PERSONALIDADES

           
SAADIA GAON (882-942)

      

Primeiro intérprete do movimento racionalista da Filosofia Judaica que, pelo brilho do seu gênio, ganhou renome pela sua excepcional erudição e autoridade religiosa, atingindo o posto de gaon na Academia Babilônica de Sura. Gaon era título honorífico que se conferia aos presidentes das Academias de Sura e Pumbedita na época pos-talmúdica, nos VI e XI. E é uma alusão ao versículo onde o Eterno aporta a glória, gaon, ao patriarca Jacó.

Foi graças aos seus esforços que a autoridade do gaonat babilônico ultrapassou as pretensões dos professores palestinos, tendo promulgado um calendário que fixava as datas para as diferentes festividades. Saadia se opôs violentamente aos caraítas (seita que rejeitava a Lei Oral), assim como a outros movimentos heréticos da época. Foi ele o campeão de uma luta contra duzentos escritos anti-bíblicos de um professor não ortodoxo, Chivi-Ha-Balchi, que faziam sucesso em muitas comunidades persas, induzindo em erro seus jovens alunos. Com Saadia o rabinismo judaico ganhou alturas antes não alcançadas, sobretudo quando afirmava que a verdade religiosa poderia ser comprovada quanto um problema de Matemática.

Saadia nasceu em Pithom, Egito, de família modesta. Quase nada se sabe de sua educação ou de quem foram seus mestres. Mas o fato é que ele demonstrou um talento precoce e que seus conhecimentos da Torá eram profundos. Ainda jovem, ele recebeu o título de rech (dirigente) e aluf (príncipe) assim que chegou, no ano de 922, à Academia de Pumbedita.

Seis anos depois, foi nomeado gaon Sura, embora estivesse engajado num conflito entre autoridade espiritual, que ele representava e a secular, representada por David ben Zakai. No fundo, era a luta entre as escolas da Babilônia e da Palestina, sendo que a primeira estava muito mais adiantada do que a segunda.

Nesse meio tempo ele escreveu uma importante obra filosófica: Sefer Ha-Emunot Ve-Hadeot (O Livro das Crenças e das Opiniões). Na Bíblia, dizia ele, o Judaísmo repousa sobre dois pilares: o primeiro, que a precede, é a fonte da razão; a segunda, que a segue, é a fonte da tradição.

Saadia Gaon foi um dos precursores do rabinismo, da literatura rabínica e o pioneiro da redação de monografias consagradas a temas da lei judaica: O Livro da Herança, O Livro dos 613 Mandamentos, A Interpretação das Leis Herméticas, etc. Produziu um dicionário hebráico, Sefer Ha-Agron, onde explica os princípios da Gramática.

Para Saadia, as mitzvot devem ser entendidas pelo seu papel educativo. Por exemplo, as regras da alimentação. Tendo vindo do Egito, ele sabia que havia perigo de santificar certos animais, alguns dos quais eram cultuados pelo povo. Portanto, quando o Judaísmo declara que certos animais são impuros, isto significa que ele não é sagrado, justamente porque é impuro e não merece ser adorado como se tivesse alguma qualidade divina. Saadia também dizia que a Torá não pode ser mudada ou alterada, porque ela é a expressão da vontade de D"S e essa vontade não pode ser posta em questão. A Escritura declara que Israel é eterno, mas o nosso povo só existe como povo graças à sua Torá. Nossa crença em Moisés ou qualquer outro profeta não deriva somente pelo número de signos e de maravilhas por eles manifestados, mas porque exortam o indivíduo a fazer aquilo que é bom e direito.

Nos limites deste editorial não cabe uma discussão filosófica dos princípios desenvolvidos por Saadia Gaon. Ainda assim, vamos reproduzir algumas idéias, que precisam ser lidas cuidadosamente, pela complexidade de sua elaboração.

Saadia começa sua demonstração da existência de D"S e de Sua natureza dando relevo ao caráter eminentemente "criativo" do universo físico. Tudo aquilo que nós percebemos por intermédio dos sentidos está num estado de flutuação permanente. O cosmo, apesar de toda a sua complexidade e de suas fases que variam sem cessar, é um universo prestes a morrer, mas que se renova constantemente. Por isso, a causa última do universo que nós percebemos deve ser procurada fora da flutuação de sua existência, isto é, num SER SUPREMO, que não pertence ao mundo e não sofre os efeitos do processo de mudança. D"S está fora desse universo em mutação. Ele transcende as dimensões de tempo e espaço, pois tais dimensões têm as qualidades de sua natureza física. D"S, portanto é eterno, fora de qualquer dimensão espacial e sem biografia pessoal. As Escrituras falam da Divindade como se ela fosse corporal, referindo-se à "Sua mão direita", "Seus olhos", "Sua face", etc. Mas tais expressões não devem ser entendidas em seu sentido literal. Elas tentam explicar as qualidades e os poderes de D"S em termos, que sejam humanamente compreensíveis.

Seria longo enumerar todos os argumentos que Saadia Gaon utilizou para responder ao movimento racionalista que marcou a filosofia judaica no primeiro século de nossa era. Sua obra tem sido objeto de estudos de muitos pensadores atuais, que encontram nele uma inteligência luminosa e uma coragem de enfrentar problemas teológicos, à luz da razão.

 

Editorial por Eliezer Burlá (Or Torá Beth-El)
Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B´rith do RJ

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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