A ESPOLIAÇÃO DAS OBRAS DE ARTES
DE 1939 ATÉ 1945
INTRIGAS E CUMPLICIDADES
Uma unidade
americana encarregada do inquérito a respeito do
tráfego das obras confiscadas pelos nazistas,
durante a segunda guerra mundial, entregou o seu
relatório em 1946. Este foi mantido em sigilo
desde então, e foi somente transmitido ao
Congresso Judaico Mundial em janeiro de 1998.
Trata-se de um
caderno de 170 páginas, medindo 18 cm x 32,
datado de 1º de maio de 1946 com um endereço de
localidade: Washington, DC. Na capa está
impressa a palavra CONFIDENCIAL, duas vezes e em
letras maiúsculas. O título dele é: FINAL
REPORT (relatório Definitivo). O seu autor: A
Unidade de Investigação do Roubo de Artes. Essa
foi uma unidade americana encarregada da
investigação a respeito da espoliação de
obras de artes efetuada pelos nazistas durante o
período de 1939 até 1945. Ela foi criada em
1944 pelo Office of Strategic Services
(Escritório de Serviços Estratégicos),
pertencente ao serviço secreto americano. Esta
unidade reunia um grupo de especialistas de arte
e historiadores que centralizavam seus achados,
em locais escondidos de castelos alemães,
Igrejas ou minas. Podiam interrogar testemunhas e
suspeitos e trabalhavam em coordenação com os
ingleses e os franceses.
Na primavera de
1946, quando se encerraram algumas disposições
das forças de ocupação, em certas localidades
européias, a unidade entregou o balanço de suas
pesquisas, sob a forma de um relatório, onde
constam cerca de 2.000 nomes: alemães ,
franceses, suiços e luxemburgueses, todos
comprometidos no tráfego de obras de artes
seqüestradas pelos nazistas, todavia em diversos
níveis.
Biografias e
conexões
As diversas
nacionalidades ocupam diversos níveis de
responsabilidades. As quatro primeiras
nacionalidades, acima mencionadas, respondem por
muito mais do que os outros, cerca de 136
páginas de nomes, constando biografias e
endereços. Um sistema de símbolos permite uma
colocação hierárquica das responsabilidades e
suas conexões. Esse trabalho enorme tem os
seguintes méritos: as biografias sucintas são
elaboradas da melhor forma possível e mencionam
as profissões, as origens sociais, os laços
familiares: estuda a questão ao nível europeu e
ressalta as ligações administrativas,
comerciais e pessoais que interligam os diversos
países e fazem da Europa Hitleriana um grande e
único mercado de artes.
Este relatório
mantido em segredo, foi liberado em 29 de janeiro
de 1998 e transmitido ao Congresso Judaico
Mundial. Sob diversos aspectos ele confirma o
trabalho de Hector Feliciano, Le Musée Disparu (
O Museu Desconhecido), editado em 1995, e o
trabalho Lynn Nicholas, Le Pillage de
lEurope (A Pilhagem da Europa), editado
também em 1995 e que foi a primeira síntese a
respeito dessa questão. Ele se refere
especialmente à lista Schenker, que foi um
transportador especializado em obras de artes e
que trabalhou entre Paris e a Alemanha durante o
período da Ocupação e cujos arquivos foram
encontrados. Ele verifica alguns suspeitos,
circunstâncias e transações. Libera alguns
nomes e faz o inventário das múltiplas
ligações do tráfego. Inicialmente tem a
ligação oficial alemã, a principal
representante em Paris. A ERR procura as
coleções judaicas na Bélgica, Holanda e na
França e procede ao seqüestro. Centraliza os
roubos no Jeu de Paume (um museu) em Paris e faz
deste museu um centro de triagem de obras.
Alimenta o museu idealizado por Hitler, em Linz -
o futuro grande museu do Reich - e os museus das
principais cidades alemães. Fornece também para
os colecionadores particulares, tais como Goerig
e outros altos dignatários nazistas amadores de
artes. Organiza um intercâmbio, arte antiga
contra arte "degenerada" junto aos
intermediários locais.
Outras
ligações paralelas e também oficiais
espalhadas pela Europa como a organização
Muhlmann, na Holanda, o diretor do Instituto
Alemã de Belas Artes em Paris, o Sr. Hermann
Bunjes e o Sr. Walter Andreas Hofer que se tornam
os fiéis depositários da coleção de Goerig.
Um Mercado
muito rentável
Este sistema
nunca foi tão próspero como naquela época. Se
baseou nos objetos que os nazistas colocavam no
mercado, seja para intercâmbios diretos, seja na
Suiça, através de malas diplomáticas. Os
comerciantes tiram vantagem das vendas forçadas
de colecionadores judeus em fuga. Têm
comerciantes de todas as nacionalidades
européias e de todos os tipos, seja o
comerciante ao acaso, como o especialista em
galerias de luxo. Encabeçando esta lista , o
berlinense Karl Haberstock, diretamente engajado
na campanha nazista contra a arte
"degenerada" e o marchand de arte nº 1
do Reich. As galerias de propriedades de judeus
são "arianizadas" freqüentemente em
favor de funcionários subalternos que trabalham
nas mesmas, se aproveitando da deportação dos
proprietários. Aparecem também um grande
número de aventureiros e intermediários de
denominando de "comerciantes de móveis e
apartamentos" , que são na realidade
delatores de esconderijos de judeus, para receber
como prêmio os pertences deles e algumas vezes
seus cofres nos bancos. Existem também
colecionadores autônomos que se aproveitam para
vender tudo que podem em arte germânica e
flamenga até na Itália, que era aliada do Reich
até 1943 e que um pedido alemão era
praticamente uma ordem. É assim que o príncipe
Tommaso Corsini vendeu em 1941 ao príncipe
Philippe Hesse, emissário de Hitler "O
Retrato do Homem com a Carta de Memling ( de
1480) por 6.9 milhões de liras italianas, uma
transação entre um nobre italiano e um nobre
alemão "nazificado".
Um quarto grupo
também implicado nessa espoliação européia é
aquele dos especialistas da história da arte e
os que tratam da conservação dos museus. Assim
sendo, Josef Becker, diretor da Biblioteca da
Prussia e membro da "Kulturdirektion"
em Paris "trabalha" diretamente com
donos de librarias francesas. O Prof. Ludwig
Curtius, diretor do Instituto de Arqueologia
Alemã de Roma, ajuda o príncipe Hesse nas suas
aquisições. O Dr. Dagobert Frey, diretor do
Instituto da História da Arte de Breslau,
especialista em arte polonesa, ajuda a esvaziar
uma parte do museu de Cracóvia. A lista do
relatório fornece uma série de nomes ilustres
colaborando com o nazismo na espoliação das
coleções européias.
Nomes que
Confundem
Alguns desses
nomes ilustres surpreendem. Hans Posse dirigiu a
Galeria Nacional de Dresden antes de se tornar o
"patrono" do projeto de Linz. Após sua
morte em 1942, o seu sucessor Hermann Voss se
aprofundou na pilhagem das coleções de judeus
tais como: Schloss e Manheimer, Roberto Longhi, o
papa da história da arte italiana, aparece no
relatório como um conselheiro do marchand
florentino Eugenio Ventura, que era fornecedor de
Goering e cliente do ERR. Max Friedlander,
especialista em nórdicos primitivos e em
particular a arte de Memling, refugiado na
Holanda desde 1939, por ser de origem judaica, se
torna, graças a Muhlmann, o especialista que
supervisiona o mercado de pilhagens na Holanda e
o centro de um grupo de especialistas judeus
"protegidos" e empregados por Muhlmann
e que, como recompensa, faz de Friedlander um
"ariano de honra".
O relatório
revela, além dos detalhes das ramificações,
não só dos países ocupados, como também dos
países neutros, tais como a Suiça, Espanha,
Portugal e Suécia, o poder da corrupção que
rapidamente gangrena no conjunto das profissões
ligadas à arte.
É difícil
escapar à tentação do lucro fácil, seja um
comerciante, um historiador ou um colecionador,
como também é difícil escapar às pressões
morais e físicas que se arrastam como
conseqüência e também à covardia. Mais um
motivo para homenagear os que se recusaram entrar
no jogo. O relatório cita dois alemães, o conde
Franz Wolff Metterrnich e seu adjunto, o barão
Bernhard von Tieschowitz, que se recusam de
praticar confiscos e espoliações brutais. Se os
conservadores alemães, austríacos e holandeses
São numerosos nessas listas, podem se consolar
de que nenhum conservador ou historiador de arte
francesa está nelas.
Os Países
Neutros não Ficam para Trás
Além da Suiça,
os serviços americanos mencionam outros três
países neutros: a Suécia, uma monarquia
democrática e dois regimes ditatoriais, a
Espanha de Franco, próxima do III Reich e
Portugal de Salazar, próxima dos Aliados.
Na
Escandinávia, era a filial de Himmler que
funcionava; Edouard Alexandre Kersten, o
principal da filial. Henry Koux, um industrial
conhecido e a Sra. Editha Lundquist, que se
interessava muito por objetos da arte chinesa,
confiscados na França, na Holanda e na Alemanha.
Na Espanha, um agente alemão, George Henri
Delfanne se correspondia com Alois Miedl, que lhe
enviava quadros roubados. Mercadorias roubadas em
toda a Europa são escoadas através dos
comerciantes tais como Pierre Lottier e Erich
Schiffman, residentes em Barcelona, ou Arturo
Linares, residente em Madri. Karl Buchholz, dono
de uma libraria berlinense, abre em 1943, uma
filial em Lisboa com um sócio português,
Lehrfeld. Trabalha por conta de Goebbels e
Ribbentrop.
Fonte:
Journal Le Monde/1998
Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai
B´rith do RJ