CULTURA

        

Eliezer Burlá

        

SAFED, A CIDADE DOS LEGISLADORES E DOS MÍSTICOS

        

Safed é uma pequena cidade na Alta Galiléia, situada numa terra montanhosa, que é parte da Terra Sagrada consagrada nas Escrituras para a tribo de Naftali. Foi lá que Rabi Yossef Caro escreveu no século XVI: "Após quase 500 anos vivendo no exílio e na perseguição, Ele D'us recordou a aliança feita com seus antepassados e os trouxe de volta do cativeiro nos quatro cantos do mundo e os assentou na terra da glória, na cidade de Safed, cobiçada por todos os povos". O impulso para se estabeleceram na "terra da glória", ao invés dos grandes centros comerciais da Europa, foi de ordem puramente religiosa. Depois das atividades sofridas na Espanha, um grande número de exilados emigrou para a Terra Santa, o país que desde os tempos dos profetas até Yehuda Ha Levi e do Gaon de Vilna, até Israel Baal Shemtov, nos séculos XVIII e XIX, foi sempre considerada a grande matriz das "oportunidades espirituais".

Safed não é mencionada na Bíblia ou no Talmud. Ela começa a aparecer no início do século XVIII quando o viajante Samuel ben Shimshon escreve que encontrou uma comunidade com mais de 50 membros. Na última década do século XV surge o Rav Yossef Saragossi, onde fundou uma escola. No decorrer dos anos, Safed cresceu e chegou a ter vinte e uma sinagogas, dezoito colégios talmúdicos, vinte professores e quatrocentos alunos, mantidos pelos judeus ricos da Turquia. A cidade não apenas cresceu como se tornou um centro de excelência religiosa em Israel. Duas figuras foram especialmente proeminentes: Rav Yossef Caro e Rav Issac Luria, chefes da escola mística responsáveis pela fama que Safed adquiriu na história do judaísmo. Iossof Caro não é apenas o autor do Shulchan Aruch, "a mesa posta" um código que permite ao aluno compreender o significado de cada Lei, como também do monumental Beth Yossef.

Existe, porém uma outra personalidade em Safed que atingiu uma fama enorme na História do Judaísmo. Trata-se do Rabino Isaac Luria. Dele se conta que foi anunciado pelo Profeta Eliahu ao pai de Isaac, com as seguintes palavras: Saiba que o Santo, bendito seja, o abençoou e que sua mãe, com a mulher de Abraão te dará um filho que se chamará Isaac e que terá o poder terá o poder de redimir muitas almas. Através dele será revelada a Cabalá do Povo de Israel. Desde cedo o jovem Luria revela-se como um dedicado aluno da Torá. Aos oito anos espantava e maravilhava os rabinos com os seus conhecimentos do Talmud. Teve como mestre o famoso Rabino Bezalel Askenazi, autor do Shibtah Melanbezet. Aos quinze anos casou-se com a filha do seu benfeitor, o rico Mordechai Francis, no Cairo.

Conta a lenda que um dia apareceu um estranho que resolveu rezar na Sinagoga de Luria. Ele se sentou numa cadeira do lado oposto de Luria e começou rezar de um manuscrito que tinha nas mãos e que não acompanhava o sidur normal da comunidade. Claro está que a curiosidade despertou em Luria a vontade de dar uma vista de olhos naquele estranho livro e qual não foi a sua surpresa ao verificar que o manuscrito continha os grandes mistérios da fé. Respondendo às indagações de Luria, o estranho lhe disse que era marrano e não sabia decifrar as palavras hebraicas, já que desconhecia o sentido de cada letra. Luria quis comprar o manuscrito que se revelou ser o Livro do Esplendor, o Sepher Ha-Zohar, que havia sido escrito por Shimon Bar Yohai, no século II.

Durante os oito anos seguintes Luria dedicou-se ao estudo da Cabalá e conta-se que teria recebido instruções do próprio Profeta Eliahu, ordenando-lhe que abandonasse o solo do Egito e fosse residir em Safed. Em Safed, Luria estreitou relações com estudiosos de grande sabedoria, como Joseph Caro, Cordovero e Joseph Askenazi. Com eles aprendeu a Teoria da Concentração, ou Zimzum, uma forma de entender o Universo, o Homem, as Criações Divinas e o Poder do Ente Supremo, autor de tudo que se encontra no céu, acima e na terra, em baixo. A linguagem usada para explicar os mistérios é repleta de metáforas. Por exemplo, a primeira manifestação do mais Oculto de todos os Ocultos, seria o Homem Original (Adam Kadmon), o arquétipo da Criação. Os cabalistas, porém, eram muito cautelosos nas interpretações dessas metáforas. O próprio Rabi Shimon Bar Yochai dizia que a metáfora do Adam Kadmon não deveria ser entendida em seu sentido literal. A Bíblia, quando fala de Adão, não especifica a sua anatomia: pernas, braços, etc. Ele aparece como o Primeiro Homem, dotado das qualidades místicas que D"S lhe deu ao criá-lo.

Foi neste ambiente que Luria viveu em Safed, onde encontrou os dois homens que mais o impressionaram pela sua sabedoria: Caro e Cordovero. Por sua vez, eles encontraram em Luria um agente ágil e um sutil conhecedor e intérprete do Talmud e logo os três se tornaram grandes amigos. Conta-se que no casamento do filho de Luria com a filha de Caro, este ao voltar para casa, teria dito à esposa: É muito difícil para mim descrever o que aprendi dos segredos da Torá após ouvir o discurso de Luria no banquete. Nem mesmo um anjo saberia tanto quanto ele. Ele tem a alma dos antigos profetas.

O nome de Luria aparece, em geral, como ARI (leão), formando o anagrama das palavras hebraicas O Divino Rabi Isaac. Sua história é longa e rica demais para se enquadrar no espaço de um editorial. Mas, como final, queremos lembrar que, para Luria, uma das principais funções da vida era a oração. Através da oração o homem fica mais próximo de D"S. Cada palavra do ritual, cada letra, é um repositório de mistérios que vão além do seu sentido literal. E quando, durante as orações, a pessoa não se entrega devotadamente à oração que está pronunciando durante os serviços, ela se torna um grande obstáculo para a redenção de Israel.

 

Fonte: Or Torá Beth-El
Enviado por Leon M. Mayer
Presidente da Loja Albert Einstein da
B'nai B'rith do RJ

 

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