Ano 16 - Semana 793



 

       29 de junho, 2012
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Por que ser judeu?
Uma carta para meus filhos




Queridos Judah, Micah e Aviva

Diz uma tradição judaica que os pais devem deixar aos seus filhos um tzavaah, um testamento ético no qual expressam suas preocupações e expectativas em relação a seu futuro. Este costume remonta à época de Isaac, que abençoou seus filhos Jacob e Esaú. Jacob, por sua vez, chamou seu filhos e lhes disse: "Venham juntos, para que eu possa falar-lhes sobre o que acontecerá nos dias que estão por vir" (Gênese 49:1). Eu não ouso prever o futuro, mas gostaria de lhes falar sobre o nosso futuro como judeus.

Embora isso lhes possa parecer inoportuno, hoje, algum dia, cada um de vocês se perguntará "Por que ser judeu?" Esta é uma pergunta não muito comum, pois provavelmente vocês nunca se perguntarão "Por que ser americano?" ou "Por que ser homem ou por que ser mulher?".

Eu gostaria que, para vocês, sua identidade judaica fosse sempre um fator positivo. No entanto, não gostaria que deixassem de refletir sobre o seu judaísmo, da mesma maneira como refletem sobre os demais aspectos da sua vida. Tenho certeza que perceberão que sua identidade judaica envolve mais do que apenas reflexão. Vocês descobrirão que ser e permanecer judeu exigirá uma tomada de decisão e uma atuação constante.

Nenhum pai pode ter certeza de que seus filhos continuarão sendo judeus. Vocês podem concluir que não há espaço em seu coração para as questões ligadas ao povo judeu. Vocês podem considerar outras tendências espirituais mais atraentes ou se satisfazer em ser seres humanos dignos. Como pais, esperamos ter construído um lar e uma vida em comunidade nos quais ser judeu será uma escolha inevitável. Sabemos, no entanto, que vocês farão a sua própria escolha, a despeito de nossa escolha como pais.

Por que ser judeu? Poderia dar-lhes várias respostas. Poderia dizer que vocês nasceram judeus, cresceram judeus e jamais conseguirão ser algo diferente. Sei que vocês podem fazer outras escolhas, inclusive uma tão séria quanto trocar sua identidade por outra. Mas, mesmo que vocês neguem sua condição judaica, haverá sempre outros para lembrá-los quem são. Vocês devem estar preparados para assumir os valores positivos do que são, pois os outros serão menos generosos.

Sempre me lembro de um diálogo de Freud com um amigo judeu que não pretendia educar seus filhos de acordo com a tradição judaica. Freud lhe disse: "Se você não deixar o seu filho crescer como judeu, você o privará de fontes de energia insubstituíveis. Ele deverá lutar como um judeu e você deve ajudá-lo a desenvolver toda a energia de que necessitará. Não lhe tire esta vantagem". Quais são as fontes insubstituíveis mencionadas por Freud? Espero que sejam a característica judaica de superar os obstáculos, a busca pela perfeição e a capacidade de ver o mundo como este pode ser, não apenas como o é.

Poderia também apelar para os sentimentos de lealdade. Pedir-lhes que não abandonem a religião que é sua desde o seu nascimento, a fé de seus pais e de seus ancestrais. Poderia dizer que o D'us do judaísmo é meu D'us e que o seu povo é o meu povo. Não acredito que o judaísmo tenha o monopólio da verdade, mas realmente me sinto próximo dos mitos sagrados do meu próprio povo.

Vejo-me perguntando quem eram meus ancestrais, quais os livros que leram e quais as suas crenças. A certeza de que refletiram sobre os mesmos temas sobre os quais reflito, de que atravessamos os mesmos rios e paramos nos mesmos pontos, dá-me um sentimento de continuidade e de pertencer que eu não encontraria em outra fé.

Sei que não posso esperar que tenhamos as mesmas opiniões políticas que eu ou escolham a mesma carreira que escolhi. Então, por que devo esperar que vocês sejam judeus apenas por causa de sua herança?

O mundo precisa que vocês sejam judeus. A sociedade moderna enfrenta novos e inimagináveis desafios. Do ponto de vista puramente intelectual, o judaísmo é uma das mais antigas e ininterruptas culturas da civilização ocidental. É um segredo inestimável para entender a civilização. A cultura judaica teve um papel fundamental na transmissão da cultura clássica grega e romana ao Ocidente durante o Renascimento. Por várias vezes a literatura judaica serviu como instrumento de preservação e disseminação da tradição clássica pelo mundo. A cultura judaica é o tênue elo entre as tradições humanísticas da antigüidade e da modernidade.

Reconheço que a causa principal da necessidade da sobrevivência do judaísmo está acima de qualquer explicação racional. Um judeu sabe instintivamente a importância da continuidade judaica, embora possa levar uma vida inteira para explicá-lo a si mesmo. Esta busca de respostas poderá levá-los a fazer cursos, integrarem-se a uma comunidade, visitar Israel ou apenas ler mais sobre temas judaicos. A razão mais forte para serem judeus é a satisfação que vocês podem encontrar em ser parte de tudo aquilo que compõe a vida judaica.

Sei que até o momento só falei sobre as razões pelas quais eu acredito que este empreendimento que chamamos judaísmo e sobrevivência do povo judeu merece o seu apoio e o seu envolvimento. Se os judeus não se importarem com o judaísmo, quem se importará? E se os judeus deixarem de ser judeus, quem será o representante da crença em um mundo melhor? Mas a verdadeira resposta para a pergunta "Por que ser judeu?" está vinculada a vocês enquanto indivíduos.

Se vocês optarem por desistir de sua herança judaica, estarão perdendo algo que não pode ser substituído. Conduzimos nossa vida neste mundo de maneira precária. O judaísmo nos ajuda a navegar no mundo, a preenchê-lo com grandiosidade e a alcançar alguns momentos eternos. Dá-nos uma orientação espiritual que não nega a importância de cada dia e nos ajuda a elevar o mundano. Estou preocupado com a maneira como vocês viverão suas vidas. Ao transmitir-lhes a fé de nossos antepassados, faço-o com a esperança de que vocês usem o potencial que D'us lhes deu para tornar a vida extraordinária.

Ser judeu é ser eterno caçador das infinitas maneiras pelas quais podemos realizar D'us em nossas vidas. Um provérbio chassídico incentiva-nos a nos concentrarmos em dois pensamentos: que o "mundo foi criado por minha causa" e que "eu nada sou além de pó e cinzas". Quando nos sentimos pequenos e insignificantes, devemos lembrar que fomos criados à imagem e semelhança de D'us, e que o mundo foi criado por nossa causa. Quando nos sentimos poderosos, devemos lembrar da nossa mortalidade. O objetivo máximo de nossa vida é ser a manifestação de D'us no mundo.

Acreditamos que D'us é o ideal supremo ao qual aspiramos em nossa vida diária, em nossas práticas religiosas, em nosso aprendizado e nossas preces. O mundo mais elevado é o mundo ao qual aspiramos, mas também é aquele que só podemos realizar em nosso íntimo, em nossos relacionamentos e em nossa comunidade. Alcançar a realidade transcendental, acima de nós mesmos, é o objetivo espiritual do judaísmo.

Meus filhos, esse é o meu tzavaah, meu testamento ético. Lembrem-se, sua vida é como um livro. Escrevam nele o que vocês querem que seja conhecido sobre vocês.


Com amor,
Seu pai
 

Adaptado do livro "What do Jew Believe? The Spiritual Foundations of Judaism",
de David S. Ariel.
Enviado por Leon M.Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B'rith do RJ
lmmayer@openlink.com.br


 


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IRENE SERRA
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