Ano 9 - Semana 443


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    24 de setembro, 2005
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Jayme Pinsky

Sempre é tempo de Reflexão
 

O que dizem os nossos sábios sobre o dia de Rosh Hashaná, literalmente cabeça de ano? Dizem que é uma comemoração muito especial no calendário judaico. Ao contrário do que muitos imaginam, Rosh Hashaná mais do que iniciar alguma coisa, conclui um período de preparação representado pelo mês de Elul, que precede a festa do ano novo. Nesse mês todo judeu deve chegar ao ano novo após uma cuidadosa reflexão sobre sua existência, sobre as razões de suas falhas, principalmente as de caráter e sobre as soluções que encontrou para melhorar como ser humano.

Tenho a certeza de que todos aqui já fizeram essa reflexão e já encontraram suas respostas... Devido ao caráter social da religião judaica, além de resolver seus problemas, cada um de nós é solicitado a ajudar a que todos despertem para o momento da renovação da vida, o ano novo. É por isso que nessa data toca-se o shofar, uma espécie de berrante feito de chifre de carneiro: para que mesmo os mais indiferentes sejam despertados e não aleguem depois que não foram avisados de que o momento havia chegado.

Em Rosh Hashaná temos que, mais do que nunca, pensar no próximo. É por isso que nessa data se enviam cartões de felicitações, reafirmam-se amizades, estreitam-se relações e outras novas são buscadas: se um é responsável por todos e todos são responsáveis por um a solidariedade é virtude e obrigação.

Lembro-me de Rosh Hashaná na casa de meus pais, em Sorocaba. Tudo começava com uma festiva visita à loja de calçados da rua Barão do Rio Branco, a Galeria dos Calçados, se não me falha a memória. Era para lá que éramos conduzidos pela minha mãe e era lá que, ruidosamente, escolhíamos os sapatos que nosso crescimento, aparentemente descontrolado, prometia que serviriam para apenas alguns meses. É verdade que o futebol, jogado em frente à sinagoga com tampinhas de refrigerante em vez de bola, se encarregava de encurtar ainda mais a duração do pobre sapato, mais isso é uma outra história. O que cabia agora registrar era que só após o sapato novo, acrescido do terno novo, meias, camisa e até cueca nova, é que nos sentíamos adequadamente paramentados para o ano novo.

Pela manhã, bem cedinho, saíamos a pé da Hermelino Matarazzo, no bairro operário do Além Linha, para o centro, todos juntos, crianças de mãos dadas, sentimento de que estávamos novos por fora e por dentro em direção à sinagoga. Antes meu pai punha na porta de aço da loja o aviso cuidadosamente desenhado em sua letra firme e regular: fechado por motivo de feriados religiosos. E assim caminhávamos, sérios e felizes, cientes que tínhamos sido legais nos 12 meses anteriores. Nesses dias não íamos à escola, mesmo se houvesse prova e meus pais escreviam em nossas cadernetas o pedido oficial de dispensa. Isso tudo nos identificava como membros de um grupo e nos diferenciava de outros grupos.

Na sinagoga a solenidade, em vez de começar de verdade, acabava. Não há lugar mais zoneado do que uma sinagoga de verdade, e nossa sinagoga, graças a Deus era uma sinagoga de verdade. Todos rezavam juntos, as mulheres devidamente separadas por um biombo acortinado que atravessávamos sem cessar. Freqüentemente alguém se animava e, em vez de murmúrios ritmados soltava lamentos, gritos, uivos em diferentes tons, mas sempre assustadores. Quando a reza virava um bate papo mais ou menos generalizado, alguém dava uma porrada na mesa exigindo silêncio, mas não conseguia muito mais do que acordar os mais sonolentos.

As pessoas sentavam-se em grupos de amizade e de política, pois apesar de sermos poucos, conseguíamos nos dividir em duas ou três facções que se odiavam mortalmente e para quem Rosh Hashaná, quando passávamos dois dias juntos, era uma ótima oportunidade para dizermos o que pensávamos uns dos outros.

Não, não era um ambiente muito espiritual, nem ao menos éramos estimulados a adequar o que o judaísmo tem de essencial ao momento que vivíamos. Queriam que nos sentássemos junto com os adultos e repetíssemos, acriticamente, suas falas, pois assim tinha sido com eles, com seus pais e com seus avós. Nunca pude aceitar que uma coisa tão forte como a identidade judaica pudesse depender apenas de nossas rezas em hebraico de pronúncia idishizada e nenhuma relação com o mundo pluralista em que vivíamos.

Hoje acredito que as pessoas faziam o que sabiam e acreditavam que isso fosse toda a verdade. O massacre dos judeus pelo nazistas e seus aliados, mesmo os assimilados, transformava, aos nossos olhos, o mais odioso dos judeus em aliado necessário e o mais doce dos não judeus em traidor potencial. Aos olhos ingênuos do judaísmo sorocabano a identidade impossível era indispensável, mesmo sem que, de fato, nos gostássemos tanto. Como meus pais eram bons e sinceros, me afastei da sinagoga, mas carrego o espírito de Rosh Hashaná como sementes, que, pela memória do meu pai e a honra da minha mãe, devo espalhar por onde eu passar.

  

Jayme Pinsky é historiador, professor titular UNICAMP,
diretor Editora "Contexto".

Enviado por Leon M. Mayer







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