Ano 21 - Semana 1.067



 

 










 

 




1º de março, 2018



Purim






José Luiz Goldfarb


Havia um Rei, havia uma Rainha... era uma vez o exílio judaico na Babilônia. Estamos na cidade de Shushan. Uma verdadeira New York do antigo oriente. Aliás, em 1993, o Museu Metropolitano de New York dedicou uma sala especial todinha montada sobre a cidade de Shushan. Realmente uma grande cidade. Os arqueólogos e antropólogos trabalharam intensamente a região e podemos redescobrir em detalhe o ambiente cultural e político que lá existiu há mais de 2000 anos atrás. Sabemos cientificamente da grandiosidade desta cidade que chegou a ser a capital política e cultural de um grande império no Oriente.

Foi em Shushan que aconteceram os fatos narrados na Meguila de Ester. Uma história quase inacreditável.

Após a destruição do primeiro templo sagrado, muitos de nossos antepassados viviam em Shushan e espalhados por muitas cidades do Império. Foram os dias do primeiro grande exílio judaico. Podemos imaginar que viviam como em todos os exílios de nosso povo: buscando equilibrar as forças da tradição com as interações com a cultura do povo dominador. Nosso exílio é sempre uma situação difícil. Nossas escrituras não são apenas livros e discussões sobre mandamentos e códicos. São também livros de história, de nossa história. Nesta história milenar, a Terra de Israel ocupa lugar central. No exílio sempre experimentamos os dilemas entre os projetos sonhados em nossa história, incluíndo a volta a Terra de Israel, e a vida imediata nos países, reinos e impérios. Há pela própria natureza da vida no exílio uma situação de tensão.

No contexto relatado na Meguila de Ester surge um ministro poderoso do rei que desencadeia um anti-judaísmo profundo e radical. Acusa nosso povo de querer seguir leis próprias. Caracteriza assim uma ameaça ao Império. Propõe a eliminação dos judeus. Sabemos hoje que há momentos de instabilidades nos impérios e a "solução" de eliminar os judeus surge como uma opção para tiranos reconquistarem a popularidade perdida. Haman, o ministro que odiava os judeus, conquista junto ao rei o decreto de eliminação. A sorte é lançada e fixado o dia da eliminação final. Podemos nós imaginar como nossos antepassados se sentiram? Mordechai rasga suas roupas! O decreto com o selo real é a desgraça absoluta para os filhos de Israel. Mas o sábio Mordechai e a Rainha Ester agiram com astúcia e com sabedoria. Souberam preparar o terreno para defender o seu povo no momento preciso. A Rainha Ester apresenta-se frente a frente ao seu marido, o Rei. Este encontro poderia significar sua própria morte. Somente podiam apresentar-se ao rei, face a face, aqueles convocados para tal. Forçar uma audiência poderia significar a morte imediata. E Mordechai pede a Ester que vá ao Rei e defenda seu povo, os descendentes da Casa de Jacó, os filhos de Israel. O argumento de Mordechai é profundo; ele pede a Ester que não se iluda com a idéia de que sendo ela a própria rainha, sua vida seria obviamente poupada. Mordechai adverte que mais cedo ou mais tarde sua identidade judaica seria descoberta e o dia de sua morte não tardaria. Sabemos que na história das perseguições a nosso povo muitos foram aqueles que não aprenderam com os conselhos de Mordechai, e sendo muito menos que uma Rainha Ester, acreditaram que poderiam ficar livres das perseguições. Posições políticas e econômicas privilegiadas causaram completa ilusão.

Ester age com sabedoria e escuta as palavras iluminadas de Mordechai. Solicita um jejum de seu povo, enche-se de forças e vai ao encontro do Rei... a partir daí a história de Purim é conhecida, nossa sorte é revertida, e o dia de nossa morte coletiva, torna-se um dia de louvor à vida.

Baruch Ha Shem

 

Fonte: Hebraica SP          

 


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