PERSONALIDADES

         
Kirk Douglas

O retorno ao judaísmo
         

Aos 74 anos, Kirk Douglas reencontrou o judaísmo, uma nova espiritualidade e um novo propósito para a vida. Esta descoberta enriqueceu seu relacionamento com seus filhos, ensinou-lhe a ouvir os outros e, acima de tudo, a ouvir sua voz interior.

Seu nome, Kirk Douglas, sempre despertou o interesse de todos. Famoso no mundo cinematográfico, raros são aqueles que nunca ouviram falar dele.

O sobrenome "Douglas" tornou-se ainda mais conhecido através do filho Michael. Mas, na opinião geral, o verdadeiro e lendário Douglas será sempre o pai, Kirk.

Em seu livro "Climing the Mountain: my search for meaning" (Escalando a montanha: minha procura por um significado), publicado em 1997, Kirk relata seu retorno às suas raízes: o judaísmo e o estudo da Torá.

Quando em 1991, com 74 anos, Kirk sobreviveu a um acidente de helicóptero, no qual outros dois rapazes morreram, começou a se questionar. O choque provocou uma compressão de oito centímetros em sua coluna e, durante o tempo em que esteve hospitalizado, passou a meditar sobre o verdadeiro sentido da vida.

Apenas recentemente foi divulgado que Douglas é judeu. De fato este veterano do cinema, que atuou em mais de 80 filmes, nasceu com o nome de Issur Danilovitch. Filho de imigrantes russos, pobres e analfabetos, tornou-se lutador de boxe no colégio, com o nome de Isadore Demsky (Izzy), para mais tarde tornar-se o astro de cinema Kirk Douglas.

É com certa amargura que ele se lembra se sua infância, ao lado de seis irmãs e um pai irresponsável, sentindo falta do carinho de uma família. Por isso, sempre procurou educar seus filhos de modo diferente, cercando-os de muito amor e carinho. Invejava as outras crianças que tinham avós e perguntava-se sempre: "Quem são meus ancestrais?"

O ator sempre foi consciente de sua identidade judaica. Cresceu num lar ortodoxo e, com 12 anos, cogitaram mandá-lo a uma yeshivá. Mas o jovem Issur recusou, informando a todos que pretendia ser astro de cinema.

Em sua autobiografia "The Ragman's Son" (O filho de vendedor de trapos), um best-seller, Kirk Douglas descreve como apanhava de anti-semitas, quando jovem. Ao ingressar na universidade Saint Lawrence, ao norte do estado de New York, apesar de ser capitão no jogo de futebol americano e o mais popular presidente da associação dos estudantes, fazia-se passar por "meio-judeu", com medo de assumir sua identidade judaica. Algum tempo depois, quando já era famoso, ainda escutava ofensas anti-semitas vindas de pessoas que ignoravam suas origens. Atuou várias vezes no papel de judeu, principalmente nos três filmes que realizou em Israel: The Juggler (O Malabarista), em 1953, Remembrance of Love (Lembranças de Amor), em 1982 onde representava um sobrevivente da Shoá, e Cast a Giant Shadow (Uma sombra gigante), de 1966, que narra a vida do coronel David (Mickey) Marcus, judeu americano, herói da guerra da independência. "Tais filmes tratam das dificuldades de assumir a identidade judaica", escreveu Douglas. "Também retratam a história da minha vida".

Após o acidente no qual quase perdeu a vida, Kirk passou a se perguntar: "Por que seria que aqueles dois jovens que tinham uma vida inteira pela frente tiveram que morrer e eu, que já tinha uma idade avançada, havia sobrevivido?" Esta dúvida e o longo tempo em recuperação com dores atrozes levaram-no a procurar suas raízes e fazer um tipo de análise interior, procurando um significado para sua vida e seu relacionamento com D'us.

Certo dia, ainda na cama, o sol do amanhecer iluminou as suas gravuras de Chagall penduradas na parede do quarto. Olhava distraidamente para estas gravuras e, de repente, ele as notou. Foi a primeira vez que as olhou de outra forma, e realmente, as enxergou. "Meu D'us, aí estavam meus ancestrais, remontam a milhares de anos e são mais famosos que atores de cinema".

Chagall captou-os perfeitamente: Abraham abençoando Isaac, Rebeca com seu favorito, Jacob. Moisés, envolto em uma luz dourada, com as tábuas da Lei no Sinai. Percebeu que estes eram seus ancestrais porque ele era um judeu. Este era um papel desconfortável para ele que havia decidido, aos 14 anos, afastar-se do judaísmo devido ao medo que os ataques e ofensas anti-semitas lhe transmitiram. Mas, agora, sentia necessidade de procurar sua identidade judaica.

Perguntava-se: "Para onde estou indo? Qual o significado da vida? Por que estamos aqui? Quem é D'us? Acho, que a verdadeira razão pela qual sobrevivi foi porque não havia ainda descoberto o que significava ser judeu...". Em sua opinião, o acidente não lhe trouxe uma nova filosofia religiosa, no entanto, fez aflorar sentimentos e emoções latentes.

Em setembro de 1994 foi a Israel e lá continuou a se reencontrar. Conheceu o Rabi David Aaron do Isralight Institute, em Jerusalém, e, conversando com ele, disse-lhe repentinamente que não era um grande judeu pois desde os 14 anos havia se afastado do judaísmo.

A resposta do rabino deixou-o boquiaberto. Disse-lhe que nenhum adulto racional tomaria uma decisão de negócios baseados nos conhecimentos que possuía aos 14 anos. Mas, muitas pessoas se satisfazem em abandonar a religião com base no que sabiam ou melhor - não sabiam - aos 14 anos.

Kirk Douglas começou, então, a estudar a Torá, com o próprio rabino David Aaron e com o rabino Nachum Raverman, da Aish Hatorah, de Los Angeles, mostrando-se sempre um aluno brilhante e muito interessado. "A Torá é o melhor script que eu já li", costuma dizer. Trata de todos os assuntos relativos ao ser humano". Seu retorno ao judaísmo foi tão intenso que é freqüentemente mencionado pela yeshivá ortodoxa Aish Hatora.

"Quando minha viagem a Israel foi divulgada, pediram-me para fazer uma palestra sobre o Shabat. Concordei. Relatei minhas experiências na terra Prometida e o reencontro com minha essência. Cheguei à conclusão que se não fosse pelos devotos judeus de chapéu preto e barba longa, que nunca desistiram da Torá e de se preocupar com o que o mundo estava fazendo, eu não teria tido uma Torá para estudar hoje.

Fiquei surpreso com a reação. O discurso foi publicado em diversos jornais e revistas judeus e recebi convites de todo lugar para repeti-lo. Toda esta atenção me assustou. Eu só estava tentando encontrar para mim mesmo um pouco do significado de ser um judeu. Não queria ser um super-judeu. Fiquei confuso."

Hoje, morando em Beverly Hills, Kirk Douglas fala de sua vida e de sua fé. Tem 83 anos, é portador de um marca-passo cardíaco por causa dos ferimentos sofridos no acidente de helicóptero, mas, a energia e disposição para o trabalho continuam intactos.

Atualmente, para ele, sua família tem muita importância; a vida de galã e namorador pertence ao passado. Fala com orgulho de seu segundo casamento com Anne e orgulha-se muito dos filhos Michael, Joel, Peter e Eric, os dois primeiros do casamento com a atriz Diane Dil, de quem se separou em 1949, após seis anos de vida em comum. Os caçulas nasceram do casamento com Anne. E, apesar dos conselhos e recomendações dos pais, todos os quatro trabalham no cinema, produzindo, atuando, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

Kirk afirma que seus filhos sempre souberam que era judeu, mas mesmo assim, ficaram um tanto impressionados pelo fato de ter estreitado sua relação com o judaísmo. Michael, em sua opinião, considera-se muito judeu, ou seja, identifica-se e está sempre pronto a defender alguma causa judaica.

O caçula, Eric, sempre se interessou pela religião e até fala hebraico. Para a grande surpresa do pai, este ator de 39 anos, que desencadeou inúmeros escândalos divulgados pela imprensa, foi o primeiro dos filhos a querer celebrar o Bar-Mitzvá, ao mesmo tempo em que sofria um tratamento de desintoxicação. Da mesma forma, Kirk surpreendeu-se ao ver Peter acendendo as velas de Chanucá. Até Joel, que o pai considera o "menos judeu" de seus filhos, seguiu um curso de judaísmo.

Em dezembro passado, foi convidado especialmente pela Casa Branca, para, junto com o Primeiro-Ministro de Israel, Bibi Netanyahu, acender a primeira vela de Chanucá, evento que marcou o início das comemorações dos 50 anos de Israel.

Kirk realiza, algumas vezes, a difícil tarefa de reunir os quatro filhos para o Seder. Outras, comemora ao lado de amigos, como por exemplo no Seder em que teve como convidado Frank Sinatra, de quipá e tudo.

" Parece que somente agora eu realmente sei quem sou. Minhas forças, minhas fraquezas, minhas invejas. É, como se tudo isso tivesse ficado boiando em um pote todos estes anos, e como bóia, evapora-se, e então, você olha para dentro do pote e pergunta: o que sobrou? Somente a matéria com a qual nasci..."

Na opinião de Kirk Douglas, de repente, todos os episódios ocorridos em sua vida se encaixaram, fazendo com que ele finalmente chegasse a esse estágio.


Enviado por Leon M. Mayer
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