Ano 9 - Semana 435


Artigos desta série:

Breve história do povo judeu - I

Breve história do povo judeu - II

 

30 de julho, 2005
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Marcelo Ghelman
 

Breve História do Povo Judeu
SÍNTESE DA HISTÓRIA JUDAICA 
(3ª Parte)



Em Portugal, os judeus levavam, até então, uma vida relativamente calma, mas como Manual, rei de Portugal, estava em boas relações com Fernando, o católico, do qual iria tornar-se parente, e achando que em seu caráter de monarca absoluto não ficaria mal a política absolutista de seu colega, proibiu aos fugitivos da Espanha a entrada em seu reino. Muitos judeus da Espanha, assim como de Portugal, emigraram para as Índias ou a países mais hospitaleiros como a Itália, Turquia, Holanda, etc.

Na Itália, devido talvez a sua política, como também pela persistência das tradições romanas e certa suavidade de costumes desse país, os judeus não sofreram grandes contrariedades nem tiveram que emigrar. Não tardaram a entrar no comércio e a ter negócios com outros países. Os judeus fugitivos da Espanha e de Portugal acharam acolhida em vários estados italianos; porém também ali a Inquisição acabou imediatamente com a liberdade que tinham e a maior parte daqueles infelizes teve que tomar novamente o caminho do desterro. Foi em Roma que a existência dos judeus sofreu misérias durante a revolução.

Na França, os judeus viveram de uma maneira diferente. na sua maioria comerciantes, havia também entre eles tesoureiros fiscais, marítimos e médicos. Sob a dinastia dos Merovíngios começaram as perseguições. A situação melhorou muito durante o período Carolíngio.

Com os Capetos a vida judia tornou-se insuportável no norte da França. Apesar disto, surgiu um vulto dentro do judaísmo francês da Idade Média - Rashi (rabi Shelomo Itzhaqui) - em torno do qual se agruparam muitos discípulos. Nos fins do século XII os judeus foram expulsos da França, mas continuaram vivendo ali, mesmo sofrendo, até o século XIV.

Melhor era sua situação no sul da França, em Provença. Por isso puderam dedicar-se aos estudos e criaram escolas famosas, cultivando a filologia, a medicina, a filosofia e a poesia. Há notícias de judeus na Provença até fins do século XV. Desde então, até pouco antes da época de Napoleão, não existiu na França o problema judeu, porque não havia judeus.

Na Alemanha estabeleceram-se judeus desde tempos muito antigos. O primeiro documento de uma comunidade judaica na Colônia data do ano 321. Até a época dos últimos Carolíngios sua situação era muito boa. Floresceram escolas em Metz e Maguncia, onde ensinou o célebre rabi Guershon ben Judá, chamado "Luz da Diáspora". Quando começaram as Cruzadas e uma onda de fanatismo se apoderou dos homens, caiu sobre os judeus a espada de Damocles. Comunidades inteiras como as de Espira, Worms, Meguncia e Colônia foram assassinadas. Mais tarde, ao estalar a Epidemia Negra, o cólera (1340-1351), mais de 340 comunidades ficaram quase totalmente exterminadas.

Na Áustria-Hungria, a história do povo judeu apresenta vicissitudes mais complexas que em outras nações. Os reis magiares serviam-se dos judeus como preceptores, tesoureiros e administradores de suas fazendas e de seus investimentos industriais. Mesmo quando a Santa Sé romana interveio várias vezes para impedir estas relações, os soberanos voltaram atrás depois de haver acatado temporariamente as prescrições da cúria romana. os séculos XIV e XV foram nefastos para os judeus austríacos. Durante o tempo em que o cólera açoitou aquelas regiões, os judeus foram expulsos da Hungria e, ainda que os tenham chamado depois, não recobraram jamais seu primitivo prestígio, não puderam mais ter cargos públicos e foram obrigados a usar um capuz como distintivo de sua religião. Em 1386, foram vítimas de ultrajes horrorosos em Praga e outras cidades. A situação moral e material dos judeus da Áustria e Hungria melhorou, todavia, graças aos esforços de Mardoqueu Meisel, o primeiro milionário alemão, e de Lipman Heller, rabino de Viena.

Na Europa oriental, os judeus haviam se estabelecido desde a destruição do primeiro Templo. Na Polônia, eles chegaram por volta do século IX, procedentes da Alemanha e Bohemia. Ali gozavam de uma hospitalidade liberal, crescendo notavelmente a população judaica durante os dois séculos seguintes.

O duque de Kalisz e de Guesen, assim como Casimiro, o Grande, outorgaram-lhes uma liberdade ilimitada no comércio. Os judeus poloneses tinham por inimigos o clero e os negociantes alemães, e, na Ucrânia e na Rússia pequena, além dos já citados, tinham como inimigos os cossacos de rito grego, oprimidos pelos ricos da Polônia, cujos intendentes eram judeus. O judaísmo desapareceu da Ucrânia e, nas outras regiões, sofreu muito em virtude das prolongadas guerras entre russos, suecos e polacos.

Na Criméia e na costa do Mar Negro existiam algumas comunidades antes da era cristã; para lá dirigiram-se muitos, depois da destruição do Templo.

Assim difundiu-se o judaísmo nesses lugares e, devido à sua influência, registrou-se a conversão do rei dos cuzares no ano 740 (D.C.). Muitos judeus do império bizantino foram para lá mas, quando o reino cuzarí foi destruído (969), eles emigraram para a Rússia, onde, até o século XV, parece que levaram uma vida bastante tranqüila.

Na Inglaterra havia judeus desde o século VII (D.C.), mas notícias exatas só há a partir do século XI. Até o século XII a situação foi bastante boa, mas sob o reinado de Ricardo Coração de Leão começou em Londres e noutras localidades uma série de perseguições que se agravaram durante o reinado de João sem Terra. No ano de 1264 houve uma verdadeira matança e, por um decreto do ano de 1290, os judeus foram expulsos da Inglaterra, encontrando refúgio em Flandres, França, Alemanha e Espanha setentrional.

Os judeus da Ásia e da África que viviam nos países muçulmanos puderam gozar de certa tranqüilidade durante um determinado período de tempo. Porém, depois da batalha de Rodas (624), começaram nos territórios muçulmanos graves perseguições. Omar expulsou-os da península arábica, admitindo-os novamente mais tarde.

Do Judaísmo mesopotâmico já falamos.

Sob o domínio árabe, foi muito importante o desenvolvimento do judaísmo egípcio, sobretudo em Fostat, antigo nome do Cairo, capital do Egito.

Também em outras localidades da África setentrional foram-se formando comunidades judaicas muito importantes.

A descrição da situação do judaísmo nos principais estados europeus até fins da Idade Média é suficiente para se ter uma idéia de sua verdadeira orientação político-social.

Os judeus, que sob certos aspectos são considerados como um dos povos que tem vivido mais recolhido dentro de si mesmo e que, apesar das perseguições, conservaram incólume o esotérico de sua doutrina, viveram durante os tempos medievais e uma parte da idade moderna encerrados numa espécie de círculo de ferro chamado gueto.

A Reforma, no que concerne aos judeus, tem sido erroneamente interpretada ao afirmarem alguns autores que ela favoreceu a causa dos judeus. Depois dos dias amargos que os fez passar o fundador do protestantismo, isto foi benéfico para os israelitas, pois ao protestantismo deve-se o ressurgimento da crítica na sua mais ampla acepção. Modificou em parte a psicologia dos povos ao promover um maior interesse pelos estudos bíblicos, contribuindo assim para fazer luz sobre o passado. Sob seu influxo, as lutas foram menos brutais. O próprio Lutero, que não podia subtrair-se à instigação que em seu ânimo exerciam seus companheiros, chegou a sentir uma profunda preocupação pelos judeus e, como já mencionamos, tornou-lhes a vida muito sombria com seus escritos e suas publicações.


Vejamos em continuação como foi a vida dos judeus nessa época de reformas e revoluções





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Direção
IRENE SERRA
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