Ano 21 - Semana 1.067



 

 










 

 




1º de março, 2018

 Pessach



Jane Bichmacher de Glasman

“No primeiro mês (nissan), aos 14 dias do mês, às vésperas, é Pessah para o Senhor. E aos 15 dias deste mês é a festa dos pães ázimos para o Senhor; por sete dias comereis pães ázimos.”(Lv. 23, 14-15). Assim se lê na Torá (Pentateuco).
O nome Pessah deriva do hebraico passah que significa saltar, passar por cima, e assim se chama esta noite, por ter o Anjo que matou os primogênitos dos egípcios, passado sem se deter pelas casas dos hebreus, que, deste modo, foram poupados. Com efeito, o Senhor pediu aos hebreus uma prova de confiança Nele. Ordenou-lhes que, no 10º dia do mês de nissan, tomassem um carneiro ou cabrito, sacrificassem-no na tarde do 14º dia e aspergissem seu sangue na porta e que comessem a carne à noite. Assim fizeram os israelitas e o Anjo, vendo a porta manchada com o sangue, passou sem se deter.


Significado de Pessah
Pessah comemora a libertação dos judeus do cativeiro no Egito e isto lhe imprimiu um caráter especial: é a celebração da liberdade, a história da mobilização do povo para a conquista da liberdade. Para o povo judeu, recordar o fato de “escapar do Egito”, significa ultrapassar os limites naturais que impedem a realização de seu pleno potencial. O “Egito” de uma pessoa pode ser visível em seu egoísmo, desejos primitivos, vícios. Pessah é uma oportunidade de transcender as limitações e realizar o infinito potencial espiritual em cada aspecto da vida.

A comemoração de Pessah não foi sempre a mesma. Mudou com o passar dos tempos. Mas o essencial na epopeia judaica é a luta incessante pela liberdade. Tudo pode mudar, transformar-se. Mas o cerne e o eixo de tudo é a liberdade. O objetivo principal do Seder é incutir no judeu desde menino, o amor à liberdade em seu sentido pleno.

No princípio, segundo historiadores, as comemorações de Pessah eram uma festa da primavera. Era uma festa agrícola que ampliou seu sentido. “Observa o mês da primavera e guarde o Pessah do Senhor teu Deus pois no mês da primavera o Senhor teu Deus te tirou do Egito à noite”(Dt 16:1).

Desde o século I, após a expulsão dos judeus da sua terra, a comemoração de Pessah passou a ser decisiva, para que o povo não desaparecesse, cultivando a tradição de Pessah como luta pela liberdade (o que justifica, por toda a sua carga simbólica, ter sido mantida pelos Marranos através dos séculos, por exemplo). Quando Rabi Gamaliel instituiu o Seder, ele estava preocupado em manter viva a esperança do povo. Com o tempo foram acrescentadas lendas do povo à grande festa.

O Seder é uma representação de um relato histórico, ao vivo, no seio de cada família, com um narrador, em geral o pai da família, o que se repete todos os anos em cada lar judeu. E na vida moderna urbana, quando os horários e ocupações não combinam, o Seder representa um novo papel. Pelo menos durante 1 semana de reunião, a família repensa grandes temas pelos quais vale a pena lutar, como liberdade e esperança.

As principais mitzvot (preceitos)
Na noite de Pessah, as casas judias devem estar limpas e arrumadas, louças e talheres que foram usados durante o ano são postos de lado e tira-se dos armários o serviço destinado a esta festa. Se a casa não tem dois serviços, todas as panelas que são de uso ordinário são escaldadas, “casherizadas”.
Na ante-véspera, ao por do sol, a dona de casa limpa todo vestígio de pão, massa ou qualquer fermento, e à noite, segue-se o pai na procura do hametz. (Hametz é a designação genérica para toda comida e bebida feita de trigo, cevada, etc, proibidos de se comer em Pessah, pois são levedados). Daí em diante, por 8 dias, ou melhor, por 9, contando a véspera, não entrarão nas casas judias massas fermentadas.
Na véspera de Pessah os primogênitos costumam jejuar em lembrança de terem sido poupados pelo Anjo.
Principais mitzvot: comer matzá; narrar a história do Êxodo ao recitar a Hagadá; explicar os significados dos itens do Seder; beber quatro cálices de vinho tinto doce; recitar o Halel.


O Seder
Nas 2 1ªs noites de Pessah as famílias se reúnem para recitar a Hagadá, ao redor da mesa do Seder. A Hagadá não é somente o conto do êxodo dos judeus do Egito, mas também a encenação simbólica dos feitos históricos e os ensinamentos que deles se depreendem. A palavra Seder quer dizer ordem. Toda ceia de Pessah é ordenada segundo um rito especial.


Preparação da Keará (=bandeja) do Seder
Colocam-se 3 matzot, uma sobre a outra, separadas por um pano,que representam Cohen, Levi e Israel. e arruma-se a keará desta maneira:na fila de cima à direita coloca-se o zeroa; à esquerda –a beitzá. Na segunda fila no centro coloca-se o maror. Na 3ª fila à direita coloca-se o harosset; à esquerda - o karpas. Na fila de baixo no centro coloca-se o hazeret.

A arrumação do Seder

Detalhe

 Pegamos

Em lembrança de

keará uma bandeja grande em que
se pode colocar  todos os
detalhes na ordem correta
 

 

matzot
redondas
3 matzot shemurot  matzot que Israel comeu 
ao sair do Egito   
karpas
cebola cozida
batata ou . comida dos escravos   
. em hebraico=600 mil= 
 no. de judeus saídos do Egito
maror e
hazeret
raiz forte sofrimento dos escravos
harosset mistura de maçãs, nozes
e vinho
barro e tijolos feitos 
pelos escravos hebreus
beitzá ovo duro sacrifício pascal
zeroa asa de galinha tostada
com braço estendido
libertação feita por Deus
4 copos
de vinho
vinho kasher 4 linguagens da liberdade:
tirarei,salvarei,redimirei,libertarei
copo de
Elias
copo grande de vinho esperança de redenção
messiânica

 

 O serviço do Seder inicia com a recitação do kidush sobre o primeiro dos 4 copos de vinho bebidos durante o Seder. Os 4 copos, (vide esquema), lembram as 4 expressões de liberdade e redenção mencionadas na Torá, relativas à libertação do povo judeu do Egito (Êx 6:6,7). Os 4 copos também lembram os 4 méritos que os judeus tinham no exílio egípcio: não trocavam os nomes hebraicos; falavam a língua hebraica; levavam uma vida altamente moral e permaneceram leais uns aos outros.

Continuando o Seder, o condutor após recitar o Kidush, lava as mãos, prova um pedaço de karpás, molhado em água salgada. A seguir, parte a matzá do meio em 2 e esconde uma parte sob o guardanapo (o afikoman). Este ato atrai mais uma vez as crianças que, no final do Seder, deverão procurá-lo e também relembra a divisão do Mar Vermelho. A criança que encontrar receberá um presente. 

A 2ª taça de vinho é enchida e a menor das crianças (que geralmente acaba acompanhada pelos demais) faz as 4 perguntas que começam com:Má nishtaná halaylá hazé mikol haleilot?(por que esta noite é diferente de todas as outras?).
1. Por que mergulhamos karpás em água salgada?
2. Por que comemos matzá?
3. Por que comemos ervas amargas?
4. Por que sentamos reclinados nesta noite?

A resposta inclui uma breve revisão da história, a descrição do sofrimento imposto sobre os judeus, a relação das pragas sobre os egípcios e a enumeração dos milagres realizados pelo Todo Poderoso para a redenção e formação do povo judeu.


Ao recitar as 10 pragas, gotas de vinho são derramadas demonstrando que a alegria, representada pelo vinho, não está completa quando relata o sofrimento dos seres humanos, embora inimigos. Torna-se a encher os copos em seguida.

Logo após a ceia que termina com o afikomán, lê-se a bênção após a refeição (birkat haMazon); termina-se a leitura da Hagadá com o Halel (Louvores). Durante o seder e após, costuma-se cantar canções judaicas tradicionais. Bebe-se o 4º copo de vinho e se deseja: “No próximo ano em Jerusalém”.


É importante lembrar que ao 3º copo de vinho, abrem-se as portas para que entre o profeta Elias, que segundo a tradição, visita as casas judias na noite do Seder. Conta ainda a lenda, que é o profeta Elias que anunciará a vinda do Messias, que reconduzirá o povo à sua terra. A lenda diz que se deve deixar a porta entreaberta para facilitar a entrada do profeta Elias, mas sendo ele tão “milagreiro”, poderoso, a porta fechada seria um problema para ele? O costume tem também outra origem:

Desde a Idade Média até recentemente, o anti-semitismo usava Pessah para uma calúnia terrível contra os judeus. A falsa acusação era que os judeus matavam uma criança cristã para usar seu sangue na fabricação da matzá e beber seu sangue com vinho. Havia gente tão atrasada que acreditava nisso, levando a atos de vandalismo contra judeus.

A porta ficava aberta porque as famílias judias queriam que os vizinhos cristãos pudessem ver a qualquer momento o que os judeus estavam fazendo. Essa calúnia passou à história com o nome de “assassínio ritual”. Mas nem sempre se podia deixar a porta aberta, como nos tempos da Inquisição, quando o Pessah era celebrado na clandestinidade.

A festa de Pessah dura 8 dias. Os 2 primeiros e os 2 últimos são festas solenes; os dias intermediários são chamados Hol-ha-Moêd (semi-festas). Durante os dias do Moêd, todo o trabalho é interditado, tal como no sábado, com exceção de cozinhar e servir-se de fogo. Durante os dias de semi-festa, todo trabalho indispensável é permitido.

Na primeira noite do Seder, há sempre alguns convidados. É dever convidar aqueles que estão tristes, sós, sem família, para que possam celebrar junto a Festa da Liberdade.
         

Do livro A LUZ DA MENORÁ
de Jane Bischmacher de Glasman
Publicado, inicialmente, em abril de 1996, na Revista Rio Total.
 

 


Direção e Editoria
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br