Fritz
Utzeri
Heil
Bräuer!
No
Aterro do Flamengo há um monumento onde estão enterrados 468
brasileiros. Ao embarcar para o lugar onde morreriam, a Itália,
sabiam que estavam indo combater o mal absoluto que tomara conta de
um povo, o alemão, na figura de um ditador: Adolfo Hitler. O mal
chamava-se nazismo e, além de provocar a mais sangrenta das
guerras, fez do racismo religião. Homens, mulheres e crianças,
considerados inferiores pelos alemães, arianos e senhores da terra,
foram assassinados em escala industrial. Seis milhões de judeus,
quase um milhão de ciganos, milhões de eslavos e até vários
milhares de alemães, dissidentes ou com defeitos físicos. Nossa
parcela de mortos foi modesta, mas heróica: 468 jovens Josés,
Raimundos, Severinos, Ernestos e outros deram o seu sangue para
varrer da terra a face monstruosa de Hitler.
Esta
semana todos eles foram insultados, vilipendiados por ninguém menos
que um brigadeiro que, até há pouco, era o comandante da Força Aérea.
Quem quiser conferir, só terá que ler as páginas amarelas da
revista Veja. Leia: "Hitler foi um líder. Ele tinha uma visão
ou uma personalidade UM POUCO DISTORCIDA. Eu não o defendo, MAS
TAMBÉM NÃO POSSO ATACÁ-LO. Se ele conseguiu mobilizar uma nação
como a Alemanha, devia ter o seu valor. Era um homem carismático,
mas se superestimou." A frase, partindo de um militar
brasileiro, é quase inacreditável. Que Hitler foi um líder, até
as pedras sabem, mas daí a afirmar que tinha uma personalidade e
uma visão UM POUCO distorcidas, há uma distância enorme. O
brigadeiro Bräuer diz que não pode atacá-lo. Se tivesse 18 anos
quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, faria o quê?
Alegaria
objeção de consciência em respeito ao ídolo de seu pai? E os 468
heróicos pracinhas que morreram nos campos da Itália? Morreram em
vão? Morreram por lutar contra um líder com pequenas imperfeições,
"carismático" e que se superestimou?
Líder
carismático que se superestimou é descrição que encaixa como uma
luva em políticos como Jânio Quadros. Hitler era muito mais do que
isso. Era psicopata, assassino, e isso não são "pequenas
distorções". Filho de alemão, Bräuer mostra uma
germanofilia inquebrantável ao dizer: "Se ele conseguiu
mobilizar uma nação como a Alemanha, deve ter o seu valor."
Por quê? O que há de tão especial com a Alemanha?
Ouso afirmar que o povo alemão, em conjunto, é mais manipulável e
menos inteligente que o nosso sofrido povo brasileiro. Nasci na
Alemanha, meu pai morreu lutando no exército alemão, e fiz-me
brasileiro por opção e amor por esta terra. O que gosto da
Alemanha chama-se Bach, Beethoven, Mozart, Goethe, Schiller e Kant.
O que detesto, chama-se Bismarck, Hitler, Himmler, Goering e
Goebbels.
Sandra
Brasil, da Veja, perspicaz como sempre, vai fundo na mente do
brigadeiro: "O senhor acredita mesmo que haja algo especial nos
alemães?" "Não sei o que é. Não sei se é genético
mas pode até ser. As características são de pessoas organizadas,
disciplinadas, trabalhadoras e com uma cabeça muito boa. A gente
diz que os alemães são os portugueses que deram certo. Ambos são
muito trabalhadores, só que as coisas que os alemães fazem dão
certo e a dos portugueses nem sempre."
Novamente
a visão do colonizado. Esse pequeno povo português, que o
"ariano" Bräuer menospreza, foi capaz de alargar as
fronteiras do mundo nos séculos 15 e 16, levando suas frágeis naus
aos confins do mundo, uma aventura de ciência e coragem ímpares,
por enquanto não superada nem pela ida do homem à Lua. Se o próprio
Bräuer está aqui e fala português, é graças à saga desse povo,
para o qual as coisas "nem sempre dão certo". O que fez a
Alemanha em toda a sua história que se aproxime disso?
Bräuer
descreve uma infância difícil de filho de alemães no sul do
Brasil e mal disfarça o rancor que sente pelo fato de ter sido
proibido de falar alemão e de ver confiscado o rádio de seu pai,
no qual escutava as pregações de Hitler. "Meu pai ouvia o
radinho e torcia pelo povo dele. Mas ele não pregava o
anti-semitismo. Ele ficou magoado com o que aconteceu com ele aqui
por causa da guerra e por isso torcia para o lado de lá."
Também
não tive uma infância fácil. Meu pai foi morto antes que eu
nascesse, na frente polonesa e não pude sequer imaginá-lo direito.
Provavelmente foi morto por soviéticos ou resistentes poloneses. Eu
deveria odiar os soviéticos ou os poloneses?
Provavelmente como criança, na primeira notícia da morte do velho,
sim. Se fossem os soviéticos que tivessem invadido a Alemanha,
certamente sim. Mas quando Fritz, meu pai, morreu estava em terra
alheia, que ajudara a conquistar e da qual estava sendo expulso.
Terra
onde os nativos, eslavos, eram considerados subumanos, escravizados
e mortos como moscas pelos senhores arianos, realidade que me levou
a perguntar, durante anos, o que o meu pai poderia ter visto ou
feito naquela guerra. Só os russos perderam 25 milhões de pessoas.
Minha mãe corria desesperada dos bombardeiros em Berlim
(três vezes ao dia em 44; 1.500 aviões por vez!). Devo
odiar os ingleses e americanos por isso? E o senhor vem me falar de
um radinho confiscado?
Ambos
crescemos no pós-guerra e tivemos oportunidade de avaliar e
conhecer a realidade. Eu fico com os pracinhas e a eles, como
nascido na Alemanha, peço desculpas pelo insulto do brigadeiro. Vocês
deram a vida pelo que é justo. Meu pai não teve escolha, mas em
outra crônica disse que escondia com ele, em sua moto (era
batedor), discos de jazz e nesse detalhe - gostar de uma música
que os alemães nazistas consideravam "negra, decadente e
corrompida" - vi uma luz que me disse que o velho Fritz era
incapaz de atrocidade. Quem amou Duke Ellington, Louis Armstrong ou
Django Reinhardt não podia ser nazista.
O
que me espanta é o programa das escolas preparatórias das Forças
Armadas. Se alguém, após anos de formação, pode chegar a
oficial, a comandante da Força Aérea (a mesma FAB que "sentou
a pua" gloriosamente com seus P-47 e praticamente nasceu na
luta contra o nazismo), confessando que não pode atacar Adolfo
Hitler e lhe atribui "valor", a situação é preocupante.
O que estamos ensinando a nossos jovens cadetes? Talvez seja a hora
de a sociedade civil se interessar mais por isso. O que deve ser
exigido é uma sólida formação democrática. Qualquer outra direção
doutrinária é um perigo que a sociedade não pode ignorar.
Fritz
Utzeri
Diretor
de Redação
fritz@callnet.com.br