PERSONALIDADES

           
       
YEHUDI MENUHIN
           

Um dos mais famosos violinistas e regentes de nossa época, YEHUDI MENUHIN, faleceu. Poucos sabem que o grande artista judeu fez sua carreira - ainda jovem, e acompanhado ao piano por sua irmã - na Europa, inicialmente na Alemanha, obviamente muito antes do país deixar de ser uma democracia, nos anos 1924 e 1930. Incontadas vezes, delirantemente festejado pelo público alemão e por muitos anos, e apenas um ano após a derrota do nazismo, em 1946, voltou YEHUDI MENUHIN à Alemanha, para trazer a sua mensagem, tocando a música de Beethoven, com a qual por tantas vezes interpretava o que – assim entendia – ser a melhor mensagem de sua parte nos dias de total derrota do país do gênio de Bonn.

Por isso, o conhecido PRÊMIO DE HONRA DO COMÉRCIO LIVREIRO ALEMÃO ( "EHRENPREIS DES DEUTSCHEN BUCHHANDELS’) foi-lhe concedido em 1979, em cuja conseqüência o artista mundialmente festejado proferiu, na "PAUSKIRCHE" de FRANKFURTIM, a seguinte alocução:

"Que é a Paz?" - Eis suas palavras iniciais: "Na melhor das hipóteses uma concepção muito limitada, a qual para cada um de nós contém um significado diverso, de acordo com a pessoa, a época e o local: um ideal, portanto, que se concretiza somente dentro de certas circunstâncias".

"Jamais a paz pôde ter importância maior, nem profundidade de sentido mais acentuada, que BERLIM em 1946. Eu vim com minha esposa DIANA à capital de uma grande nação, que havia sido destruída na guerra e acordava de uma profunda autocrítica e pesquisa de sentimento: sim, eu vim diretamente do centro de seus mais recentes adversários, de povos que se tornaram as vítimas da guerra, a fim de tocar a vossa música, nossa música, a música universal de BEETHOVEN. Paz, significava naquela época o mesmo que fé recentemente acesa, procura sedenta à nova confiança, procura de um encorajamento espiritual e ajuda material na reconstrução da dignidade de um povo e na de sua economia, de uma Nação e na transfiguração do evangelho da morte em outro dos valores eternos da vida".

"Os Senhores entenderão, portanto, que aceito este Prêmio de Paz com a mais profunda humildade: pois naqueles dias parecia que a música que eu trazia, fosse um símbolo para tudo o que o Mundo, e em particular a Alemanha, necessitava. Mas se tratava da música de Beethoven, que exprimia a mensagem, eu era tão somente o mensageiro. Minha única exigência é aquela que eu sabia na minha mais profunda alma de que nenhum outro compositor pudesse soltar as amarras do pesadelo recentemente assistido, indicar a saída e restabelecer aquela fé indispensável, sem o que nada de firme ou de permanente poderá ser edificado".

"Nenhum outro compositor, senão BEETHOVEN, teria tido a força e o efeito de uma mensagem assim. E isto foi a mensagem. Aqui tereis as vossas próprias palavras, aqui está a vossa própria música, isto é a vossa verdadeira filosofia, dentro dela se acha o seu verdadeiro intelecto. Isto é a cultura, isto o real semblante do pensamento alemão, em sua importância universal.

"O que a mim se refere, eu tivera a imensa sorte de viver com ela, a música alemã, minha vida inteira".

Por isso fora o acontecimento indigno do Nacional-Socialismo traição total que me encheu de incrível indignação, com apaixonante e desenfreada insurreição, com aquela cólera de que todos somos possuídos quando o homem destrói seus valores e com isto seu próprio Eu, quando antes de tudo, o Homem dentro de si, e em sua Nação, deixar escorregar livremente o que segue irresistivelmente abaixo em desordem e cegueira moral. Precursor sempre do falso Profeta e de sua astuta cruzada. A meu coração e sentido elas eram bem cedo amadas e caras: as Sinfonias de BEETHOVEN, os dramas de SCHILLER e LESSING, as poesias de GOETHE, HEINE e HOLDERLIN, e eu rezava para que tais gigantescos espíritos, a herança verdadeira dos alemães, lhes viesse em socorro nos dias de desespero."

NT: Esta parte é retirada do discurso, que foi longo e creio que é a parte mais impressionante.


Tradução de Werner Nehab, em 17.03.99
Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B´rith do RJ

 

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