Ano 11 - Semana 540

 


 

 

   04 de agosto, 2007
---

Jane Bichmacher de Glasman

             
DANDO UM TEMPO... [1]         



Introdução: judaísmo e tempo atemporal

Parafraseando a analogia do Salmo 90: "Mil anos a teus olhos são como o dia de ontem", a história de um povo corresponde a um instante na eternidade do mundo. Apesar do relato histórico do povo judeu apresentar sentido tão cósmico, nossa milenar continuidade cultural-religiosa talvez seja a mais extensa que qualquer grupo étnico-religioso tenha alcançado.

Para o judeu consciente de sua história, o passado parece tão real quanto o presente, concebidos como intrinsecamente ligado um ao outro, dotados do mesmo propósito moral.

No sentido espiritual, o tempo conservou-se atemporal! Depois das concepções sobre Messias, Ressurreição, Juízo Final, terem firmado raízes no solo parcialmente místico da crença judaica no período pós-bíblico, também o futuro ligou-se ao passado e ao presente, ficando sintetizados numa certeza histórica indivisível: para o povo de Israel, a vida assume um objetivo grandioso bem delineado, como a planta de um projeto arquitetônico.

Poder-se-ia concluir que, ao aprender presumidas "verdades absolutas", a religião judaica estivesse condenada a um estado de permanente imobilidade e estagnação. Na realidade, ao mesmo tempo em que o povo apegava-se às principais doutrinas, princípios, atitudes e práticas tradicionais, a evolução histórica era contínua, ajustando-se às novas circunstâncias, às influências culturais do ambiente em geral e do espírito da época; em fase alguma da história judaica a religião permaneceu estática.


Tempo e simbologia


O tempo é freqüentemente simbolizado pela Rosácea, pela Roda com seu movimento giratório pelos doze signos do Zodíaco, descrevendo o ciclo da vida, em suma, por figuras circulares. O centro do círculo seria o aspecto imóvel do ser, o eixo que possibilita o movimento dos seres, embora se oponha a este como a eternidade opõe-se ao tempo, que explica a definição agostiniana do tempo: imagem móvel da imóvel eternidade. Todo movimento toma forma circular que se inscreve em uma curva evolutiva entre um começo e um fim e cai sob a possibilidade de uma medida: a do tempo. Para tentar exorcizar a angústia e o efêmero, a relojoaria moderna, inconscientemente, deu uma forma quadrada ao relógio, simbolizando a ilusão humana de poder escapar à roda inexorável e de dominar a terra, impondo-lhe a sua medida. O quadrado simboliza o espaço, a terra, a matéria. Essa passagem simbólica do temporal ao espacial não chega a suprimir a rotação em um sentido ou outro, mas oculta o efêmero para indicar tão somente o instante presente no espaço.

O tempo simboliza um limite na duração e a distinção do mundo do Além, da eternidade. O tempo humano é finito e o tempo divino infinito, ou melhor, é a negação do tempo, o ilimitado. Portanto, não há entre eles nenhuma medida comum possível.


Erev, Shabat, Rosh há Shaná – tempo judaico e descanso.

É interessante observar que todo marcador temporal judaico é iniciado pelo descanso. O relato bíblico da Criação: “Vaiehi erev vaiehi boker” (anoiteceu e amanheceu) determinou o início dos dias, na erev (véspera, tarde, anoitecer): o dia começa com o descanso da noite. Isto gerou também o “efeito Orloff”: em hebraico, hoje à noite é amanhã!
Os meses e os anos do calendário judaico são determinados pelos ciclos da lua e do sol. Os meses seguem o ciclo lunar, do Molad (nascimento, lua nova) até o novilúnio seguinte.

A tradição judaica reconhece numerosas afinidades entre a lua e Israel. Assim como o Sol representa a potência material reconhecida por todos, a Lua, brilho tênue no reino da noite, representa Israel, humilhada entre as nações na noite do exílio. A influência discreta da lua simboliza o caminhar das idéias do judaísmo. Outro exemplo: o desaparecimento e depois reaparição da lua representam a eternidade de Israel, apesar das vicissitudes.

Rosh haShaná, o ano novo judaico desde o período talmúdico, corresponde ao período (no hemisfério norte) do fim do ciclo agrícola anual – o tempo do descanso da terra, para que se reinicie revigorado. E a semana judaica também pressupõe um “tempo” para descanso, uma pausa, para que se inicie a seguinte com um novo vigor, físico e espiritual.
Para concluir, outra estorieta da Guemará: Porque foi o homem criado no sexto dia? Para ensinar que se um dia ele for muito soberbo, lhe seja relembrado: “A pulga veio antes de você na criação. (Sanhedrin, 38 a) Ou seja, ao mesmo tempo em que o Shabat dá ao homem sua exata dimensão, ensina-lhe a repensar a dimensão do tempo...”
 


Jane Bichmacher de Glasman é Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica-USP, Professora, Fundadora e ex-Diretora do Programa de Estudos Judaicos UERJ


 


Seu artigo será bem recebido em comunidade-judaica@riototal.com.br


Direção
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br