Ano 9 - Semana 441


Artigos desta série:

Breve história do povo judeu - I

Breve história do povo judeu - II

Breve história do povo judeu - III

 

 

10 de setembro, 2005
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Marcelo Ghelman
 

Breve História do Povo Judeu
SÍNTESE DA HISTÓRIA JUDAICA 
(4ª Parte)



Voltaram à França no século XVI com a anexação da Alsácia e Lorena e com a formação de colônias de "Anussim" (judeus convertidos ao cristianismo à força) na França meridional. A Revolução os encontrou na guarda nacional. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, ao estabelecer o princípio de liberdade religiosa e de igualdade, produziu praticamente a emancipação dos judeus. Napoleão, apoiando este movimento nos anos de 1806-1807, convocou em Paris o grande Sanedrin.

Apesar da ótima situação judeo-francesa e apesar de ter sido a França a primeira a proclamar a liberdade dos judeus, ainda assim não pôde o francês eximir-se do anti-semitismo. Um exemplo disto foi o célebre processo Dreyfus, que comoveu o mundo inteiro e desencadeou, ao terminar, uma verdadeira onda anti-semita. Este episódio teve sua repercussão, nos últimos tempos, manifestada na atitude do governo de Vichy para com os judeus, desde o colapso da França em 1940. Com esta atitude, o marechal Petain quis desforrar-se da afronta que o militarismo francês sofreu com a reabilitação do capitão Dreyfus.

Apesar destas raras convulsões no organismo social da França, os judeus franceses continuaram desenvolvendo sua vida e sua cultura, e sempre o perseguido num mundo inimigo olhou a França como um guia de liberdade e fraternidade. Nos últimos tempos, por exemplo, figuravam no parlamento seis deputados e três senadores judeus. Nas esferas intelectuais francesas contava-se com várias personalidades proeminentes que gozavam de fama positiva. Esta era a situação francesa na época da invasão alemã em 1940.

Na Itália, na idade moderna, aos judeus já residentes ali foram-se agregando muitos exilados da Espanha, Portugal, Alemanha e França. Os da Espanha estabeleceram-se primeiramente na Itália meridional, donde foram expulsos por Carlos V, no ano de 1541; os da França e da Alemanha instalaram-se na Itália setentrional, no Estado pontifício. Até a época da Reforma, as condições de vida foram bem boas, porém, com a contra-reforma, os judeus voltaram a ser atacados.

Julio III proibiu o estudo do Talmud

Os judeus foram encerrados em guetos, excluídos de suas profissões e finalmente, em 1569, expulsos de todas as cidades, menos Roma e Ancona. Em Toscana, Mantua, Ferrara e Veneza a situação foi muito melhor. Na primeira destas cidades, por obra dos judeus e "anusim" imigrados da Espanha, surgiu a comunidade de Liorna.

Estas situações permaneceram quase inalteráveis até a Revolução Francesa. No ano de 1848, começou a emancipação dos judeus em certas localidades e a mesma sorte tiveram os que foram se agregando ao reino da Itália, gozando assim estas comunidades judias de uma das melhores situações na Europa.

Nunca estalou ali um movimento anti-semita e os judeus puderam ocupar posições destacadas tanto no terreno político como no cultural. Muitíssimos foram os professores universitários, os homens de ciência e os políticos. Contudo, também a Itália, desde o ano de 1938, foi envolvida na onda racial anti-semita. Porém, apesar de todas as restrições que os judeus italianos sofreram, a itália representa ainda hoje um oásis de tranqüilidade no inferno nazista, porque o italiano não é anti-semita por natureza e não sabe o que quer dizer ódio ao judeu.

Na Alemanha e na Áustria a época moderna caracteriza-se, no início, por uma grande tranqüilidade para os judeus. Em Hamburgo, no século XVI, os "anusim" puderam constituir uma comunidade importante; e em fins do século XVIII, também na Alemanha, começou o movimento de emancipação conseguida na Áustria nos anos de 1869-70.

Mas o alemão carrega em si, desde séculos, o ódio ao judeu. Nos tempos medievais ele matava em nome da cruz; hoje ele extermina em nome de um mito racial. O fato é que sempre o alemão tem sede de sangue judeu e procura na história uma causa para derramá-lo. E é por isso que, apesar da emancipação, ainda que o judeu alemão haja dado à sua nova pátria o melhor de si mesmo e sua maior glória com homens como Hertzl, Ehrlich, Eistein e Freud, o alemão não pode eximir-se de seu anti-semitismo. A vida judaica na Alemanha e na Áustria nunca teve o alento liberal que se podia respirar na França, na Itália, na Inglaterra e na América. A emancipação foi praticamente uma palavra, nunca um feito; tudo o que está acontecendo na Alemanha desde 1933, e nos países dominados pelos nazis, não é mais que uma conseqüência atávica do ódio profundamente arraigado nos corações teutões.

Na Holanda, depois da expulsão da Espanha, foram-se formando distintas comunidades judaicas, entre as quais celebrizou-se a de Amsterdam. Sua situação ali foi sempre boa, conseguindo-se logo a emancipação. Até a invasão nazista em 1940 continuaram gozando de todos os seus direitos.

Na Inglaterra os judeus foram admitidos novamente por Oliverio Cromwell no ano 1657, graças à intervenção de Menassé Ben Israel. Em 1685, um decreto de Jacobo II declarava livre o culto hebreu e o exercício de suas práticas religiosas. Em 1701, edificava-se em Londres a primeira sinagoga. Os judeus que imigraram para a Inglaterra eram em parte sefaradim procedentes de Espanha e Portugal e em parte ashquenazim procedentes da Alemanha. Também aí a emancipação foi bem acolhida e, desde a segunda metade do século XIX, a Inglaterra é um dos países onde os judeus encontram melhores condições de vida e desenvolvem suas atividades tanto no terreno político como no cultural. Não se deve olvidar qie o insigne ministro inglês Lord Beaconsfield, Benjamim Disraeli, foi judeu, e que o grande químico que salvou a Inglaterra das dificuldades da falta de combustíveis na guerra mundial de 1914-18 foi também juedu, o Dr. Chaim Weizman, que seria mais tarde o primeiro presidente do Estado de Israel.

Na Polônia, nos séculos XVI e XVII, a população judia aumentou notavelmente, chegando a seu máximo esplendor econômico, intelectual e espiritual. O judaísmo sefaradi parecia ter-se apagado na vida difícil do desterro, mas a luz judaica não está destinada a apagar-se. Na Europa oriental e central, os chamados ahsquenazim de Ashquenaz, isto é, Alemanha - recolheram a luz de seus irmãos da Espanha e começaram um importante trabalho intelectual.

Mais aferrados à tradição e à religião, seus movimentos foram mais religiosos que culturais. Por causa das perseguições e dos sofrimentos, difundiu-se entre eles a crença da chegada imediata do Messias. Sabetaí Zevi, aproveitando vantagens momentâneas, entusiasmou, para logo desiludir, as povoações judias da Europa central e oriental.

Quando este pensamento coletivo, que fez brotar uma esperança salvadora, apagou-se, a sonhada época messiânica e o falso Messias tiveram seu fim como conseqüência da falta de lógica do pensamento que os gerou. Começou então outro movimento místico-religioso: o hassidismo. Foi iniciado por Israel Baal Shem Tov; a multidão deu-lhe prosseguimento e quase até nossos dias o hassidismo continuava vivendo entre os judeus da Europa oriental.

Com o século XVII terminou a vida tranqüila dos judeus na Polônia, iniciando-se as perseguições, a matança e a escravidão moral. Sua condição na Polônia e na Rússia, apesar de todas as emancipações, continuou sendo a mais triste de todas; por isso o judeu polonês sempre considerou a emigração como o único meio de salvação. Depois da 1ª Guerra Mundial, a situação aparentemente melhorada em virtude da ação de Pilsudsky foi, na realidade, de inferioridade absoluta, e hoje é muito doloroso falar dos judeus da Polônia, dizimados pelos modernos bárbaros.

Na Rússia, ao modificar-se em 1742 a lei que proibia aos judeus viver em território russo, começou a imigração para lá e em 1804 obtiveram os judeus algumas concessões, sendo porém confinados em determinadas regiões. Em 1840 O Conselho de Estado adotou um processo para melhorar a situação judaica, mas em 1843, imputando aos judeus o exercício de contrabando, obrigaram-nos a residir em cidades distantes 50 verstas da fronteira. Em 1874 foi promulgada a lei de serviço militar obrigatório; mas o anti-semitismo muito difundido produziu os tristemente célebres "progroms", sendo particularmente grave o de Kishinev. Pela melhora relativa em suas condições diárias de vida, os judeus puderam desenvolver sua vida intelectual. Muitos são os homens de letras judeo-russos que enriqueceram nossa literatura com suas obras. Durante a revolução, os judeus obtiveram todos os direitos e o anti-semitismo é considerado pelo governo dos soviets como um grave delito. É claro que a religião foi perseguida, assim como as outras religiões, e o judeu russo não sentiu diferença alguma do russo ortodoxo neste sentido; isto significa que três milhões de judeus estão totalmente isolados do judaísmo.

Na Rumânia, a população judia aumentou muito no século XVII devido às imigrações procedentes da Polônia e da Rússia. A emancipação teve ali muito pouco êxito e, na realidade, a Rumânia é a única nação cristã onde a tolerância religiosa não encontrou guarita.

Persiste ali, de certo modo, a influência da dominação russa, que infiltrou superstições no povo. Ainda que a lei proteja todos os cultos, os israelitas tenham seus templos e um deles, a sinagoga de Bucareste, seja notável como monumento, a multidão atualmente segue a ortodoxia grega. Ultimamente os rumenos encontram no nazismo um impulso para a perseguição aos judeus.

Na Turquia, os judeus expulsos da Espanha foram bem acolhidos e sempre viveram bem ali. As comunidades fundadas em Constantinopla, Esmirna e Salônica floresceram cada vez mais. No século XVII os judeus do império turco tomaram parte no movimento messiânico de Sabetai Zevi. Em geral, a vida dos judeus turcos foi tranqüila e como tal continua até hoje.

Na América, o judaísmo começou com a chegada dos primeiros judeus da Espanha que vieram em companhia de Colombo. Desde então foi aumentando a imigração judaica para as duas Américas. Em 1665 constituiu-se em Nova Iorque a primeira comunidade israelita. Em 1790 a constituição dos Estados Unidos estabeleceu a liberdade de religiões e, mais tarde, em princípios do século XIX, a igualdade de direitos. A imigração da Europa Oriental aumentou depois que o Barão Maurício Hirsch (1831-93) fundou a Jewish Colonization Association (J. C. A.) que estabeleceu colônias na Argentina para os perseguidos da Rússia e da Polônia.

Na realidade, pode-se afirmar que a condição dos judeus em toda a América é atualmente a melhor do mundo.



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Direção
IRENE SERRA
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