Ano 13 - Semana 685

 

 

     22 de maio, 2010
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Dia da Família e das Mães em Israel
Sobre Mães e Matriarcas [1]        


Jane Bichmacher de Glasman


Nos diferentes países do mundo, a comemoração do Dia das Mães é feita em dias diferentes. Na Noruega é no segundo domingo de fevereiro; na África do Sul e em Portugal, no primeiro domingo de maio; na Suécia, no quarto domingo de maio; no México é uma data fixa, dia 10 de maio. Na Tailândia, no dia 12 de agosto, em comemoração ao aniversário da rainha. No Brasil, assim como nos Estados Unidos, Japão, Turquia e Itália, a data é comemorada no segundo domingo de maio. Aqui a data foi instituída pela ACM em maio de 1918 e oficializada por Getúlio Vargas em 1932.

Em Israel não existe um dia próprio para as mães, mas sim um para a família. É celebrado no aniversário de Henrietta Szold, pelo calendário hebraico no 30º dia do mês de Shvat.

Henrietta Szold (1860-1945) foi a primeira presidente da organização Hadassa de mulheres judias. Embora tenha nascido em Baltimore, Maryland, passou os últimos 25 anos de sua vida vivendo e trabalhando na Palestina. Foi a primeira diretora da Agência de Aliah para a Juventude na década de 30 e responsável por trazer 30.000 crianças judias da Europa nazista para Israel. Ela as via como “os seus filhos” e esta é uma das razões principais para o Dia da Família ser celebrado em Israel no seu aniversário.

Embora possa ser politicamente correto chamar este dia como da Família, presentes só são dados à mãe. Em espírito é ainda o Dia das Mães. Nele, em Israel, pais e filhos dão a elas flores e presentes e as liberam do serviço doméstico. Escolas judaicas desenvolvem programas que glorificam o papel da mãe em Israel e no Judaísmo. Há quem use no dia um pequeno cravo branco, símbolo da pureza do amor maternal.

Em tempos bíblicos, a mãe ocupava um lugar de honra e autoridade na família. O interesse no bem-estar da mãe era julgado pelos líderes como uma medida de bom governo e de uma sociedade saudável. A influência de mães famosas na tradição bíblica é significativa.

Olhando, por exemplo, para a vida da primeira mulher judia, Sara, na Parashá que tem o seu nome, lê-se que Deus disse a Abraão: “Tudo o que Sara lhe disser, escute a voz dela” (Gn 21:12), gerando uma concepção extraordinariamente diferente sobre a mulher: não a da idealização romântica, mas a da reciprocidade.

As mulheres que chamamos nossas Matriarcas não são meramente mães, assim como os Patriarcas não são apenas pais. Costumamos pensar em mães como pessoas absorvidas com os problemas da criação dos filhos. Contudo, três delas experimentaram longos períodos de esterilidade, e apenas uma, Léa, teve mais de dois filhos.

A idéia de maternidade no judaísmo é a essência da feminilidade, o lado feminino do nosso ser. Não implica, apenas, o fato físico de tornar-se mãe e criar uma criança, embora, para a maioria das mulheres, esta experiência seja uma significativa abertura espiritual. A maternidade representa uma intensa e profunda conexão com o futuro, com os atos e circunstâncias do momento e seus efeitos no desenvolvimento das futuras gerações. Assim como a mãe é ligada a seus filhos, física e emocionalmente, na tradição judaica, a mãe é uma pessoa profundamente envolvida, no seu íntimo, com aqueles que virão depois.

A profecia é ligada à preocupação da mulher em relação ao futuro: ela precisa ser capaz de enxergar hoje o que acontecerá amanhã. Não meramente numa relação de causa e efeito, como ditaria a lógica masculina, mas como uma Gestalt, compreendida ou sentida. Isto se relaciona ao que chamamos “intuição feminina”, um conhecimento interior ou habilidade de ver e entender uma situação, e chegar ao seu reconhecimento integral.

Esses dois aspectos das Matriarcas estão ligados a um terceiro: seu ativo exercício do poder na família. Elas usaram sua influência e poder para dirigir internamente a vida familiar segundo a sua melhor visão profética. Tomaram decisões agudas e difíceis, mesmo quando significavam enfrentar um conflito ou uma separação do marido ou do filho.

Enquanto as histórias sobre Sara e Rebeca relatam os eventos significativos e as decisões que focalizam suas preocupações pelo destino de suas famílias, Raquel e Léa são descritas como rivais em seu relacionamento com o marido - a mãe enfrentando as questões que surgem por ser esposa e mulher. Raquel e Léa representam a duplicidade que existe em todos nós e, em sua rivalidade, apontam para o conflito que surge nas diferentes opções mundanas e da dimensão eterna da nossa alma. Assim, as Matriarcas indicam aspectos da modernidade bem distantes do que normalmente imaginamos quando usamos a palavra mãe. O seu papel não foi apenas o de dar à luz. Igualmente significativa é a maneira pela qual simbolizam várias etapas em nossas vidas. Elas representam o poder da nossa criatividade que olha em direção ao futuro. Elas não apenas amavam e se preocupavam com o que provinha delas próprias, eram também sensíveis às sutis nuances da vida, que fazem a diferença entre uma verdadeira evolução espiritual.

Sara trouxe a risada para a nossa vida religiosa na simultânea e universal afirmação de fé, surpresa e alegria. Rebeca nos mostra uma assombrosa força e convicção e, como Sara, uma voz de comando. Léa traz conforto. A partir dela, aprendemos a transcender a vida e conquistar a eternidade, ao agradecermos e louvarmos a D’us que provê todas as nossas necessidades. Raquel, com sua morte ao dar à luz, preserva em nós a imortal fé de que nossos anseios mais profundos neste mundo serão realizados. Com ela aprendemos que todo o nosso pranto pelos nossos filhos, pelos nossos queridos, pela vida em si, não será em vão: ainda voltaremos para casa, ainda haverá paz. De todas as nossas Matriarcas recebemos a dádiva de uma dimensão feminina profundamente vivida com força e paixão. Recebemos as bases do nosso passado e também uma orientação para o futuro.


[1] Trechos sobre as Matriarcas adaptados da tese de doutorado da autora:
De Rachel a Rachel – Mulher, Amor e Morte.



Jane Glassman é  Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica,
Professora Adjunta, Fundadora e ex-Diretora do Programa
de Estudos Judaicos – UERJ, escritora.

 

 



Direção e Editoria - Irene Serra