[1].
Em 17 de tamuz recordamos muitas rupturas: das tábuas
por Moisés; das muralhas de Jerusalém; do santuário do Templo
profanado; da oferenda diária interrompida; dos rolos de
Torá queimados por Apóstomo... Não foi à toa que Sadam
Hussein “batizou” seu reator nuclear de Tamuz 17!
Já 9 de av é a data mais sombria do calendário judaico.
O Talmud (Taanit 29-a) nos conta que tudo começou um ano
e meio após o êxodo do Egito: antes de o povo judeu entrar e
conquistar a Terra Prometida, Moisés enviou para lá doze
espiões. Ao voltarem, disseram ao povo que os habitantes eram
muito fortes e que os judeus tinham poucas chances de
vencê-los. Segundo a Torá, "Naquela noite, o povo
chorou" (Nm 14:1). D’us puniu os israelitas por essa falta de
fé, decretando que iriam errar pelo deserto durante 40 anos até
morrer. Somente seus filhos iriam entrar na Terra Prometida. E
acrescentou: "Esta noite choraram em vão; Proclamarei este dia
como dia de luto para as gerações vindouras". Era dia 9 de
Av...

E é longa a lista de fatos trágicos que nele se registram:

586 a.e.c. - Destruição do Primeiro Templo pelos ba
bilônios;
70 e.c. - Destruição do Segundo Templo pelos romanos e o início
do Exílio;
135 - Queda de Betar, último reduto da Revolta de Bar
Kochba, com milhares de judeus mortos ou exilados e a
última esperança de reconquistar a independência dos romanos
destruída;

136 - Jerusalém foi destruída e a romana de Aelia Capitolina
estabelecida em seu lugar;

1290 - Assinatura do édito de expulsão dos judeus da
Inglaterra;

1492 - Os judeus foram expulsos da Espanha;

1555 - O Papa Paulo IV força todos os judeus de Roma a se
mudarem para uma área malcheirosa próxima ao Rio Tiber e a
pagar pelo muro que cercava o Gueto;

1914 - Início da Primeira Guerra Mundial (e a Alemanha
derrotada foi o solo fértil da Shoá);
1942 - Começo da deportação dos judeus do Gueto de Varsóvia.
No ciclo de vida judaico, que continua e se repete, foram
inseridas tradições para lembrar que a alegria não está
completa sem Jerusalém e o Templo:
- um prato é quebrado na assinatura de um contrato de noivado;
- o noivo quebra um copo debaixo da hupá após a
cerimônia de casamento;
- uma pequena parte de parede em toda casa nova é deixada sem
gesso ou sem pintura
Por quê?
O Talmud (Yomah 9b) explica que o Primeiro Templo foi
destruído por causa de idolatria, homicídios e imoralidade
sexual. Durante a época do Segundo Templo, os judeus estudavam
a Torá e respeitavam suas leis; todavia, se odiavam. Ele
foi destruído por uma só razão: sinat hinam ou ódio
gratuito: as pessoas se odiavam sem nenhuma razão, não havia
compaixão e falavam mal uns dos outros (lashon hará).
Nossos sábios ensinam que esses atos são equivalentes (ou
piores) do que idolatria, imoralidade e assassinato. Tanto que
o Primeiro Templo foi reconstruído 70 anos após sua destruição,
e o segundo, quase 2000 anos depois, ainda não...
O Talmud (Guitin 55-57a) conta uma estória que simboliza
este ódio: no meio de um banquete dado por um homem rico, este
descobre que Bar Kamtsa, seu inimigo, tinha sido
convidado em vez de Kamtsa, seu amigo, e se recusa a
ouvir a súplica de Bar Kamtsa para não ser humilhado em
público ou mesmo sua oferta para pagar as despesas. Pôs Bar
Kamtsa para fora à força, o qual, em represália, incitou
Roma contra o povo judeu.

O anfitrião não aceitou Bar Kamtsa de jeito algum.
Qualquer reconhecimento seria admitir que existisse um
intrínseco relacionamento. Permitir que Bar Kamtsa
ficasse significaria haver uma conexão, e, portanto, em algum
nível, um compromisso - e isso, para o anfitrião, era
impensável.
E esta é a essência do Sinat hinam, ódio gratuito: a
recusa em reconhecer um relacionamento, uma conexão, um
compromisso com o outro, não por causa de algo que a pessoa
fez, mas tão somente por causa da pessoa, sua presença, intruso
no “espaço pessoal”. Sinat hinam significa que o simples
fato de a outra pessoa existir é uma ofensa.
Uma lenda (Midrash Eicha Raba) narra, com fins
educativos, que na noite de Tisha beAv, a alma do
patriarca Abrahão entrou no
Kodesh há-Kodashim[2]
e perguntou: D´us, onde estão meus filhos? D´us respondeu: Eles
pecaram, portanto os exilei entre as nações. Abrahão insiste:
Mas não havia nenhum virtuoso? D’us explicou: Cada um se
regozijou com a ruína do outro...
As muralhas
E qual a relação disto com as muralhas de Jerusalém?
Uma muralha protege os que estão dentro de invasores
indesejáveis e une os que estão dentro de seus limites,
forçando o reconhecimento de um vínculo entre as pessoas.
Quando ela é rompida, ambas as funções são perturbadas -
inimigos podem penetrar na cidade e as pessoas podem ignorar
suas obrigações, abandonar a cidade, romper sua unidade.
A muralha que cercava Jerusalém unia os judeus numa existência
comum através de Ahavat Israel, amor fraterno, porque
dentro do muro localizava-se o Templo, representando a mais
elevada conexão e o mais profundo compromisso. Sinat hinam,
a falta de união, de consciência da conexão essencial entre o
povo judeu, provocou o exílio. Para trazermos a Redenção,
precisamos praticar Ahavat chinam, amor gratuito e
incondicional. Para reconstruir a muralha, precisamos
reconhecer e validar nossos relacionamentos, exprimir nossa
unidade essencial.

Um só coração...
“Nada mais inteiro do que um coração partido[3]”...
Conta-se que, certa vez, Napoleão Bonaparte ouviu lamentos e
choros vindos de uma sinagoga. Querendo saber o motivo, vieram
lhe informar que aquele era o dia de Tisha beAv e que os
judeus estavam chorando pela destruição de seu Templo em
Jerusalém. “Como eu não ouvi falar? Quando aconteceu?”,
perguntou Napoleão. Quando descobriu que o fato havia ocorrido
quase 2.000 anos atrás, Napoleão disse: “Uma nação que recorda
seu Templo destruído e lamenta tão profundamente e por tanto
tempo sua perda, certamente terá o mérito de vê-lo
reconstruído!”
É hora de unirmos nossos corações. Parafraseando Napoleão, não
há outro povo no mundo cuja vida tenha sido tão influenciada
por acontecimentos tão antigos. Apenas quem sabe lembrar e
sofrer as dores do passado é capaz de reconstruir o seu futuro.
[2] O lugar
mais sagrado do Templo em que apenas o Sumo Sacerdote podia
entrar em Iom Kipur
[3] Frase de
Rabi Menachem Mendel de Kotzk (Polônia, 1787-1859)