HISTÓRIA E TRADIÇÃO

            
Jane B. Glasman

O Shabat comparado a um palácio 
no reino do tempo

 
O Shabat não é igual a nenhum outro dia da semana e tem um sentido completamente diferente de todos eles.

A tradição judaica atribui esse sentido de “diferente”  ao conceito de  sagrado, e o Shabat é descrito como tal.

“Porque em seis dias fez o Eterno os céus e a terra, o mar, e tudo o que há neles, e repousou no sétimo dia; portanto abençoou o Eterno o dia de Sábado e santificou- o” ( Êxodo 20, 11).

Explicar o conceito de “sagrado” (em hebraico Kadosh) é muito difícil. É possível defini-lo como o contrário da palavra hebraica “chol” que significa não sagrado (dia comum da semana). O conceito de Kadosh pode ser encontrado em várias palavras e contextos, como por exemplo: 

Em relação a lugar: “Eretz hakodesh” (Terra sagrada), “Beit ha mikdash”  (Templo),  “Aron hakodesh (Arca sagrada).

Em relação a povo: “Am kadosh” (Povo sagrado) e em relação a  tempo: Iom   kadosh ( Dia sagrado).

Deve-se olhar o Shabat, que é um dia santificado, como parte integrada de uma visão geral do judaísmo sobre o tempo.

  • O judaísmo é uma religião  do tempo, e começa com a  consagração do mesmo. Para as pessoas que se interessam apenas pelo espaço (material, concreto), o tempo é  visto como  um transcorrer contínuo e indiferente, sempre estável e que de forma cíclica volta sempre para si mesmo sendo todas as suas horas iguais entre si, equivalentes e vazias.

  • O Tanach se preocupa com a questão da passagem do  tempo.  Não existem duas horas iguais, cada hora é única, especial, e preciosa.

  • O judaísmo prescreve que nos contagiemos com a santidade do tempo. O sábado é a nossa possibilidade de concretizá-lo.

  • O Shabat, neste sentido, é para festejar o tempo e não o espaço. Durante seis dias nós vivemos oprimidos pelas coisas relacionadas ao espaço e no sábado, tratamos de  nos ligar à santidade  do tempo.

  • A base do judaísmo pode ser descrita como uma arte que pinta formas no tempo, como a arquitetura.

E assim chegamos ao Shabat como um dia diferente dos demais, elevado e especial.

Para o Rabino e filósofo Abraham Yehoshua Heschel, o Shabat é comparado a um palácio. Quando olhamos para ele de longe, aspiramos chegar perto dele. Existe um Midrash (interpretação das escrituras)  que compara  a semana com um candelabro de sete braços, o sábado é o braço central, a coluna que o sustenta e os dias da semana, domingo, segunda e terça olham para o sábado que passou, e quarta, quinta e sexta olham para o próximo sábado. Assim, o sábado dá sentido para todos os dias da semana.

No “Palácio do Shabat” não existe um só rei, todos somos reis,   nos  vestimos, nos comportamos e  nos sentimos como reis.

Como em muitas lendas sobre castelos, nem toda pessoa pode entrar nele, só entra aquela  que conhece a senha secreta para ingressar. Também o sábado tem uma senha, mas ela é conhecida e se encontra na mão de todas as  pessoas. Podemos dizer  que a senha secreta para ingressar ao Shabat é o acendimento  das velas com sua prece.

Se olhamos de fora o palácio, ele é lindo, mas só entrando nele, e circulando por seus quartos, teremos a possibilidade de vivenciar essa experiência única, especial e conhecê- lo realmente.

Assim é o “palácio do Shabat”, por fora Shabat pode ser semelhante a qualquer dia da semana, simplesmente um dia a mais, mas quando entramos (através de seus rituais especiais)  experimentamos sensações novas e únicas.

Tentando descrever a magia do Shabat, a tradição judaica usa geralmente duas palavras: “Rainha” e “Noiva”.

Bibliografia: Ha Shabat Sheli
Autor : Iudith Forman e Dina Taler
Editora : Tnuá le iahadut mitkademet le Israel
Ano : 1996

   

Colaboração de Jane Bichmacher de Glasman,
professora, escritora, autora do livro À Luz da Menorá

            

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