CULTURA

Geoffrey Paul

 

O LEGADO PERDIDO DE ESTHER

Apesar da cultura judaica polonesa ser pequena e esquisita, a Polônia ainda é um país de fantasmas.


O Rei Casimiro, da Polônia, tinha um caso com uma moça judia chamada Esther, há 650 anos. Foi ele quem deu o nome de Kazimierz à cidade que hoje é um subúrbio da Cracóvia. Afora a Shoah, Kazimierz foi um lar para os judeus desde aquele tempo.

Agora são somente um punhado suficiente para dizer o Kadish nas sepulturas dos místicos e sábios talmúdicos enterrados nos cemitérios.

E assim mesmo, nas noites de gafieira, Kazimierz fica barulhenta com a música de Klezmer.

O cardápio é composto de arenque, tchulent e outros pratos judaicos favoritos.

Um retrato apagado do avô de alguém olha por cima das cabeças dos convidados que não são judeus.

Kazimierz tornou-se um lugar "in" para os poloneses.

E os turistas também vêm. Mas a maior parte da cidade está desolada com as ruínas das sinagogas (a única em uso é Remuh), as ruas despovoadas do que era antes um distrito judaico florescente, ainda ativo porém sem judeus, mercado de frutas e legumes e, aqui e ali, apagados sinais nos edifícios e lojas da antiga ocupação judaica.

Então, por que os poloneses vêm nas noites de folga? Eles realmente sentem falta da vida borbulhante da antiga ocupação judaica, a maioria falando idish, que certa vez pulsava nas ruas de Kazimierz?

Não, esta não pode ser a explicação, porque a maioria dos que freqüentavam as noites alegres de estilo judaico não conheciam os judeus. O que eles ouviram na igreja, na escola ou em casa, dificilmente seria agradável.

Nos seus papéis tradicionais - os judeus foram considerados os matadores de Cristo, os usurpadores do patrimônio polonês (antes da guerra), ou os importadores do comunismo (após a guerra) - de alguma forma os judeus sempre ameaçariam a Polônia.

O pequeno remanescente dos judeus poloneses - que já tinham sido de 3 milhões de pessoas - era visto como uma ameaça à independência do país se viesse a morar lá. Assim, em 1946, após o final da 2a Guerra, em Kielce, na Polônia sul oriental, 42 judeus foram assassinados a sangue frio e muitos outros feridos.

A Noite de Gafieira em Kazimierz permanece sem explanação racional - o que Michael Kaufman contou em seu livro SONHOS MALUCOS E GRAÇAS SALVADORAS - quando levou Lech Walesa a um espetáculo lotado de música popular com um ator cantando e dançando. Durante seu espetáculo, o ator pega um gorro que parece um kipá e começa a cantar no modo idich, sobre uma cidadezinha há muito desaparecida e "quando chega o primeiro lá lá lá o refrão é repetido e a audiência acompanha, aplaude e bate palmas".

Kaufman olhou ao seu redor. "Senti ser o único judeu no teatro. Pensei que talvez o cantor fosse judeu, mas soube mais tarde que não era. A academia estava aplaudindo espontaneamente alguns ecos simulados da vida judaica desaparecida."

Então é Kazimierz o último gesto de respeito a um antigo vizinho? Se é assim, isso não é o que geralmente acontece. O campo de cruzes espalhados pelas redondezas do campo de concentração de Auschwitz foi um tapa na cara, de propósito, contra os judeus. Foi o que me disse um padre jesuíta.

Enquanto oficialmente a Igreja pediu para retirar as cruzes, padres individualmente concederam tal permissão, como um gesto de paroquianos nacionalistas apoiados por uma rádio local, pro-católica.

Há um sentimento na Polônia, e não somente nos círculos nacionalistas, de que o sofrimentos horrível dos poloneses durante a 2a Guerra Mundial não foi devidamente reconhecido e, mais uma vez, os judeus foram os vencedores ganhando a simpatia e o apoio internacionais.

Houve até a tentativa de suprimir o Holocausto, mais especialmente no período comunista, quando o fato era de que 90% dos mortos em Auschwitz eram judeus.

O ensino sobre o Holocausto também ficou prejudicado. Assim disse o Dr. Raphael F. Scharf, agora em Londres, e que fala de si próprio como o último judeu da Cracóvia, em que ficou chocado como a história dos judeus poloneses é falsificada, distorcida e ignorada nos livros da escola.

Há algumas semanas, frente a uma audiência de professores poloneses de história, o Dr. Scharf perguntou sem hostilidade e implorando:

_ Como podem as crianças polonesas saberem de um povo que certa vez foi mais de 10% de sua população, se os livros da escola apresentam este povo assim?

__ Quantos textos aprovados pelo Ministério da Educação contêm estereótipos malignos anti-semitas, como a passividade dos judeus poloneses ("eles se permitiram ser arrebanhados para dentro dos guetos"), e as acusações de que a maioria dos judeus era comunista antes da guerra, e que eram usurários e conspiravam para destruir a Polônia?

Parecia que, para os professores, os judeus morreram porque eram poloneses e não porque eram judeus.

As emoções que os poloneses sentem pelos judeus são, raramente, devido à presença física.

Estimativas do número de judeus na Polônia variam entre 8000 e 50000. A maioria é daqueles que, tendo se salvado dos campos de concentração ou tendo sido escondidos pelos poloneses, vivem entre querer e temer serem reconhecidos. Outros chegaram da Rússia e ficaram.

Na Cracóvia, os livros da Torá usados nos serviços de sábado se despedaçaram e quase são um maço de folhas separadas. Em Varsóvia, que tinha numerosas editoras e livrarias, suplicam por Sidurim, Chunachim e Hagadot.

Um líder comunitário pergunta desesperadamente:

___ Há 1076 cemitérios necessitando de cercas, de guardas. Há 350 sinagogas registradas que deveríamos retomar e cuidar, mas com o quê? Necessitamos de rabinos, escolas Yeshivot - mas para quê?

É difícil ver um retorno significativo de judeus à Polônia. E nem há indício de que o polonês comum o deseje. Em algumas cidades pequenas onde poloneses ocuparam as casas dos judeus que foram levados para os campos de concentração, visitantes judeus sentem a hostilidade aberta.

O Dr. Scharf foi entrevistado na TV polonesa, há algum tempo, em um programa chamado "Conversas do fim do milênio". As entrevistas com a elite dos intelectuais poloneses foram reproduzidas. Confesso que fiquei envaidecido por estar em tão boa companhia, na qual era o único judeu, se não fosse um pequeno detalhe do qual fui alertado por um leitor atento. Em nenhuma das entrevistas, exceto a minha, havia referência ao destino dos judeus.

Não é incrível? A elite polonesa é convidada a falar sobre os problemas de nosso século e nenhum deles sente a necessidade de mencionar o assunto de alguma forma.

Reconheço, continua o Dr, Scharf, que há muitos problemas a serem considerados, ma não compreendo porque no 20o século falar sobre arte, filosofia, religião e cultura, particularmente na Polônia, e não mencionar os judeus, o que aconteceu com eles e como aconteceu.

Assim como Auschwitz é agora um museu, assim os judeus na Polônia são vistos, nem no passado e nem no futuro, mas com ruínas e cemitérios do passado.

E é difícil de acreditar que é assim que a maioria do povo polonês prefere pensar do povo judeu.

Traduzido pelo Dr. Jayme Gudel
do Jewish Chronicle, London
Enviado por Leon M. Mayer,
presidente da Loja Albert Einsteins da B'nai B'rith do RJ

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
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