CULTURA

       
Hinde Pomeraniec
       

 Por muitos anos foi veiculado um texto anônimo
encontrado no Gueto de Varsóvia.
Hoje, sabe-se que "IOSL RAKOVER" foi escrito por alguém em Buenos Aires e, por alguma razão da História, o original ficou entre os escombros da AMIA.

       
A LENDA DESTE SÉCULO

História de um manuscrito banhado em sangue

O que você vai ler é o relato de uma pesquisa jornalística e é também a história de alguém que não existiu, porém, pode haver existido e, ainda, a inacreditável aventura de um texto de ficção e de uma crônica de uma paixão literária capaz de transformar um escrito em clássico e colocá-lo para sempre na imaginação coletiva.

Em fins da Segunda Grande Guerra, apareceram manuscritos que comoveram profundamente a opinião pública. Eram textos escritos à beira da morte por pessoas que procuravam, através destes, deixar testemunho do horror e ao mesmo tempo era uma forma de demonstração da resistência humana.

Assim foram achadas, escondidas em latões de leite, anotações de Emanoel Ringelblum relatando o que foi o Gueto de Varsóvia. Da mesma forma, o longo poema CANTO DO POVO JUDEU ASSASSINADO, escrito entre outubro de 1943 e janeiro de 1944, por Yitzchak Latzenelson, encontrado dentro de três garrafas escondidas no campo de concentração francês de Vittel.

Neste contexto em que cada relato era como se fosse um tijolo na construção da terrível crônica do horror nazista, começou a circular em diferentes países um texto comovente como uma outra última manifestação de um condenado à morte - "IOSL RAKOVER FALA COM DEUS" - escrito em idish e que começava assim:

Numa das ruínas do Gueto de Varsóvia, entre pedras e ossos humanos calcinados, dentro de uma garrafa fechada foi encontrado o seguinte texto, escrito por um judeu de nome Iosl Rakover, datado em 28 de abril de 1943, como se fosse um diário íntimo.

Iosl está num quarto semi-destruído no meio do Gueto; já há vários dias luta contra os alemães com um armamento humilde: garrafas de benzina. Olha por uma pequena janela e escreve quando já não tem muito o que fazer, pois os nazistas ganharam a batalha. Sua esposa e filhas morreram nas mãos dos assassinos, tudo em volta dele está em chamas e ele só pensa em falar a Deus. Não é o judeu praticante nem o hereje, mas é um homem a ponto de morrer que invoca o nome de Deus e pede explicações. - Ainda sinto que sou devedor Dele, mas Ele também tem uma dívida comigo. Uma dívida muito grande. E por isto eu acho que tenho condições de exigir. Ele está só; os onze colegas que o acompanhavam foram falecendo aos poucos. Está só e anuncia que com as últimas três garrafas de benzina que ainda tem, derramará uma sobre seu corpo e colocará o texto do seu relato dentro da garrafa. Logo se ateará fogo para não dar-lhes o gosto de que o assassinem e as outras duas garrafas lançará sobre os alemães quando chegarem seus últimos minutos. Em sua comovente descrição, Iosl se orgulha de ser judeu e de pertencer ao mais infeliz de todos os povos, o que considera uma qualidade divina. Um judeu é um combatente, um eterno nadador contra uma miserável e criminosa corrente humana. Fala a Deus e reclama, pergunta que falta tão grave pode ter cometido o povo judeu para merecer tal castigo e de igual para igual Lhe pergunta quais os limites da paciência. Sobre o fim, diz que por mais que Deus tenha tentado deixá-lo longe de sua luz, por mais que o tenha abandonado, morrerá acreditando em Deus inconsolavelmente. Bendito seja para sempre o Deus dos mortos, o Deus da vingança, o da verdade e do juízo, que voltará logo a mostrar seu rosto ao mundo e sacudirá o cimento com a sua voz poderosa. Escuta, Israel, o Senhor nosso Deus, o Deus único. Em Tuas mãos encomendo meu espírito.

Em 1954 a editora Die Goldene Keit, de Tel Aviv, publica este texto como se fosse TESTAMENTO DO GUETO DE VARSÓVIA, assinado pelo próprio Iosl Rakower. Nesse mesmo ano, a escritora Ana Maria Jokl o traduz para o alemão. O próprio Thomas Mann elogiou o livro numa carta que escreveu antes de morrer. Também Israel Levinas escreveu em 1962 um ensaio, AMAR A TORÁ MAIS DO QUE A DEUS. Levinas considera Iosl Rakower um salmo moderno.

Em 1955, um judeu de Nova York começa a reclamar a autoria do livro NÃO PEDE NADA A DEUS, MAS AOS HOMENS. Zvi Kolitz, este é o seu nome, inicia o processo de reconhecimento da autoria, fornecendo dados. Ele insiste que em 1956 morava em Buenos Aires e que, a pedido do Idishe Zeitung, escreveu com Iosl Rakower para a edição do Yom Kipur.

Em 1965 aparece uma tradução em hebraico.

Uma antologia, em New York, três anos depois, foi publicada com o nome de Zvi Kolitz, mas alerta que talvez tenha existido um Iosl Rakower. Nos anos 70, o Gush Emunim o converte em um documento dos colonos extremistas.

Em 1992, Paul Badde, jornalista alemão, se reúne com a Sra. Jokl e começam a procurar por Zvi Kolitz, que agora mora em NY. Em seu apartamento, começa a contar sua vida e versão dos fatos. Ele nasceu em 14/12/19, em Alytus, pequena cidade da Lituânia. Foi na sua casa e da mão de seu pai, um rabino, que Zvi Kolitz aprendeu que a Deus podia falar de igual para igual e que isto não era falta de respeito. Em 1937, tendo falecido seu pai, emigraram os oito irmãos e sua mãe, fugindo de e ameaças de antisemitismo. Com 17 anos, Zvi gosta da Itália, enquanto o resto da família vai para a Palestina. Ele chega a Jerusalém só em 1940 e se incorpora ao movimento de Jabotinsky, formado por radicais sionistas que buscavam como destino a criação do Estado de Israel.

Finalizada a Guerra, Zvi se intera que em Alytus não havia ficado um só osso judeu em pé.

Em 1946 vai como enviado ao Congresso Judeu Mundial, primeiro na Basiléia e depois em Buenos Aires. Numa das conferências conhece Mordechai Stoliar, diretor do Idishe Zeitung. Ali nasce a idéia de Iosl Rakower.

Em 12 de março de 1993, ele entra em contato com Padre Latour, do Colégio Jesuíta de Buenos Aires. Este padre, junto com a Sra. Helena, conseguem descobrir o original do livro, que se encontra numa biblioteca, na Avenida Pasteur. Lá se pode ler:

Diário Israelita, 25 de setembro de 1946, IOSL RAKOWER FALA A DEUS, escrito por Zvi Kolitz.

Badde, o jornalista alemão, termina sua nota no dia 23 de abril de 1993, quando fazia 50 do início do Levante do Gueto de Varsóvia. Isto parecia o fim do relato, mas não foi assim.

No dia 18 de julho de 1994, Paul Badde liga para Zvi Kolitz, em Nova York e lhe pergunta se escutou as notícias da bomba na AMIA e ele responde que sim. Aí, Badde lhe informa que seu original de Iosl Rakower estava lá.

Então, Zvi Kolitz confessa: Agora sei que as páginas do meu livro estão sepultadas junto a pedras e ossos humanos.

           

Artigo publicado por Hinde Pomeraniec no Jornal Clarin,
Traduzido por Leon Mayer,
presidente da Loja Albert Einstein da B'nai B'rith do RJ
    

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br

Revista Rio Total