VARIEDADES

                 

ISRAEL, superpotência da Internet


A compra da Mirabilis pela AOL vem provar no setor da Internet, símbolo de novas tecnologias, as empresas israelenses têm doravante um lugar entre os grandes. Bastou um golpe de gênio para transformar em milionários alguns jovens cabeludos do subúrbio de Tel Aviv. Mas será necessário bem mais que isso para desenvolver o setor, que ao mesmo tempo é extraordinariamente promissor e pleno de armadilhas. A novidade estourou como uma bomba no meio ligado à Internet. A American On Line (AOL) empresa que domina o mercado mundial de serviços de acesso à rede, comprou uma pequena empresa de informática chamada Mirabilis. "Trata-se, declara o Diretor da AOL, Steven Case, de uma das mais importantes decisões que tomamos no plano estratégico.

O custo da operação, pela AOL, é de 407 milhões de dólares, dos quais a maior parte, ou seja, 287 milhões, serão pagos imediatamente, o saldo, 120 milhões de dólares, deverá ser pago em três anos, em função dos resultados da sociedade. Os proprietários do Mirabilis se tornaram pois, em pouco tempo, homens ricos. Os proprietários em questão são um bando de jovens israelenses de cabelos compridos. A Mirabilis é uma empresa israelense, cuja sede tem algumas peças obscuras no interior de um edifício da zona industrial de Hadar Yossef, perto de Tel Aviv. A Mirabilis foi criada em julho de 1996 por Sefi Vigiser (25 anos) e Aánnon Amir (26 anos). Só os três primeiros continuaram na sociedade, da qual são, com o pai de Arik Vardi, os principais acionistas. Cada um entre eles "pesa atualmente por volta de 500 milhões de francos". Eles continuam dirigindo a Mirabilis e a desenvolver seu produto, um programa chamado ICQ.

O ministro das finanças Yakov Neeman, imediatamente saudou essa operação como um exemplo do caminho que deve seguir a economia israelense. Israel deve, sublinha ele, se especializar "nas atividades que se baseiam sobre o conhecimento", mas para isso é necessário desenvolver a formação de técnicos e engenheiros. Atualmente faltam 10.000 pessoas no mercado de trabalho e nós estamos forçados a importar técnicos indianos. Com efeito, o ministro do trabalho e dos assuntos sociais, Eli Ishai, acaba de obter o acordo do governo para um programa que visa reciclar engenheiros e outros diplomados, principalmente entre os imigrantes e desempregados, para as profissões de alta tecnologia. Esse programa cujo custo global será de 200 milhões de francos, permitirá formar 6.000 pessoas no espaço de três anos. O prefeito de Jerusalém, Elaud Olmer, também tem a intenção de se dirigir aos numerosos judeus ultra ortodoxos que residem na capital para lhes propor uma especialização nesse High Tech, onde parece que o espírito talmúdico faria maravilhas. Olmer conta com os fundos privados para criar os laboratórios de informática, em uma vintena de escolas em Jerusalém, principalmente no bairro de Pisgat Zeev. Essa efervescência que pareceu ganhar os políticos israelenses, quando se trata de alta tecnologia, se explica, bem entendido, pela importância das cifras em jogo. Não é em termos, a chave de uma independência econômica há tanto tempo procurada. Uma operação como AOL - Mirabilis, representa ela só, quase a metade da ajuda econômica cedida a Israel pelo governo dos Estados Unidos. Mesmo se aqui se trata de fundos públicos e lá de assuntos privados, podemos sonhar com uma situação onde as empresas israelenses gerariam suficientemente a entrada de divisas para equilibrar a balança dos pagamentos.

A história da Mirabilis, entretanto, merece ser contada com um pouco mais de detalhes, porque ela mostra que a capacidade de inovação não se acha necessariamente lá onde se vai procurar. Os fundadores da Mirabilis têm a beleza de serem jovens, mas não são verdadeiramente representativo desse novo grupo de engenheiros e técnicos que os responsáveis desejam chamar. De fato, Arik Vard e Yair Galdfinger não possuem nem mesmo o ginásio. Após seu serviço militar, eles exerceram diversas profissões e se encontravam numa pequena empresa que importava computadores. Foi lá que encontraram um antigo companheiro do tempo militar, Sefi Vigiser, que passava por "sábio" da equipe porque havia feito estudos técnicos de informática. Como eles estavam entediados uma noite, resolveram conectar-se na Internet e isso lhes deu a idéia de um sistema de comunicação ligando diretamente os usuários da rede. Um quarto garotão fazia parte da equipe inicial: Amnon Amir, mas ele acabava de obter sua licenciatura em ciências informáticas e ele deixou a sociedade Mirabilis recém fundada para se consagrar a seus estudos de mestrado em biologia.

A idéia sobre a qual nossos jovens inventores fizeram fortuna é extraordinariamente simples, mas era necessário pensá-la. Resumindo, a Internet é uma rede que liga os possuidores de computadores em todo mundo, basta se ligar à rede telefônica por intermédio de um modem e se filiar a um "fornecedor de acesso"(70 F à 100 F por mês) para circular livremente na Internet. Isso permite, entre outras, trocar mensagens eletrônicas (e-mail com pessoas do outro lado do mundo, pagando o preço de uma comunicação local. Sim, mas, disseram nossos jovens israelenses, se eu escrevo para um amigo nos Estados Unidos, ele terá conhecimento de minha mensagem quando abrir a "caixa de correspondência" que está no seu computador e se ele me responde, eu só saberei quando abrir minha própria "caixa de correspondência", mesmo se nós dois estivermos, no mesmo momento, ligados a Internet. É aí que surge a idéia genial, chamada ICQ, três letras que se pronunciam em inglês "I seek you", isto é, aproximadamente , "eu te procuro". Esse pequeno programa informa, no tempo real, que uma das pessoas com quem você quer se comunicar se acha na rede, lhe permite igualmente de dialogar com essa pessoa, de teclado para teclado. Basta para isso que cada um tenha se inscrito junto à Sociedade Mirabilis que tem o papel de standard internacional. O preço? Aí está outra idéia genial, é gratuito. Não se paga nem o serviço. (disponível em disquete e depois por telecarregamento). A conexão naturalmente é paga à empresa de telecomunicação. Então onde estão os ganhos? A possibilidade de venda do espaço publicitário - é ela que atraiu digamos, a AOL para o negócio. A Mirabilis dispõe de um fenomenal "banco de dados" contendo o nome e o endereço eletrônico de cada utilizador do ICQ, assim como um certo número de outras informações que estes deram no momento de sua inscrição. Ora, um utilizador do ICQ dialoga com seus amigos uma média de 221 minutos por dia, ou seja perto de três horas (contra sete minutos de presença, em média, num site normal da Internet. Esse tempo de conexão é uma vantagem incrível para os anunciantes, três horas durante as quais é possível enviar a consumidores potenciais publicidade personalizada. Mas a publicidade não é a única maneira de rentabilizar o ICQ. O número de aderentes se multiplicou na velocidade de um raio depois da introdução desse programa na Internet, em novembro de 1996; atualmente eles são mais de 11 milhões, dos quais 6 milhões são de utilizadores regulares. A gratuidade do serviço e a sua natureza de convívio faz com que os utilizadores sejam seus melhores divulgadores, que se trate de particulares ou de organismos aderentes à "cultura ICQ". Os gigantes do mundo da Internet, entre os quais Yahoo e AOL, ela mesma, tentaram lançar produtos concorrentes, mas a Mirabilis, que tinha seis meses de avanço sobre seus concorrentes, conquistou mais de 80% do mercado. Estima-se que, a cada instante, 180.000 internautas estão ligados simultaneamente no ICQ, pessoas de um relativo alto nível sócio-econômico, com quem muitas empresas ficaram felizes de entrar em contato. Atrair uma parte dos "ICquistas" para um fornecedor de serviços, propor-lhes uma conexão sobre esta ou aquela rede, isso também vale muito dinheiro. A AOL sabe em que investiu.

Eis como Arik, Yair e Sefi, fizeram fortuna em menos de dois anos. Yossi Vardi, o pai de Arik, compreendeu logo o potencial que continha o ICQ, tanto que colocou seu próprio dinheiro na sociedade, atraindo também alguns amigos influentes (Vardi pai é o antigo diretor geral do ministério de energia) o que certamente ajudou ao desenvolvimento da Mirabilis, mas a colocação de fundos era limitada, a fim de reduzir os custos de acesso à rede, os criadores da sociedade se instalaram com um computador em um pequeno apartamento de Sunnyville na Califórnia, depois, num pequeno apartamento em New York, de onde eles voltaram a Hadar Yossef, já com muitas centenas de milhares de endereços em sua carteira eletrônica. O essencial, de fato se devia a uma idéia, e essa idéia se apoiava sobre a convicção de que o mundo é hoje uma pequena aldeia, onde o subúrbio de Tel Aviv é tão próximo de New York que não importa qualquer outro ponto do globo. Não é de espantar, nessas condições, se o número de empresas especializadas nessa nova mídia global que é a Internet não cesse de crescer em Israel.

Logo após o acordo AOL - Mirabilis, anunciaram que a AOL acaba de adquirir 20% da parte de uma outra sociedade israelense, Jerusalém Picture Vision. Esta, fundada por "velhos" (Yaakov Ben Yakov, 31 anos e Elliot Joffé, 39 anos) que desenvolve os "programas" para transferir as imagens provenientes de filmes fotográficos diretamente na Internet. Lá também a idéia é surpreendentemente simples. O consumidor coloca a película numa agência a Picture Vision, em vez de revelá-la num fotógrafo do bairro. Ele recebe um código pessoal graças ao qual poderá consultar seu álbum de fotos num computador por intermédio da Internet, ou enviar as fotos a outras pessoas, ou ainda imprimi-las em casa. A fim de entrar na capital da Jerusalém Picture Vision, a AOL pagou 40 milhões de dólares. Há apenas três meses, o grupo Kodak tinha comprado 51% da sociedade por 50 milhões de dólares. Foram portanto, 90 milhões de dólares que foram investidos neste ano (julho/98) por duas multinacionais na Jerusalém Picture Vision.

Ao mesmo tempo, uma outra empresa isaraelense especializada na Internet chega no primeiro plano da atualidade; ela se chama Zapa e produz "programas' de animação em três dimensões. O potencial aqui também é considerável, diz respeito a todos aqueles que se desenvolveram, no curso dos anos que virão, que desejarem criar na Internet animações performáticas. O diretor de Zapa, Eyal Gever, tem 27 anos. Exatamente a mesma idade que Arik Vardi, da Mirabilis. De fato Eyal e Arik eram amigos de infância, inseparáveis durante anos. Arik Vardi e os outros inventores do ICQ fizeram seus primeiros passos na Zapa, mas se separaram por razões financeiras, e depois disso Eyal e Arik não se falam mais. Foi assim que uma querela tola de subúrbio de Tel Aviv teve repercussões sobre a indústria de informática em escala planetária. Zapa é, segundo confessa Eyal Gever "um pouco mais avançado sobre o mercado". Seus programas produzirão todos seus efeitos quando a Internet for mídia no pleno senso do termo, como a televisão ou o rádio hoje. Os operadores e os anunciantes terão necessidade então de instrumentos para produzir imagens animadas de alta qualidade, tendo em suplemento a interatividade que é própria da rede da Internet. Mas desde agora, Zapa atraiu a atenção de um certo número de investidores, entre os quais o grupo japonês Fujitsu e da sociedade da Apple. Acabam de anunciar um acordo entre Zapa e o gigante da Microsoft, em cujos termos os programas serão vendidos com o material de animação da Microsoft. O diretor de multimídia da Microsoft, Carl Jacobs não cessa de elogiar: "Zapa, disse ele ao jornal econômico israelense Globes, é uma empresa excepcional. Possui pessoas de grande talento que têm idéias muito claras sobre o que será o futuro da Internet. A maneira pela qual eles associam arte e tecnologia é extraordinária. Bill Gates parece ter a mesma opinião; o acordo entre Zapa e a Microsoft deverá ir além, dizem, dessa venda de "programas".

Em um outro domínio encontram-se israelenses entre os primeiros; trata-se ainda da "qualidade do serviço", abreviadamente QS. Todos os usuários da Internet sabem, com efeito, que a capacidade da rede é o principal freio à sua expansão. As mesmas linhas telefônicas transportam uma multiplicidade de mensagens e, nas horas de pique, todo mundo espera. Daí a idéia de modular o serviço oferecido ao usuário, em função de suas necessidades e do preço que ele está disposto a pagar. Para isso é necessário criar "códigos prioritários gerenciar a comunicação na rede em função desses códigos. Duas empresas israelenses estão em posição de força nesse setor: Clieck Point, dirigida por Gel Schuved e Tap Guard, dirigida por Alex Azoulai. (Assinalemos que os diretores conservaram seus nomes israelenses, neste caso, tipicamente judaicos, sendo que as empresas têm, porque o mercado obriga, nomes absolutamente anglo-saxões).

É interminável enumerar os investidores israelenses nesse domínio, que segundo nossos entendidos, será a tecnologia dominante do futuro decênio. No início de junho de 1998, no salão mundial da Internet em New York, enumeraram-se 37 expositores israelenses. O Estado Judeu aparece assim, segundo os termos da agência americana Associated Press, como "uma superpotência da Internet em escala mundial". É um prolongamento de uma presença já antiga nos dois setores de onde saiu a Internet: a informática e as telecomunicações.

Ed Zander, o presidente da Sun Microsystems, explicava assim porque sua sociedade veio se instalar em Israel: "em nenhum outro lugar, fora da Silicon Valley americana, criaram tantas empresas novas especializadas nessas tecnologias. Ele não é o único a ter essa opinião, longe disso. Gigantes da Informática como a IBM, Intel e Motorola estabeleceram, bem cedo, centros de desenvolvimento em Israel. Micro-empresas nascem todo dia ou quase, nos subúrbios das grandes cidades, como vimos, mas também na proximidade dos grandes centros de pesquisa que são as universidades de Tel Aviv, Jerusalém, Haifa e Beersheva, assim como os Technion, de Haifa e o Institut Weizmann o Rehovot. Foram identificados, perto de dois mil start-ups desse tipo. Filiais de grupos internacionais ou o mais freqüente, frutos das iniciativas locais, eles formam uma espécie de Silicon Valley, a israelense, com distâncias menores e relações pessoais mais fortes. É um novo Israel, que se constitui assim aos nossos olhos. Um país onde os valores que estavam na base da epopéia sionista, o trabalho da terra, um país de economia fechada e o coletivismo deram lugar a uma corrida para a modernidade, a mundialização e ao individualismo. Há cinqüenta anos, as laranjas de Jaffa eram o principal produto de exportação do jovem Estado. Hoje, somente as vendas de serviços de informática (programação e análise de sistemas, sem contar os materiais) pesam duas vezes mais que a totalidade das vendas de cítricos.

Israel, superpotência da Internet? Sim, se acreditarmos nos números, mas é preciso lembrar que essa potência é frágil porque supõe uma perpétua corrida para frente. As tecnologias aqui em questão se renovam, não a cada dez ou vinte anos, como antigamente, mas a dois ou três anos, até menos que isso. Foram suficientes seis meses para a Mirabilis impor seu produto na rede da Internet e conquistar 80% da rede mundial. O mesmo tempo pode ser suficiente para um concorrente introduzir um novo produto. Conquistar as partes do mercado talvez por um golpe de gênio, como aquele dos inventores do ICQ. Para conservar essas partes do mercado, em troca, é preciso perseverança e pessoal qualificado. Voltamos assim à questão da formação, que foi evocada pelo ministro Yakov Neeman, desde o anúncio do acordo AOL-Mirabilis.

Os especialistas estimam atualmente em 30.000 o número de pessoas empregadas em Israel no setor de alta tecnologia. Segundo um relatório que acaba de ser publicado pelo conselho de educação superior - uma instância consultiva de representantes das universidades israelenses - é possível dobrar esse número no espaço de cinco anos. Para isso, diz o autor do relatório, o professor Nehemia Levtzion, o número de diplomados formados por universidades nas disciplinas científicas deve ultrapassar seu nível atual, que é de 2.000 por ano a 4.000, daqui ao ano 2003. É uma questão de motivação. Convém incitar as pessoas brilhantes a escolher o caminho científico do que lançaram no direito ou na gestão. É também uma questão de financiamento; um laboratório de informática custa caro e Israel não é ainda uma "superpotência" no sentido figurado do termo.


Fonte: L'arche
Tradução: Victoria Cardin
Enviado por Leon M. Mayer

 

Editoração e Coordenação:
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