PERSONALIDADES

                 

ALEXANDRE SAFRAN
UM GRANDE MESTRE DO NOSSO TEMPO

             

O grande rabino Alexandre Safran é um dos raros contemporâneos que pode ser descrito conforme versículo do profeta: "o salário dele o acompanha e sua reputação o antecede".

Alexandre Safran é um guia espiritual eminente, reconhecido pelos seus e pela Igreja, que tem efetuado uma obra não somente pastoral, mas também filosófica e intelectual. Na sua autobiografia: "Um Tição Arrancado às Chamas", tomamos conhecimento dos grandes acontecimentos que nortearam a sua vida autenticamente judaica, com seus temores e certezas, seus desesperos e esperanças. Podemos aqui descrever a coragem física de um guia espiritual, que no dia seguinte ao fim da guerra, durante uma entrevista conturbada com um oficial comunista (judeu) não se amedrontou quando este tirou o seu revólver e o apoiou na mesa. Alexandre Safran ficou imóvel e não se dobrou mesmo correndo perigo de vida.

Ele não fala muito da sua vida particular, preferindo apresentar os seus estudos sobre a espiritualidade de Israel a um público europeu. Há alguns anos, os colegas e discípulos lhe dedicaram uma homenagem em forma de livro: "Ramat Gan – 1990". Em 1998, a Universidade de Paris lhe entregou um prêmio.

Normalmente se diz dos rabinos que se afastam dos estudos "profanos" para serem os guardiões da tradição e da prática concreta das "mitsvot". Mesmo aparentemente tradicional, o rabino Safran soube logo após a guerra reconstruir as almas e reconfortar os que fraquejavam, achando ainda tempo nesta grande empreitada de aprofundar e renovar a tradição judaica.

Hoje em dia, pode-se definir o grande rabino Safran como alguém que sabe juntar a cultura judaica erudita e o pensamento judaico revivido.

Alexandre Safran tem quase um século e poderemos, no dia 14 de dezembro em Genebra, falar com ele, durante um banquete em sua homenagem, pelos cinqüenta anos de liderança rabínica. Este poliglota conseguiu no decorrer deste século observar numerosas doutrinas e ideologias que queriam reviver e reforçar o judaísmo.

Dois exemplos dentro de suas obras:

  • Na "Ética Judaica e Modernidade (Albin Michel, 1998), Safran faz uma confrontação produtiva entre os valores da civilização e do judaísmo, sem dar a impressão de que a religião israelita tenha previsto e resolvido tudo. Ressalta que a única maneira do ser humano viver feliz é quando é guiado e regido pelos valores da Revelação. Alexandre Safran retoma aqui as doutrinas de Samson-Raphael Hirsch, desenvolve-as mais e as atualiza. Neste universo presente, onde o desemprego ameaça o mundo inteiro, tirando aos homens e mulheres suas dignidades e minando os próprios fundamentos da vida social e ética, o grande rabino ressalta que o chabat é um tipo de desemprego controlado, procurado e desejado, portanto benéfico ao ser humano.
  • -A outra obra: "O Esboço de uma Ética Judaica Religiosa" (1997) – partindo de bases antigas, idéias de Gaon de Vilna e do rabino Hayyim de Volozhin, desenvolve um estudo profundo dos valores judaicos e nos fornece o seguinte resultado: o estudo acoplado ao ensino é o valor supremo judaico. Graças a isso o judaísmo conseguiu contornar o perigo da petrificação e da desespiritualização.
  • Tendo estudado as grandes correntes filosóficas da cultura ocidental, ele as submete a uma forte crítica de idéias judaicas. Houve um tempo em que assistimos às idéias judaicas passando pelo tribunal das idéias modernas. Isto agora é uma reviravolta daquela situação.
  • Encerro com um breve comentário a respeito da obra: "Judeus e Cristãos: O Shoah como Herança" (1996) composta de lembranças, meditações, discursos, sem esquecer de retratar personalidades cristãs bastante impressionantes, com os quais o grande rabino teve de lidar, sendo ele o último sobrevivente judeu da conferência de Seelisberg (1948). Naqueles dias, em que a Igreja fez tentativas malogradas de estender seus braços protetores sobre os mortos quando deveria ter feito quando eram vivos – o livro soa como um protesto.
  • É certo que judeus e cristãos se enfrentam desde sempre, sendo herdeiros de uma tradição comum e que a disputam entre si constantemente. Todavia, não convém maltratar a História e deve-se respeitar tanto os vivos como os mortos. Apesar de sua meiguice, o grande rabino lembra firmemente a responsabilidade da Igreja no desenvolvimento da existência do Shoah em si. Todavia ele não se expressa com rancor nem com agressividade. Aqui também aparece a riqueza de um grande pastor de Israel. Seria bom se todos pudéssemos nos inspirar num exemplo tão grandioso.

 

Fonte: Revista "L’Arche"/1998
Tradução de Ida Levi Mortara
Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B´rith do RJ

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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