PERSONALIDADES

         
Laetitia Enriquez

           

ELIE WIESEL
PREMIO NOBEL DA PAZ
 
 

A DIÁSPORA
DEVE ACENTUAR A EDUCAÇÃO JUDAICA


Elie Wiesel deve muito em breve fazer o seu aniversário de setenta anos. Enquanto que uma série de manifestações parisienses lhe serão consagradas, fizemos uma entrevista onde ele retorna aos grandes temas que fazem parte da sua obra literária.

AJ.: A respeito do assunto da transferência para Israel da sinagoga de Balbronn, que foi financiada por um grupo de mecenas e em seguida bloqueada pelo governo francês, V.S. interveio pessoalmente perante as autoridades francesas para que fosse desbloqueado este movimento?

EW.: Enviei uma carta ao Ministério da Cultura que me responderam que eles se opunham à esta transferência, porque esta sinagoga faz parte do patrimônio da França. Não sei se o projeto foi abandonado, no que diz respeito eu tentei o que pude.

AJ.: V.S. foi o primeiro escritor a escrever a respeito do Shoah. Encontrou dificuldades para publicar o seu primeiro livro "La Nuit" (A Noite). Na sua opinião, desde então, como este tema evoluiu até os dias de hoje?

EW.: Realmente foi difícil na época encontrar um editor para o meu primeiro livro. Hoje em dia são muitos os editores que querem publicar este tipo de testemunho, até demais. Tenho quase uma certa nostalgia daquela época. Existem atualmente alguns projetos bastante louváveis, outros menos. Não gostaria de criticar isto, mesmo porque acho que de qualquer maneira existe um movimento sincero, especialmente por parte dos que viveram esta experiência e que querem transmiti-la apesar de todas as dificuldades que ela comporta.

AJ.: V. S. acredita que a divulgação do Shoah se faz hoje de maneira melhor que antes?

EW.: Cada um tem o direito de transmitir o seu testemunho à sua maneira, não gostaria de criticar este aspecto. Hoje a divulgação é bastante grande: temos museus, centros de documentação, pesquisas e locais para meditação.
Eu diria até que nunca houve tantos projetos neste campo como hoje.

AJ.: V.S. não está sob a impressão de que apesar das pesquisas sobre o Shoah existem ainda alguns tabus a respeito desta questão que não foram esclarecidos?

EW.: Haverá sempre um mistério. A história quer manter viva uma memória inatingível.

AJ.: Dois filmes que estão passando: "Train de Vie" (Estilo de Vida) de Radu Mihaileanu e a Vida é Bela de Benigni tratam do Shoah sob um novo ângulo, o da comédia. O que V.S. acha disso?

EW,: Eu só vi por enquanto Train de Vie e achei o filme comovente. porém não sou um homem de imagens, mas de palavras. Neste filme, o importante é a emoção e não a comédia. Eu conheço o pai do autor e sei que isto foi feito em homenagem a ele.

AJ.: Pode-se fazer cinema do Shoah?

EW.: Não sei realmente se o cinema é a maneira mais apropriada de transmitir a Shoah. Porém estamos no século da imagem e eu não sei como se pode conciliar a memória com a imagem, desde que a primeira exclui a segunda.

AJ.: Qual a sua opinião a respeito da floresta de cruzes perto do campo de Auschwitz?

EW.: Infelizmente fui eu que descobri as primeiras cruzes em Auschwitz e na época protestei, mas nem sequer os dirigentes judeus do mundo inteiro queriam me dar ouvidos. A desculpa dos poloneses era que "jovens poloneses idealistas queriam manifestar sua solidariedade entre judeus e cristãos". Havia na época somente 70 cruzes agora tem 300. Eu acho isso um escândalo.

Cada vez que declaramos algo e eles não gostam, plantam mais cruzes ali. Isso demonstra uma raiva por parte dos cristãos. A cruz se torna um utensílio de guerra e de insultos. Eu respeito todas as religiões e todos os crentes em Deus. Respeito também todos que acreditam que a cruz é um símbolo de santidade e não um utensílio a serviço do ódio, o que é inadmissível e intolerável.

AJ.: Como V.S. acha que este desafio se resolverá?

EW.: Em uma aproximação entre duas partes. Não é suficiente tentar entender o outro, mas também tentar se fazer entender. A imprensa israelense de hoje, infelizmente, é muito carregada de ódio. Ela exerce uma pressão sobre Israel que implica num sentimento que nunca surgiu antes.

AJ.: V.S. é favorável a uma separação entre o Estado e a Religião em Israel?

EW.: Acho que uma separação seria muito saudável, tanto no ponto de vista político como religioso. Quando se faz da política uma religião isto é muito ruim e quando se faz da religião uma política isto é pior ainda. A religião politizada é uma maldição.

AJ.: No que se refere ao papel da diáspora em relação a Israel, qual é o papel dela hoje? V.S. pensa que deve continuar dando um apoio incondicional?

EW.: Pessoalmente eu dou um apoio incondicional a Israel qualquer que seja o seu governo, mas não qualquer que seja a sua política. Já me ocorreu de não concordar com uma política conduzida, todavia não critico Israel. Vou para Israel e lá digo o que penso. Este é um dos meus princípios. Não faço oposição a Israel fora de Israel. Não posso dar conselhos a Israel morando no exterior.

AJ.: Na sua opinião, de que maneira as relações evoluíram entre a diáspora e Israel?

EW.: Israel reconhece cada vez mais a importância do papel da diáspora. Isto está provado no orçamento especial que ela gasta para a educação judaica para a diáspora. A novidade é que o dinheiro vem de Israel e não vai para Israel. Eu vejo esta aproximação como um bom sinal. No que se refere a diáspora em si, eu penso que a prioridade essencial é de acentuar a educação judaica, tanto no ponto de vista histórico quanto civil.

AJ.: V.S. festeja este ano os seus setenta anos. Um feliz aniversário. Podemos perguntar qual que é o balanço que V.S. faz desses anos hoje?

EW,: Continuarei escrevendo. O meu próximo livro será publicado na França em fevereiro de 1999. Será um romance e se chamará Os Juizes (Les Juges) .

Quanto ao balanço da minha vida... bastante modesto. Eu desejaria ter e deveria ter feito muito mais do que fiz...

 

Fonte:Actualité-Juive/1998
Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B´rith do RJ

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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