Ano 10 - Semana 509


 

 

  30 de dezembro, 2006
---

Jane B. Glasman

B”H
 

Duas datas menos conhecidas, mas significativas no calendário judaico,
coincidindo com o final do ano!

 

8 de Tevet - a primeira tradução da Torá, “aniversário da Septuaginta”:

Septuaginta é o nome da tradução da Torá para o idioma grego, feita no século III AEC. Ela foi encomendada por Ptolomeu II (287 -247 AEC), rei do Egito, para a recém inaugurada Biblioteca de Alexandria. A tradução ficou conhecida como os Setenta ou Septuaginta (palavra latina que significa 70), pois 72 rabinos trabalharam nela, e segundo a lenda a teriam acabado a tradução em 72 dias. A Septuaginta foi usada como base para diversas traduções da Bíblia.

Ainda segundo a lenda, para ter certeza que o trabalho seria fiel ao original, Ptolomeu selecionou e isolou 72 sábios de Jerusalém em diferentes quartos para que não pudessem trocar informações. O Eterno, no entanto, os inspirou, e 72 traduções idênticas foram entregues.

Alguns consideram o 8 de Tevet negativo porque a Torá foi "profanada" ao ser traduzida para um outro idioma. A Cabalá, contudo, entende que este foi o primeiro movimento para que as pessoas fora do judaísmo tivessem acesso a esse conhecimento. É um iom tov ("dia bom"). Nas orações, devemos agradecer a oportunidade de ter acesso à sabedoria contida na Torá e refletir como podemos levar esta luz para outras pessoas.


10 de Tevet – dia de jejum

Este ano, em 2006, 10 de Tevet coincidirá com 31 de dezembro.

Este dia é mencionado no Tanakh como "o décimo jejum" (Zacarias 8:19). Devemos nos abster de comer desde a alvorada até o aparecimento das estrelas. É um dia de jejum e luto para o povo judeu em lembrança ao cerco de Jerusalém pelo exército babilônico há 2500 anos, conforme II Reis 25:1-3. Em 10 de Tevet de 3336 (425 AEC), os exércitos do imperador Nabucodonosor cercaram Jerusalém e, 31 meses depois, em 9 de Av do ano 3338, destruíram o Primeiro Templo. Aparentemente, um cerco não é tão trágico como os eventos pelos quais os outros dias de jejum foram instituídos. Durante o cerco, a cidade permaneceu intacta e o Templo continuou a funcionar. Nabucodonosor não foi o primeiro rei a assediar Jerusalém. San’heriv, rei da Assíria, protagonizou o mesmo antes dele e a ameaça era em escala muito maior. O povo judeu já deveria ter aprendido a lição, e é para isto que existe o jejum de 10 de Tevet; o cerco é positivo se soubermos aproveitar a chance de fortalecer os muros da Jerusalém existente dentro de cada um.

Babilônia, Bavel, em hebraico, deriva da mesma raiz da palavra bilbul (=mistura, confusão). Bavel corresponde ao mundo, onde o sagrado e o profano estão misturados e é difícil diferenciá-los. O rei da Babilônia representa o ietser há-rá, a má inclinação, e Jerusalém, a Divindade. Conservar a nossa Jerusalém interior inviolada é uma tarefa difícil. Vivemos no exílio onde há trevas que fazem com que a confusão esteja presente por toda parte. Como se proteger? A resposta é encontrada no próprio cerco de 10 de Tevet. Não somente não ser afetado pelo cerco, mas levar a batalha até a conquista da Babilônia.

Combatemos neste dia todas as formas de idolatria e abrimos os nossos olhos espirituais para a verdade que se esconde por trás das aparências.

O dia é marcado por jejum e orações na Sinagoga.

O jejum de 10 de tevet, com a tentativa de destruição do judaísmo europeu, alcançou um novo significado. O Rabinato de Israel declarou-o dia permanente de Kadish Geral, em memória dos seis milhões de judeus chacinados no Holocausto, dos quais não conhecemos nem o dia em que foram assassinados nem o local de sepultura. Neste dia acendemos velas pela elevação das almas das vítimas da Shoá, recitamos o Kadish e estudamos Mishnaiot pelo descanso de suas almas.

Após as Amidot de Sha’harit e de Min’há, deve-se abrir o Aron haKodesh, e recitar o Avinu Malkenu.

Apesar do jejum ser obrigatório, o mais importante não é que não comemos ou bebemos. Nossos sábios dizem que se uma pessoa não bebeu nem comeu, porém não refletiu sobre seus atos atuais nem pelo motivo do jejum, deixou o principal de lado. Está escrito que toda a geração em que o Templo não é reconstruído, é como se tivesse sido destruído naquela geração. Se hoje não temos ainda um Beit Hamikdash, significa que nossos atos e comportamento como povo não é diferente da época de sua destruição. As causas principais da destruição, ódio gratuito e abandono dos valores da Torá infelizmente ainda perduram. O jejum tem que nos levar a refletir sobre esses fatos para haver uma mudança em nossos atos. Que os dias de jejum e tristeza se transformem, pela bondade de D’us e mérito de nossos atos, em dias de festa e júbilo nacional.

 

Jane Bichmacher de Glasman,
professora da UERJ e ISTARJ, escritora


Seu artigo será bem recebido em comunidade-judaica@riototal.com.br





Direção e Editoria
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br