandes apreciadores. A prova foram os aplausos insistentes quando o cineasta apareceu no cine Kursal, em Locarno, na mostra Sinais de Vida, para responder às perguntas de espectadores, logo após a exibição do filme.

A personagem do filme Sedução da Carne é Siloé, nome inspirado de uma antiga nascente de água em Jerusalém, conhecida nos Evangelhos por ter lavado nela seus olhos, retirando o barro com saliva, um cego curado por Jesus.

Siloé costuma falar com seu papagaio e conta ser viúva há três anos. Antes, havia viajado muito com seu marido e as paisagens e imagens mostradas no filme Sedução da Carne são dos lugares por onde ela viajou.

Ao lado dela, há sempre um prato com filés de carne crua. O filme se torna surrealista como os do espanhol Luiz Buñuel, quando pedaços de carne passam a se mover como se fossem vivos.

A relação de Siloé com os pedaços de carne é erótica, ela lambe um pedaço no qual há uma orifício, enquanto outro pedaço vivo de carne crua desliza pelas suas pernas em direção a entrecoxa, sobre seu sexo, coberto pela saia, permitindo-lhe se masturbar.

Na cena final, Siloé está deitada nua sobre as costas com largos bifes sobre seus seios, coxas e púbis.

Vegetariano, mas não propagandista dessa opção alimentar, Bressane mostra algumas curtas cenas de abate de animais e sangria, que lembram as dos movimento antiespecista veganista.

Logo depois da exibição do seu filme, Bressane aproveitou para denunciar a destruição que se continua fazendo no Brasil das florestas para o plantio da soja, isso se refletindo no escasseamento da água e das chuvas, além do envenenamento alimentar provocado pelo excesso de agrotóxicos nas plantações.

Júlio Bressane foi a seguir para Sils Maria, na Suíça, apresentar seu filme sobre a

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A presença portuguesa em Locarno

A presença de filmes e pessoas ligadas ao cinema português é marcante no Festival Internacional de Cinema Locarno. Fazemos uma rápida relação.

Está no júri das curtas de Locarno, Marta Mateus, que teve uma experiência de atriz com Odete, filme do mesmo nome de João Pedro Rodrigues. Como realizadora, fez Farpões Baldios, curta-metragem premiada, em julho do ano passado, com o Grande Premio Internacional no Festival do Curtas de Vila Conde.

Farpões Baldios, fábula sobre um Portugal rural em que se cruzam velhos e novos, o filme, de acordo com a ata do júri, pertence a “uma linhagem de obras onde a infância desbloqueia os sofrimentos, os erros e as virtualidades do passado, tradição que devemos, entre outros, a Manoel de Oliveira, a Antonio Reis, Margarida Cordeiro e Teresa Vilaverde.”

Realizador do curta Três Anos Depois – Uma mulher, com o cabelo ao vento, vê um grande clarão no escuro da noite. O que é que ela teme? Porque desvia o olhar? Marco Amaral volta a concentrar-se numa narrativa muito concisa e precisa, procurando mostrar como os espaços parecem caracterizar as personagens: desolados, perdidos, incompreendidos. Entre aquela mulher e a casa onde está, encontra-se uma criança e outra mulher mais velha. Parecem formar uma família, mas a instabilidade e o silêncio prolongam um sofrimento escondido.

O filme conta o encontro de mãe com seu filho João, que ela abandonara e deixara com a avó, e sua tentativa de reconquistar o rapaz. Para tanto, leva consigo uma bola de futebol, mas João nesses três anos deixara de gostar de jogar futebol.

Marco Amaral quis saber com seu filme se, no momento do retorno da mãe Ana, ela ainda é considerada como mãe por seu filho que, abandonado com cerca de três anos, tem agora por volta de seis. Não lhe interessa as questões legais mas simplesmente as reações afetivas.

Há também no curta a figura de um cão desaparecido, Golias, que teria assim ficado sem o afeto do seu mestre, o menino João, como João ficara sem o carinho de sua mãe.

Antes de ser realizador, Dídio Pestana é músico e compositor com Gonçalo Tocha com o qual forma o grupo TochaPestana. Os TochaPestana editaram Música Moderna, o primeiro álbum, em 2014, dez anos depois da residência artística em Alcobaça.

Sobre Tudo Sobre Nada, primeira longa de Dídio Pestana, colaborador habitual de Gonçalo Tocha ou Filipa César, está na mostra paralela Sinais de Vida.

O curta-metragem Como Fernando Pessoa Salvou Portugal, de Eugène Green, integra a competição da secção Signs of Life da 71.ª edição do Festival de Locarno.

Como Fernando Pessoa Salvou Portugal estreou antes em Portugal, no dia 22 de Julho, no Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. O filme é uma coprodução entre França, Bélgica e Portugal e tem a duração de 28 minutos.

O curta-metragem é protagonizada por Carloto Cotta, Manuel Mozos, Diogo Dória, Alexandro Pierroni Calado, Ricardo Gross, Mia Tomé e o próprio Eugêne Green. A narrativa é baseada no episódio do slogan que Fernando Pessoa criou para a Coca-Cola, no caso a Coca-Louca (“Primeiro estranha-se, depois entranha-se”), e na rocambolesca proibição da bebida que se seguiu.


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Locarno, abuso sexual entre hassídicos

É o filme choque deste ano em Locarno. Seu título é um simples M maiúsculo. M de Menahem Lang, que conduz a realizadora de origem judáica Yolande Zauberman, parisiense, a Bnei Brak, em Israel, lugar considerado como a capital mundial dos haredim, os judeus ultraortodoxos, do qual também fazem parte os hassídicos ashkenazi.

Menahem Lang tinha sido uma criança extremamente gentil, assíduo nas escolas talmúdicas, sempre com as roupas pretas próprias dos haredim e se distinguia por ter uma voz especial para interpretar em yiddish os cânticos litúrgicos. mas ao chegar aos vinte anos, Menahem deixou a família em Bnei Brak e se instalou em Telavive.

E a razão dessa ruptura, ele conta, rompendo um doloroso segredo, no filme de Yolande Zauberman:o
Menahem tinha sido violado, desde pequeno, por membros diversos dessa comunidade religiosa. Sua coragem fez com que outros também decidissem contar o segredo de Bnei Brak - a existência de muitos outros casos de pedofilia e de abusos sexuais mesmo entreos maiores. Violados que se transformam em violadores e entre eles inclusive rabinos. "Eu era um porno-kid, diz ele, um menino destinado ao prazer dos homens".

O filme de Yolande Zauberman é uma denúncia como foram os recentes filmes denunciando a pedofilia dentro da Igreja Católica, como são os filmes mostrando as mulheres-objetos dentro da religião islamita, em flagrantes da enorme hipocrisia existente entre muitas comunidades religiosas, de crenças diferentes, porque, ao que parece, o impulso sexual é mais forte que a fé ou o temor de Deus.

Yolande Zauberman tem feito filmes documentários de denúncia, como foi seu primeiro documentário sobre o apartheid na África do Sul, e para se ter consciência do valor do seu testemunho sobre as práticas entre haredim hassídicos em Bnei Brak, é suficiente lembrar ter sido ela da equipe do realizador israelense Amos Gitai.

Menahem Lang começou a ser violado aos sete anos de idade, inclusive por rabinos e autoridades locais, testemunha ele no filme, filmado nessa cidade religiosa onde os haredim se dividem em grupos, um mais fanático que o outro, como se vivessem numa outra Idade Média. O próprio relacionamento dos homens com suas esposas é marcado por frustrações sexuais, conta o documentário, com o sexo só destinado à reprodução, feito no escuro total.

Pelo choque que esse documentário provoca e vai provocar nos próprios meios judáicos, a realizadora Yolande Zauberman quer que outros tantos casos de violação, mesmo dentro de famílias, sejam conhecidos e que os ultraortodoxos decidam a fazer sua mea culpa pública como está fazendo a Igreja Católica.
M é o único documentário concorrendo este ano na competição internacional do Festival Internacional de Cinema de Locarno.


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Spike Lee, o poder negro contra KKK

Spike Lee não veio a Locarno para a apresentação do seu novo filme BlacKKKlansman, pois o filme já havia estreado no Festival de Cannes. Porém,sua mensagem encheu os 300m²do telão da Piazza Grande, onde havia mais de seis mil espectadores.

A abertura do filme é impressionante - o discurso racista do chefe do Ku Klux Khan. Não muito longe do que diria o presidente Donald Trump, que praticamente inocentou os responsáveis supremacistas brancos envolvidos nas violências em Charlotteville, na Virgínia, uma mistura da extrema-direita americana, ainda saudosa da época dos negros escravos, e de neonazistas do Ku Klux Khan, que apoiavam a segregação racial no sul dos EUA e praticavam pogroms contra negros.

Não muito longe do que poderia dizer, num hipotético discurso de posse, o candidato homofóbico da versão fascista brasileira verde-amarela favorável à tortura, inocentando os torturadores, e disposto a normalizar a Rocinha com metralhadoras.

O filme se baseia num livro publicado, em 2006, por Ron Stallworth, uma história verdadeira, pois conta como, em 1972, ingressou na polícia de Colorado Springs e acabou se infiltrando no KKK. O contato foi feito por telefone e para os encontros pessoais ia, no lugar de Stallworth, um branco de origem judáica.

A adaptação de Spike Lee transforma a história num thriller de lances cômicos, em meio a palavras de ordem dos Panteras Negas, de MalcomX, reuniões com Angela Davis, reuniões dos racistas do KKK com seu atentado frustrado. Do Black Power Spike Lee nos leva ao Black Lives Matter de hoje.

O ator na pele de Ron Stallworth, com aquele cabelo cheio estilo Angela Davis, é John David Washington, filho do ator americano Denzel Washington, que tinha sido Malcom X há alguns anos.


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Temporada mostra realidade brasileira

O filme brasileiro Temporada, do mineiro André Novais Oliveira, foi muito bem recebido pela crítica por sua autenticidade, por mostrar a realidade brasileira, após sua exibição na mostra paralela Cineastas de Hoje, onde concorre com outros diretores de primeiros filmes.

Inspirado na ação dos agentes sanitários contra o mosquito aedes-egypti, o realizador brasileiro André Novais Teixeira, criou a agente Juliana encarregada de visitas de porta-a-porta para evitar a proliferação das larvas do mosquito vetor da dengue e zika em água empoçada em potes de plantas, pneus velhos ou poças de água parada nos jardins. Juliana é atriz profissional, a conhecida Grace Passô, há alguns atores de teatro, mas a maioria dos participantes são amadores e mesmo familiares do diretor do filme.

É o caso do seu irmão, na cena de amor mais sexy do Festival com Juliana, que foge aos padrões cinematográficos por serem ambos obesos. Além de transpor para a tela a realidade popular das periferias das cidades brasileira, no caso Contagem, perto de Belo Horizonte, num retrato fiel da população negra vivendo mal em cortiços, alimentando-se mal e ganhando salários mínimos miseráveis, o filme Temporada mostra sem preconceitos como a aparência física dos brasileiros, denunciada já pela OMS, vai sendo a da obesidade, consequente da má alimentação.

André não conta e talvez nem tenha percebido, mas o filme mostra a precariedade do combate aos mosquitos, cuja eficácia deve ser bastante duvidosa.

"O filme vem da minha observação do pessoal que trabalha nas periferias no combate às endemias. Juliana vem do interior de Minas para trabalhar em Contagem na região metropolitana", conta André. E essa mudança geográfica de Juliana implica também numa mudança de vida e numa abertura, já que passar a conhecer os moradores com suas visitas para alertar contra a proliferação dos mosquitos.

Um filme de pequeno orçamento que é um retrato fiel da realidade brasileira, na qual se misturam a pobreza e aceitação passiva dos pobres trabalhadores nas suas atividades precárias mesmo quando se trata do combate das doenças, num país onde também não se construiu nenhuma infraestrutura social e sanitária nesta tão decantada última década.


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QUE BRASIL É ESSE?


A exibição do filme Temporada, do realizador mineiro André Novais Oliveira, um dos melhores filmes que vi, nestes últimos anos, em Locarno e Berlim, é providencial num período tão tenso de próximas eleições.

Essa a importância também política da manifestação artística, cuja liberdade de expressão teremos sempre de lutar para preservar. Porque tão perigosa quanto a censura no mundo das artes, é a apropriação pelo poder ou por partidos da expressão artística para transmitir mensagens não verdadeiras, louvando-se o que não se fez com objetivos eleitorais.

Não é o caso do filme Temporada, um retrato fiel do Brasil das periferias, das suas populações sofridas submetidas a salários de miséria e, no caso dos agentes sanitários do filme, da precariedade na qual vive o Brasil no combate aos mosquitos. O filme Temporada não é um documentário, mas aí está sua força, ele retrata sem pretensões uma realidade digna do século passado, antes mesmo de Oswaldo Cruz. Fosse um documentário, mostraria provavelmente uma realidade maquiada.

Temporada é real, além de ser um filme bem feito, por um diretor autêntico que na vida real convive com seus personagens, por uma produtora Filmes de Plástico, interessada em mostrar imagens que geralmente se esquecem, seja por interesse da minoria dominante, seja por interesse do partido populista que imagina ter o monopólio da população pobre, Temporada mostra que, na tão decantada e recente década social, nada foi feito em termos de estruturas sociais e sanitárias em favor das populações das periferias.

Mostra, sem ser esse o objetivo do filme, mostra sem querer mostrar, que vivemos uma fábula. O Brasil do filme Central do Brasil, de Walter Salles, é o mesmo Brasil de Temporada de André Novais Oliveira, nada mudou. A periferia cresceu, as pessoas comem mais pão a ponto de ficarem obesas, fenômeno brasileiro recente denunciado pela OMS, porém os negros continuam vivendo mal como antes e a população pobre continua sendo mal paga e mal protegida contra as doenças.

Temporada é o filme da nossa pobreza contente, passiva e conformada com sua má sorte. Na maneira contente como os agentes sanitários aceitam seu pequeno salário, a falta de equipamentos e verba para um verdadeiro combate dos mosquitos, o filme documenta nosso dengue e zika políticos. Estamos todos infectados e muitos ainda pedem mais.

Deu-se muito pão branco ao povo, que ficou obeso, mas não se deram vitaminas, seria o slogan para se desmistificar a fábula construída. O Brasil infelizmente continua igual, porém mais conformado e desenganado. Temporada poderia ser uma espécie de manifesto político, ao ser exibido no Festival de Brasília.

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O Gordo e o Magro abrem o Festival de Locarno nesta quarta-feira



O mundo vai mal? Trump ainda vai nos levar à guerra? Na impossiblidade de fazer alguma coisa, vamos rir e nos embriagar com gargalhadas. O Festival Internacional de Cinema de Locarno, que começa hoje, não nos quer induzir à uma alienação total diante do caos, mas nos promete fazer rir.

Depois de tantos anos de filmes tristes, de revolta e de indignação, Locarno quer oferecer aos seus espectadores, naquele telão de 300 metros quadrados, razões para rir, com uma dupla patrimônio universal, cujas idiotices fazem rir israelenses e palestinos, cristãos e islamitas, homens e mulheres, negros e brancos, machões e homossexuais, coxinhas e mortadelas - quem é capaz dessa unanimidade? A dupla (ou o casal?) o Gordo e o Magro!

Mas não apenas os 23 minutos do filme Liberty, mostrando as trapalhadas do obeso e do franzino, isto é, do gordo e do magro, no alto de um edifício em construção, com o risco de caírem, nos fazendo chorar de rir com o coração na mão. Carlo Chatrian, o discreto diretor do Festival, que passou seis anos corando diante do público da Piazza Grande, evitando com sua timidez e modéstia se transfomar num people, ousou, enfim, sair da toca - escolheu colocar na mostra Retrospectiva uma batelada de comédias do realizador americano Leo McCarey, abrir o Festival com o Gordo e o Magro, e programar uma espécie de telenovela argentina com catorze horas de duração, cortada em pedaços de hora e meia ou duas horas, projetados logo logo depois do café da manhã, durante oito dias do Festival. Comédia à parte, Locarno quer fazer economias e os filmes de Leo McCarey no domínio público se alugem mais barato que os de Charlie Chaplin.

Depois do Gordo e o Magro, filme mudo mas com acompanhamento musical, virá o filme francês Os Bons Espíritos, de Vianney Lebasque, sobre um grupo de atletas deficientes que participam de uma competição. Entre eles, dois ou três são normais e foram integrados no grupo para ocupar o lugar de alguns desistentes. Também na linha do humor, assim como diversas comédias sentimentais incluídas entre os filmes selecionados nas diversas mostras. Um prêmio será concedido a uma atriz que deixou sua marca numa dessas comédias sentimentais - Meg Ryan, do inesquecível Quando Harry encontra Sally. Lembram-se dela simulando um orgasmo dos bons em pleno restaurante?

Na quinta-feira, haverá um filme suíço com título bem sugestivo - Onde você está João Gilberto?, contando as peripécias, de nós brasileiros bem conhecidas, de um cineasta à procura do mestre da Bossa Nova para filmar, dirigido por George Gachot. Parece que não achou!

Haverá ainda filmes de Spike Lee, Blackkklansman; de Ethan Hawke, Blaze, que estará em Locarno; de Antoine Fuqua, The Equalizer2, também em Locarno. O ator principal é Denzel Whahington, ausente infelizmente.

E os nossos vizinhos latinoamericanos como estão em Locarno?

Há dois filmes, um argentino, A Flor, de Mariano Llinás, e Tarde para morrer jovem, da chilena, Dominga Sottomayor, na principal competição internacional, e um colombiano, Pássaros de Verão, de Ciro Guerra e Cristina Gallego, programado para ser exibido na prestigiosa Piazza Grande, no telão de 300m2. O filme argentino A Flor, é digno do livro de recordes Guiness - tem duração de 14 horas e será projetado em pedaços de hora e meia, duas horas, durante oito dias do Festival. Chatrian disse ser um desafio ao público e à crítica programar tal filme, mas, entre nós, quem está de partida pode se permitir inovações. O diretor colombiano Ciro Guerra é conhecido por seu filme O beijo da serpente, de grande sucesso. Há ainda um filme argentino e outro mexicano na mostra Cineastas do Presente e 3 curtas metragens, dois colombianos e um venezuelano. Total nove e o Brasil dois! Parece o 7 a 1...

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Marcante a presença do Brasil em Locarno, diz diretor

Frase diplomática ou irônica? O fato é que logo depois de ter dito haver uma presença marcante do cinema brasileiro no Festival Internacional de Locarno, embora sejam só dois filmes e fora da competição internacional, seu diretor Carlo Chatrian reconheceu ter recebido mais filmes, acrescentou, porém, que a qualidade é um dos critérios de seleção e que espera um filme de um diretor brasileiro, mesmo de 12 horas, que o surpreenda para ser selecionado. Leiam a entrevista completa.


O cinema não morreu e nem vai morrer, Netflix não é ameaça acentua Carlo Chatrian, numa entrevista exclusiva a Rui Martins, falando dos filmes brasileiros e latinoamericanos participantes do 71. Festival Internacional de Cinema de Locarno (1 ao 11 de agosto), cuja direção artística deixará para assumir essa mesma função na Berlinale, o Festival Internacional de Cinema de Berlim.

A ausência de filmes brasileiros nas principais competições internacionais teria sido por falta de melhor qualidade, dá a entender o diretor do Festival de Locarno, embora considere marcantes a presença do filme de Júlio Bressane, Sedução da Carne, e do filme Temporada, de André Novais de Oliveira, na mostra Leopardos de Hoje, destinada aos cineastas emergentes.

Carlo Chatrian está entusiasmado com o filme argentino A Flor que, deverá marcar presença na história do cinema. De qualquer forma, com duração de 14 horas será o mais longo filme apresentado num festival.


Entrevista com Carlo Chatrian, diretor-artístico do Festival Internacional de Cinema de Locarno


Rui Martins – Com apenas dois filmes em Locarno e fora da principal competição internacional, como vê a participação brasileira este ano?
Carlo Chatrian - Eu acho que a presença brasileira é marcante neste Festival de Locarno, temos um grande mestre que retorna, Júlio Bressane, com seu filme Sedução da Carne, com seu cinema que é provocante, pleno de humor e de ironia, e temos também algo novo, Temporada, na mostra Cineastas do Presente. Quanto à quantidade da escolha, houve evidentemente propostas de outros filmes mas não selecionamos pensando na nacionalidade do filme mas verificando sua qualidade e sobretudo tentando compor um programa melhor possível.
Rui Martins -Os brasileiros não estão na competição internacional mas a América Latina está, como esse filme argentino, A Flor, de Mariano Llinás, com duração de catorze horas, que será exibido parcelado durante o Festival.
Carlo Chatrian – Esse filme argentino nós o selecionamos como um desafio ao público, à crítica e aos profissionais. Um filme pelo qual nos apaixonamos e que, acreditamos, ficará na história do cinema. Senão, vamos esperar que um realizador brasileiro nos proponha um filme, de 12 horas?, que me surpreenda para ser selecionado...
Rui Martins – Para a projeção do filme argentino no Festival, foi decidido mostrar todos os dias um pedaço até o fim do Festival?
Carlo Chatrian – O filme está previsto para se ver em três partes e, depois existem os episódios, mas o realizador não quer que o público veja episódio por episódio. Ele quer ir além do seriado de televisão ou telenovela. Existem personagens que reaparecem, principalmente as atrizes, e histórias dentro das histórias. Aqui no Festival o filme será visto em oito dias, de manhã, em partes de hora e meia a duas horas, escolhidas pelo realizador Mariano Llinás. Esse filme não é difícil de se seguir. Ele é longo, com diversas histórias em diversos idiomas. Começa na América Latina mas depois vai até a Europa, Bruxelas, França, faz um pouco a volta do mundo, misturandos gêneros e tons.
Rui Martins - … e há o filme colombiano...
Carlo Chatrian – O filme colombiano Pássaros de Verão foi mostrado em Cannes, não está na competição mas será exibido no telão da Piazza Grande. É um filme de Ciro Guerra, do qual gostei muito do Abraço da Serpente. Pássaros de Verão é uma história forte que se mistura com uma beleza extraordinária de paisagens e de corpos.
Rui Martins – Alguma observação sobre o filme brasileiro Temporada, que concorre na mostra Cineastas do Presente?
Carlo Chatrian – É o segundo filme de André Novais de Oliveira, história de uma jovem que, com um grupo de colegas faz uma pesquisa, paga pela comunidade, sobre o mosquito vetor do virus zika. Não é um filme realista, trata-se de um pretexto para se saber o que se passa nos bairros burgueses e pobres, aproveitando para contar a história dessa mulher de uns quarenta anos, que muito nos tocou pelo tom. Não é uma comédia mas não é uma tragédia, uma história de amor que se constrói em cima dessa realidade. No Brasil, pelo menos eu acho, estamos acostumados com os muito ricos ou muito pobres, e essa história se passa numa pequena classe média, contando com muita sensibilidade a vida que as pessoas levam nas suas casas modestas.
Rui Martins – Qual será o futuro do cinema, o futuro dos festivais? Um grupo de jovens escolhidos pelo Festival de Locarno pesquisa essas questões. Houve essa crise entre o Festival de Cannes com Netflix. O que acha, os festivais continuarão chamando a atenção das pessoas ou será preciso mudar, pois os jovens mudaram seus hábitos com seus celulares?
Carlo Chatrian – Faz mais de trinta anos que falam na morte do cinema e ele está aí, cheio de vida. O cinema nos mostra filmes que adoramos, que são vistos por milhões de pessoas, quem vem a Locarno pode ver seu público principalmente jovem. Não tenho nenhum receio quanto ao futuro do cinema, ele está vivendo um momento de evolução e de transição. A questão mais importante ligada a essa transição do cinema, é a relacionada com as salas onde são projetados os filmes, os cinemas. Acho que para continuarem existindo deverão mudar a maneira de programar os filmes e de apresentá.los. Hoje, exceto os filmes lançados com grande publicidade, os filmes têm dificuldade atraírem o público e serem visíveis. Nisso, acho que os festivais têm um papel importante. Muito importante é também o público que vai aos festivais porque é ele quem vai transmitir, levar adiante os filmes como as antenas. Os festivais têm esse papel – o de mostrar que certos filmes existem e sua mensagem ao público é: estes filmes existem, gostou deles? Diga, então, a outras pessoas. Não é uma maneira muito ortodoxa de explicar, mas se mudança deve haver, ela se ferá nas pequenas coisas, não nos grandes sistemas. Os grandes sistemas de distribuição estão estruturados de tal forma que não irão ajudar o cinema de autor.
Rui Martins – Bom, acredita no futuro do cinema e dos festivais, está indo agora dirigir outro festival, pretende fazer inovações?
Carlo Chatrian – Claro que tenho confiança no futuro do cinema, senão faria outra coisa como profissão. A cada ano fico surpreso pela qualidade dos filmes que me chegam, com histórias que não se repetem. Por isso, não tenho nenhum receio quanto ao futuro do cinema.
Rui Martins – Netflix não é uma ameaça?
Carlo Chatrian – Não. Eu acredito que Netflix traz alguma coisa de novo. Os jovens olham Netflix, porém eles vão também ao cinema. A questão é como comunicar um filme que, segundo a maneira como é produzido, não pode estar em todos os lugares. Tanto que Netflix produzirá bons filmes, dará vontade de ver filmes. E se temos vontade de ver filmes, queremos vê-los nas melhores condições possíveis. E o cinema, a sala onde são projetados os filmes, é ainda a melhor situação, o melhor lugar para se ver filmes. Talvez eu esteja sendo muito positivo diante da realidade, mas é como se passa com a biblioteca e a livraria. Se eu vou à biblioteca é porque gosto de ler e, se eu gosto de ler vou também à livraria comprar alguns livros que gosto particularmente.

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Com a presença de apenas dois filmes brasileiros em destaque no próximo Festival Internacional de Cinema de Locarno, de duas uma: ou os realizadores de bons filmes levaram suas produções para Cannes, Veneza e Berlim ou, a pior hipótese, baixou a qualidade da nossa cinematografia. A relação dos filmes selecionados para o Festival Internacional de Cinema de Locarno já foi divulgada em Berna, na Suíça.

Temporada, único filme brasileiro em competição no Festival Internacional de Cinema de Locarno

O filme Temporada de André Novais Oliveira foi selecionado para a competição da mostra Cineastas do Presente do Festival Internacional de Cinema de Locarno, que começará dia primeiro e irá até onze de agosto.

Júlio Bressane participa, em Locarno, com seu filme Sedução da Carne, na mostra paralela Sinais de Vida, fora de competição.

Não há filmes brasileiros na principal competição do Festival Internacional de Locarno e nem na competição de curtas-metragens.

Esta será a mais fraca participação do Brasil em Locarno, onde haverá, na competição internacional, um filme argentino de 14 horas de duração, A Flor, a ser apresentado ao público em partes escolhidas pelo realizador Mariano Llinás, durante sete sessões matinais do Festival.

O Brasil participa, mas apenas como coprodutor do filme chileno Tarde para Morrer, da chilena Dominga Sotomayor, competição internacional. São também coprodutores a Argentina, a Holanda e o Qatar.

O Brasil é também um dos coprodutores, com Alemanha e Noruega, do filme Família Submergida, da cineasta argentina Maria Alché, na mostra Cineastas do Presente.


Rui Martins, convidado pelo Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça.


 

 


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IRENE SERRA
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