Ano 9 - Semana 440


 

   03 de setembro, 2005
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Isaac Abravanel

Resposta ao Édito de Expulsão (1492)


"Sua Majestade, Abraham Senior e eu agradecemos a oportunidade de fazer este pronunciamento em defesa da comunidade judaica, a qual representamos... Não é uma grande honra quando se pede a um judeu que apele pela segurança de seu povo. Porém, é uma desgraça maior quando o rei e a rainha de Castela e Aragão procuram a sua glória através da expulsão de um povo gentil e inocente. Não consigo entender como cada judeu - homem, mulher e crianças - pode representar uma ameaça para a fé católica. São acusações muito graves.

Nós destruímos vocês?
A realidade é justamente o oposto. Sua majestade não admitiu, neste édito, ter confinado todos os judeus a bairros restritos, limitando nossos privilégios legais e sociais, tudo isso sem mencionar o fato de sermos obrigados a usar roupas que nos envergonham? Não nos aterrorizam dia e noite com sua diabólica inquisição? Eu quero deixar um fato bem claro para todos os presentes: Eu não permitirei que a voz de Israel seja silenciada neste dia.

Ouça, ó céus, e permita ao rei e à rainha da Espanha, também ouvirem, porque eu, Isaac Abravanel, digo. Minha família e eu somos descendentes diretos do rei David. Sangue real verdadeiro, o sangue do Messias, corre em minhas veias. Esta é a minha herança e eu a proclamo agora em nome do D'us de Israel.

Em nome do meu povo, o povo de Israel, o povo escolhido, eu o declaro inocente de todas as acusações feitas neste édito abominável. O crime, a transgressão, serão a sua carga. E o decreto injusto que vocês proclamaram hoje será a sua destruição. E este ano, o qual vocês imaginam ser o de maior glória para a Espanha, vai se tornar a grande vergonha da Espanha.

... Quando atos abomináveis são cometidos por um indivíduo, mancha-se sua reputação. E quando reis e rainhas cometem ações vergonhosas, provocam grandes danos a si próprios. Costuma-se dizer que, quando maior a grandiosidade de quem erra, maior o seu erro.

... Sim, vocês venceram os muçulmanos infiéis com a força de seu exército, provando sua habilidade na arte da guerra. Mas o que há no seu espírito? Com que direito seus inquisidores atravessam o país queimando milhares de livros em fogueiras públicas? Com que autoridade os homens da Igreja querem agora queimar a imensa biblioteca árabe que há neste grande palácio mouro, destruindo seus manuscritos de valor inestimável? Por quais direitos? Por qual autoridade? Pela sua autoridade, meu rei e minha rainha.

Em seus ouvidos e em seus corações, vocês desprezam o poder do conhecimento, respeitando apenas o poder. Para nós, judeus, é diferente. Nós prezamos muito o conhecimento. Em nossos lares e em nossas casas de oração, o aprendizado é uma meta eternamente perseguida. Aprender é nossa paixão, a essência de nossa existência. Esta é a razão, segundo os nossos sábios, pela qual fomos criados. A força do nosso amor poderia contrabalançar seu excessivo amor pelo poder. Nós poderíamos ter-nos beneficiado de sua proteção e vocês da sabedoria da nossa comunidade. Eu lhes digo que nós poderíamos ter ajudado uns aos outros.

... Algum dia a Espanha se perguntará: o que nos tornamos? Então os espanhóis olharão para o seu passado e se perguntarão por que aconteceu desta maneira. Aqueles que forem honestos apontarão para o dia de hoje como sendo o início do declínio de seu país. E a causa de seu declínio estará escrita no nome de seus soberanos católicos Fernando e Isabel, conquistadores dos mouros, que expulsaram os judeus, criaram a inquisição e destruíram o espírito da Espanha.

... Ouçam, rei e rainha da Espanha, no dia de hoje vocês se uniram à lista dos demônios que agem contra a casa de Israel. Se vocês desejam destruir-nos, não conseguirão, pois governantes maiores e mais poderosos tentaram e falharam. Certamente, prosperaremos em outras terras distantes. Porém, aonde quer que estejamos, o D'us de Israel estará conosco. E quanto a vocês, rei Fernando e rainha Isabel, a mão de D'us os atingirá e punirá pela arrogância que há em seu coração.

... De geração em geração, será repetida a história de sua falta de fé e visão. Porém, mais do que seus atos de ódio e fanatismo, falar-se-á da coragem do povo de Israel, que permaneceu de pé diante do poder imperial espanhol, defendendo a herança religiosa de seus pais, resistindo a suas pressões e a suas falsidades.

Expulsem-nos desta terra a qual amamos não menos do que vocês.

... Lembraremos de vocês e deste seu vil Édito de Expulsão para sempre".



Enviado por Leon M.Mayer
B'nai B'rith do RJ
lmmayer@openlink.com.br

 


Direção
IRENE SERRA
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