Ano 9 - Semana 447

 



 

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Celebrando a colheita.

Qual a essência de Shemini Atséret e Simchát Torá?

Qual é o significado de Sucot e como é celebrada?

 

    22 de outubro, 2005
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Alegria e Reflexão Combinam?
Sucot e Shemini Atseret


Jane Bichmacher de Glasman


SUCOT - Acampando!

A Festa das Cabanas ou Tabernáculos, em hebraico Sucot, é parte do ciclo de festividades que começa com Rosh haShaná.

Sucot, prescrita em Levítico 23:33-44 e em Deuteronômio 16:13-15, distingüe-se por dois ritos especiais: a sucá, onde se deve, durante uma semana, morar, fazer as refeições (bem, façamos um guisheft: no mínimo um kidush), para lembrar as moradas dos israelitas acampando no deserto; e o lulav, um feixe formado de uma palma de tamareira (lulav), 3 ramos de mirta (hadás), 2 de salgueiro (aravá) e uma cidra (etrog). Durante as orações matutinas agita-se este feixe, que lembra ser Sucot também a festa da colheita - Hag Assif.

Deve-se começar a construir a Sucá imediatamente após Iom Kipur, para com entusiasmo, começar o ano novo com um ato positivo. (O que, ampliando o sentido, já é no mínimo uma boa sugestão...)

Tempo de Reflexão (Religião e Cabatão)

A festa de Sucot dura sete dias (fora de Israel, oito), dos quais os dois primeiros são festas solenes (em brasileirês = feriados).

O sétimo dia de Sucot, Hoshana Rabá, inclui no serviço sete voltas ao redor da Tevá (altar), como se fazia na época do Templo em Jerusalém, rememorando as sete voltas do povo de Israel em redor das muralhas de Jericó; também poderíamos pensar nas sete bênçãos e voltas ao redor do noivo, no casamento judaico (afinal estamos falando de alegria e reflexão...) Sem dúvidas, o número 7 tem um profundo significado místico, ou pelo menos simbólico, como do mais sério estudioso ao mais convicto cabatão (cabalista+charlatão) sabe.

Por falar em misticismo, este dia é considerado um dos mais sagrados do ano: para os cabalistas (a sério), este é o dia no qual o selo final é colocado no "Livro da Vida", determinando o destino para o próximo ano. Muitas comunidades sefaraditas fazem um Tikun, ou longa noite de estudos, em honra a este dia sagrado (sem dúvida, outra ótima sugestão para começar o ano positivamente).

Outras leituras: unidade na biodiversidade

Por que esperar? Comecemos um repensar desde já...

Quando a Torá diz: "Alegre-se... você, seu filho, sua filha, seus empregados, o levita, o estrangeiro, o órfão e a viúva que estiverem dentro de seus portões", enfatiza o conceito de unidade: pedindo que todo mundo se alegre junto, ensina que a verdadeira alegria só é alcançada quando estamos unidos e nela incluímos os que são menos afortunados, como empregados, estrangeiro, órfão e viúva.

Por outro lado, aprende-se que a unidade se forma a partir da diversidade... Afinal, a piada do judeu náufrago que constrói duas sinagogas: uma é a que ele freqüenta; na outra, ele nem entra, já devia estar no papiro dentro da mão de alguma múmia descoberta...

Um teste judaico de personalidade

As quatro espécies de Sucot são comparadas, num Midrash, simbolicamente, a quatro tipos de pessoas:

· Etrog - tem sabor e aroma - simboliza os conhecedores (da Torá e das mitsvót) e praticantes (de boas ações), ou seja, os que sabem e fazem, unem teoria e prática;

· Lulav - tem sabor mas não tem aroma - simboliza os que conhecem mas não praticam, isto é, quem sabe muito, mas na hora de fazer...;

· Hadas - possui aroma mas não tem sabor - simboliza os que praticam (boas ações) mas não conhecem (Torá nem mitsvót); boas pessoas sem cultura ou conteúdo ;

· Aravá - não possui sabor nem aroma - simboliza os que não conhecem nem praticam – o tipo: não sei, nem quero saber...

Faça um teste, consigo mesmo (e seus amigos): qual é a sua?

Por outro lado, fica reforçada a mensagem da unidade: assim como as quatro espécies, tão diferentes, são sacudidas juntas, representando a unidade na diversidade, deveríamos fazer o mesmo... (na verdade, às vezes precisamos de umas boas sacudidelas para nos lembrarmos disso... é lamentável que elas nos apareçam na História como tragédias ou perigos eminentes, como, por exemplo, a situação atual de Israel e outras, mais pessoais, em que as pessoas acabam se esquecendo de suas diferenças e se unindo frente a um "inimigo comum"...)

Sucá e Diáspora

A razão básica para a sucá (explicitada no primeiro trecho bíblico citado) é a de reviver o mesmo tipo de vivenda passageira em que moraram os judeus ao vagarem através do deserto durante 40 anos. Quando deixamos nossas casas e habitamos durante uma semana na cabana, recordamos também a história do povo judeu.

A sucá simboliza também as perseguições, as diásporas que foram impostas por outros povos através da história judaica. Não lhes deram a possibilidade de habitar em sua casa. Foram coagidos a fugir de um lugar para outro, de um país para outro, de diáspora a diáspora.

Você já tinha pensado nisto?

Sucot e os Sem-Teto

Sucot é um exemplo de como o judaísmo pede mais que pensamentos e verbalizações: requer ação.

Ao se deixar as casas e transferir a vida para a sucá, tem-se a possibilidade de, sentindo na pele, entender (pelo menos um pouco) o que sente quem vive assim, exposto aos elementos naturais. E, sem dúvida, temos uma oportunidade para apreciar mais as bênçãos de Deus, que nos permitiu ter uma casa, um teto. Não seria a hora certa de se pensar nos que não têm? Lembremos que Sucot vem logo após Iom Kipur: rezamos, pedimos perdão a Deus (ao próximo/distante, nem pensar – temos que resolver o assunto com o(a) próprio(a)...), fazemos tsedaká... Que, em hebraico, significa tanto caridade quanto justiça, ou seja, é a chance que temos de restabelecer a justiça social (proposta divina), diminuindo um pouco a injustiça social com a qual convivemos, quase "anestesiados", em Pindorama, onde plantando tudo dá... Não adianta só reclamar dos políticos, dizer que já pagamos impostos... cada um poderia plantar sua sementinha de justiça: se não chega a ser um mar de rosas, despolui um pouco o mar de lama!

Voltando ao tema da alegria e da unidade, poderíamos talvez relacionar às gotas de vinho que tiramos do cálice em Pessah, para lembrar que nossa alegria (representada pelo vinho e pela refeição festiva) não pode ser completa, já que muitos sofreram para que a usufruíssemos... No caso de Pessah, os egípcios; no caso de Sucot, principalmente para nós, brasileiros, ao verificarmos que os sem-teto não são referências metafóricas: são a desolada paisagem humana da realidade... Nos dois casos, um elemento comum: faraó, ministros, presidentes, enfim, políticos em geral, historicamente tomam suas decisões e quem paga a conta, seja a Deus ou ao FMI, é o povo...

ALEGRIA, ALEGRIA: SHEMINI ATSERET

Onde é que entra?

Encerramos esta temporada festiva celebrando Shemini Atseret e Sim’hat Torá. Em Israel, as duas se celebram juntas, num só dia; na diáspora, em dois. Na Torá, Shemini Atseret é chamado de a festa do oitavo dia (Números 29:35); no Talmud, é uma festividade a parte, desconectada dos dias anteriores de Sucot (Sucá 48 a).

O preceito (mitsvá) mais difícil do Judaísmo...

Três vezes a Torá, ao se referir a Sucot, nos manda ficarmos alegres durante a festa. Isto explica por que se chama Sucot de Z'man Sim’hateinu = tempo da nossa alegria.

Ainda que Sucot e Shemini Atseret se festejem juntas, existem diferenças. Enquanto que em Sucot há muitas mitsvot, a única mitsvá de Shemini Atseret é a de regozijar-se, alegrar-se, ficar feliz! Esta é, na minha opinião, o preceito mais difícil de todo o judaísmo.

A maioria das pessoas e correntes religiosas, discutem desde o motivo de certas mitsvót até como praticar (ou não), quem pode, quem deve, como adaptar aos dias de hoje, etc. Mas aqui não se está discutindo filosofia, teologia ou prática religiosa: temos um sentimento, uma emoção a encarar e que envolve atitude interna!

Como cumprir esta mitsvá???

Universalismo e particularidade

Enquanto que em Sucot a celebração tem lugar fora de casa, isto é, na Sucá, Shemini Atseret é festejada em casa, e, assim como em Sucot o aspecto universal da festividade está determinado através da oferenda de 70 cordeiros recordando as nações do mundo, Shemini Atseret só concerne a Israel (oferenda de um só cordeiro). A oferenda de 1 X 70, também nos faz voltar ao tema da unidade na diversidade...

Ecologia

Durante cada um dos dias de Sucot recitam-se preces especiais para que o novo ano traga prosperidade para a terra e saúde aos homens. Hoshá-na (daí o Hosanah cristão)= salva-nos: no sétimo dia da festa, Hoshaná Rabá, agitam-se, durante a oração da manhã, ramos de salgueiros, árvore que cresce à margem dos rios e que simboliza a água que corre em abundância. São renovados os pedidos a Deus que lave as faltas, que ajude no ano que começou. Quando o templo existia celebrava-se a festa da água (Sim’hat Beit Há-Shoevá). Hoje, em Israel, são feitas festas populares e campestres.

Um aspecto particular de Shemini Atseret é a oração por chuva, porque nesta época o mundo é julgado em relação à água. Nas orações se introduz a frase, que será recitada até Pessah: meshiv há-ru’ah u morid há-gueshem (faz com que o vento sopre e a chuva caia). Esta reza dá expressão à natural ansiedade que se sente em Israel durante a estação das chuvas, já que a ausência delas significa fome, sede e enfermidade. Esta oração é feita para o dia final da festividade, para não invocar a chuva justamente quando se necessita de um bom tempo para habitar a Sucá.

Depois de todas estas considerações (ou devaneios) o que você me diz: reflexão e alegria não combinam bem? Afinal, que maior alegria pode haver do que quando encontramos, dentro de nós mesmos a unidade, a integridade? Shalom (hebraico) e Salam (árabe), que todos sabem que significa paz (embora não tenhamos ainda conseguido aprender como fazê-la), significa em sua raiz, inteiro, completo. E se conseguirmos ficar inteiros, podemos encontrar a paz (interior); se conseguíssemos ficar inteiros, unidos na diversidade, não teríamos encontrado a paz? E esta não seria o maior motivo de alegria – o melhor modo de festejarmos zman sim’hatenu?


Jane Bichmacher de Glassman é Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica, Professora, Fundadora e ex-Diretora do Programa de Estudos Judaicos UERJ,
Professora e Coordenadora do Setor de Hebraico UFRJ (aposentada), escritora.

 

 





Direção
IRENE SERRA
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