Ano 12 - Semana 561

 


  14 de novembro, 2009
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60 Anos de Operação Tapete Mágico


Jane Bischmacher de Glasman


Os judeus do Iêmen (em hebraico תּימָן “sul distante") pertencem ao grupo étnico-cultural judaico denominado Mizrahi. Eles adotaram um nome próprio, o que reflete sua história e identidade diferentes das dos judeus de outros países árabes – Iemenitas (em hebraico Teimanim, תֵּימָנִים).

Eles têm várias lendas relacionadas com a sua chegada ao país:

1. A comunidade existe desde os tempos do Rei Salomão, ao ter enviado mercadores para buscar ouro e prata para decorar o Templo Sagrado.

2. Artesãos judeus chegaram ao Iêmen a pedidos da rainha de Sabá.

3. Quando Esdras conclamou os judeus a voltarem para Jerusalém, eles desobedeceram. O escriba teria, então, banido eles, amaldiçoando-os a serem pobres (e por estas ações teria perdido o direito de ser enterrado em Israel). De acordo com a lenda, nenhum judeu iemenita põe o nome de Ezra em seu filho. Hoje rejeitam esta estória como mito ou blasfêmia.

4. Quando o profeta Jeremias anunciou a destruição do Primeiro Templo, um grupo de judeus ricos deixou Jerusalém, estabelecendo-se no Iêmen.

5. Eles seriam descendentes de judeus de uma brigada enviada antes da destruição do Segundo Templo pelo rei Herodes para ajudar as tropas romanas que lutavam na região.

No entanto, a primeira evidência histórica da presença de judeus no Iêmen data do século III.

Por volta do ano 400, o rei Abu Kariba Assad converteu-se ao judaísmo e espalhou a fé judaica por seus domínios. Como religião dominante, os judeus prosperaram e se multiplicaram. Em 525 EC, o reino cristão de Axum (parte da Etiópia e da Eritréia) conquistou a região do Iêmen, impondo seu domínio.

No século VII, com a expansão islâmica na península arábica e a unificação dos povos sobre a religião maometana, os judeus passaram a ser regidos pelo estatuto da dhimmis, que os relegava a cidadãos de segunda classe, mas os protegia conquanto pagassem um imposto, por serem um dos ‘povos do livro’. Como houve pouco contato com outras comunidades durante o período, os teimanim começaram a absorver a cultura árabe.

Quando o sultão Saladino assumiu o poder, no fim do século XII, a população judaica do Iêmen foi perseguida e houve tentativas de conversão forçada. Um falso messias apareceu; um profeta judeu passou a pregar uma nova religião que fundia judaísmo e islamismo, aproveitando o caos reinante na comunidade israelita. Um iemenita escreveu a Maimônides pedindo ajuda, que respondeu com a Igueret Teiman (Epístola do Iêmen).

Ela explicava o ódio e a perseguição aos judeus, falava dos 13 princípios de fé, dos atributos de D’us, da vinda do Messias e dos judeus como Povo Escolhido. Tornou-se um dos textos mais importantes daquela comunidade, pelo seu conteúdo doutrinário, força, consolo e apoio que transmitiu aos iemenitas naquele momento difícil. Maimônides teria conseguido mesmo intervir diretamente junto a Saladino, o qual teria, em consequência, posto fim às perseguições. Em gratidão, Maimônides passou a ser citado no Kadish iemenita.
Em 1948, quando foi criado o Estado de Israel, havia 55.000 judeus no Iêmen, além de 8.000 em Aden[1].

Um ano antes, quando foi aprovada a partilha da Palestina, população muçulmana local, com o apoio da polícia,  realizaram um pogrom que deixou 82 judeus mortos e destruiu centenas de casas e lojas. A situação se complicou no início de 1948, com a falsa acusação de morte ritual de duas meninas, gerando nova explosão de violência.
 

O aumento das agressões e do perigo levou Israel a agir diretamente, lançando a Operação simbolicamente denominada de "Tapete Mágico", que transportou, em vôos secretos, a maior parte dos 50 mil judeus do Iêmen para o recém-criado Estado, entre junho de 1949 e setembro de 1950.

O nome oficial da operação era ‘Operação nas Asas de Águias’, retirado de dois versículos bíblicos: "Vocês mesmos viram o que eu fiz no Egito, e como eu os carreguei em asas de águias e os trouxe até mim." (Êxodo 19:1)

"Mas aqueles que têm esperança no Senhor terão renovada sua força. Eles voarão em asas, como águias; correrão e não se cansarão, caminharão e não se fatigarão." (Isaías 40: 31)

47 mil iemenitas, 1500 judeus de Aden e 500 do Djibuti e da Eritréia fizeram aliá. Como eles eram muito pobres e a maioria nunca tinha visto ou sabia o que era um avião, eles tinham muito medo de entrar nele. Seu rabino teve que citar os versículos (que profetizavam o salvamento dos filhos de Israel) para convencê-los a entrar no avião.

28 pilotos realizaram 380 vôos perigosos, inclusive sobre território inimigo, como o Egito. Os aviões decolavam da base em Asmara na Eritréia, iam até Aden, levavam os judeus até Israel e depois passavam a noite no Chipre. Um dos maiores problemas era a falta de combustível. Não houve nenhuma perda de vida.

 

Jane Bichmacher de Glasman, Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica - USP,
Professora, Fundadora e ex-Diretora do Programa de Estudos Judaicos UERJ
e do Setor de Hebraico UFRJ (aposentada), escritora
 





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