Ano 18 - Semana 930

 

 

       1º de abril, 2015
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A história secreta do chocolate e os judeus sefaradim
    

Jane Bishmacher de Glasman

A expansão do uso de chocolate para além da América do Sul e Central e da Península Ibérica começou no século XVI com a expulsão dos judeus de Espanha e Portugal.
Mas, voltemos no tempo...

Origem
A história do chocolate remonta a cerca de 600 a.C.; os Olmecas, que habitavam nas terras baixas do Golfo do México, foram os primeiros a aproveitar o fruto do cacaueiro.

cultura olmeca códice precolombiano

No códice precolombino (ao centro) pode se ver um exemplar de Theobroma cacao.


Registros históricos mostram que grãos de cacau eram colhidos pelos maias, na península de Yucatán, no sul do México, e usada para fazer uma bebida picante, em cerca de 400 d.C. Com o cacau faziam um líquido escuro que chamavam de xocoatl (do náuatle xococ "amargo" + atl "água") geralmente temperado com baunilha e pimenta.

De lá, os grãos foram negociados para os astecas, mais ao norte do México, que consideravam o chocolate a bebida dos deuses.

caneca

Chefe Maia proibindo uma pessoa de tocar numa jarra de chocolate

Maias coletando cacau

xocoatl

Os Olmecas foram uma antiga cultura pré-colombiana da Mesoamérica que se desenvolveu nas regiões tropicais do centro-sul do atual México, aproximadamente onde hoje se localizam os estados mexicanos de Veracruz e Tabasco, no Istmo de Tehuantepec, numa zona designada área nuclear olmeca. A cultura olmeca floresceu nesta região aproximadamente entre 1500 e 400 a.C., e crê-se que tenha sido a civilização-mãe de todas as civilizações mesoamericanas que se desenvolveram posteriormente.

Em novembro de 2007, arqueólogos encontraram vestígios de uma plantação de cacau datada de 1100 a 1400 a.C., em Puerto Escondido, Honduras. Pelo tipo de recipiente encontrado e pela análise de seu conteúdo, concluiu-se que produzia-se uma bebida alcoólica pela fermentação dos açúcares contidos na polpa que envolve os grãos
 


Astecas oferecendo chocolate ao deus Vitzilipuztli
 

Nesta época o cacau era usado como uma bebida, geralmente acrescida de condimentos. Era ingerida pelos sacerdotes em rituais religiosos.

Astecas e Xocoatl Maias


Na época, as sementes de cacau, de tão valorizadas, viraram moeda corrente.

Eram usadas como meio de troca a referencial de valor



Descoberta da América... e do chocolate

Historicamente, foi Cristovão Colombo quem descobriu o cacau para a Europa, em sua quarta viagem ao Novo Mundo, em 1502. Teria levado sementes de cacau para o rei Fernando II, que passaram quase despercebidas no meio das outras riquezas que trouxe.

Esse é o ponto em que o chocolate começou a se espalhar para outros lugares do mundo. O conquistador espanhol Hernan Cortez atacou os Astecas em cerca de 1520 e trouxe na volta à Espanha a bebida que até então era desconhecida para a civilização ocidental.


Inquisição e chocolate

Os espanhóis consideravam chocolate uma bebida elegante reservada para a realeza, os ricos e o clero. Mantiveram o método de processamento do grão em segredo de outras nações. Mas quando os judeus foram expulsos da Espanha e de Portugal no século XVI, alguns deles trouxeram consigo os segredos do processamento do chocolate.

A Inquisição espanhola foi uma das mais mortais da história. Seu reino de terror durou até o início do século XIX. Seus tribunais julgavam os acusados de heresia - a maioria, judeus conversos ao catolicismo ou cristãos-novos. Os culpados eram mortos publicamente ou presos, submetidos a terríveis torturas.

Grande número de conversos praticava o judaísmo em segredo - os marranos ou criptojudeus. Após a instalação do Santo Ofício em Portugal, em 1536, assistiu-se a uma nova onda de saída de cristãos-novos para outras paragens. A França foi um desses destinos, tornando-se refúgio para muitas famílias portuguesas, que trouxeram a fabricação de
chocolate com eles. Cidades como Marselha, Toulouse, Rouen, Nantes e Paris, mas, sobretudo Bayonne e Bordéus, receberam centenas de judeus portugueses, originando que a partir de 1698, surgisse a expressão “nação judaica ou portuguesa”. Muitos se assentaram nas proximidades de St. Esprit, ao longo do rio Adour, em Biarritz. Essa foi a região em que a produção de cacau começou na França. Comerciantes judeus foram os responsáveis pelo início da indústria do chocolate na França - e na ajuda a difundi-lo para o resto do mundo.

Muitos judeus expulsos de Portugal vieram para a América do Sul e Central. Havia também os judeus que vieram com os holandeses, que dominaram o Nordeste brasileiro por um breve período de tolerância, tendo sido expulsos pelos portugueses em meados de 1600, dos quais parte foi para o Caribe e um grupo para a América do Norte.

Os índios tinham seu próprio sistema de processamento de cacau, mas mantiveram o segredo dos europeus. Mas os índios gostavam e confiavam nos judeus, e partilharam o segredo com eles. O cacau e a baunilha ainda não eram bem conhecidos na Europa, e os comerciantes judeus na América do Sul começaram a exportar esses produtos para outros judeus em Amsterdã, Hamburgo, Bordéus e Bayonne.


 

Um sefaradi brasileiro e o chocolate francês

O pioneiro do cultivo e processamento de chocolate no Brasil foi Benjamin d'Acosta de Andrade, um criptojudeu português. Nascido converso em Portugal, ele retornou ao judaísmo no Brasil. Quando os portugueses retomaram o país dos holandeses, ele se mudou com um grupo de judeus para a ilha de Martinica, nas Antilhas Francesas, em 1654, e estabeleceu a primeira fábrica de processamento de cacau em território francês. Ele modernizou o processo e começou a fazer pílulas de chocolate. O chocolate não vendeu muito bem no início, mas o comércio cresceu e em 1684 mais fábricas de processamento, a maioria de propriedade de judeus, foram inauguradas em Martinica. Se não fosse Benjamin d'Acosta de Andrade, o chocolate poderia nunca ter se tornado tão popular.

Na Inglaterra, a primeira chocolataria foi inaugurada em Londres, em 1657. Em 1689, na Jamaica, o famoso médico e colecionador Hans Sloane desenvolveu uma bebida à base de leite com chocolate que foi inicialmente usada por boticários, mas mais tarde vendida para os irmãos Cadbury.
 


Como a indústria do chocolate cresceu ao longo dos anos, muitos judeus eram líderes no campo. Um deles foi Aaron Lopez, um comerciante influente que se tornou o primeiro judeu a ser naturalizado no que era então a colônia britânica de Massachussets. Outro comerciante judeu na década de 1790 foi Levy Solomons de Albany, NY, cuja fábrica proveu sua clientela holandesa com chocolate para bebidas quentes.

Nomes de judeus têm se espalhado por toda a história do chocolate desde então até agora. Por exemplo, a famosa Sachertorte da Áustria, um bolo esponja de chocolate, foi inventado por um menino judeu de 16 anos chamado Franz Sacher. Em 1938, o chocolatier vienense Stephen Klein se mudou para Nova York e redefiniu o mercado de chocolate kasher, fundando a Barton, que ficou conhecida por dar emprego a muitos refugiados judeus da Alemanha. Uma nova geração de chocolatiers hoje em Israel divulga a sua cultura do chocolate no mundo inteiro.

Outros famosos chocolatiers americanos judeus foram Robert Steinberg e John Scharffenberger, co-fundadores da Scharffen Berger Chocolate na Califórnia em meados dos anos 1990. E um dos nomes notáveis na preparação do chocolate é Alice Medrich (nascida Abrams), que fundou as famosas lojas Cocolat no norte da Califórnia.


Há claramente uma ligação entre judeus e chocolate. Ele pode ser visto em pratos festivos que são populares nas festas, como bolos de chocolate de Pessach. E, claro, há matzoth, latkes, blintzes e mandelbrot – todos de chocolate, e o doce mais “valioso” de todos - Hanukah gelt, moedas de chocolate cobertas de alumínio que são distribuídas para crianças na festa.


Um novo “ovo de Colombo” para adoçar sua festa!
 

Jane Glassman é  Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica,
Professora Adjunta, fundou e coordenou o Setor de Hebraico da UERJ e da UFRJ,
o Programa de Estudos Judaicos – UERJ, escritora.
Publicado, originalmente, em abril de 2011.

 

 

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Direção e Editoria - Irene Serra