Ano 9 - Semana 450

 




 

   12 de novembro, 2005
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Abraham Josef Schneider
 

Da Praça Onze à Cinelândia


Mas, como eu ia dizendo antes da desvalorização dos meus pobres reais, nossa presença na praça onze não era aceita pacificamente como possa parecer. Volta e meia alguém disparava contra nós um "cai fora, gringo, fala Português, volta pra Palestina". Assustados, nós nos afastávamos sem esboçar qualquer reação. Ainda assim, era melhor do que na Europa.

Tínhamos um ótimo relacionamento com alguns vizinhos italianos. Na rua Júlio do Carmo existia uma vila que se alongava até os muros sombrios do quartel da Polícia Militar, na rua Salvador de Sá. À noite, sentados nas velhas escadarias, os italianos cantavam até altas horas, enquanto suas mulheres preparavam suculentas macarronadas para nós.

Explode a Segunda Guerra Mundial e tudo começa a mudar. Nossos amigos adeptos de Mussolini, afastaram-se, iniciando uma guerra de nervos contra nós, comemorando com muito vinho as primeiras vitórias do nazi-fascismo.

Na BIBSA, apesar da constante vigilância policial, sempre conseguíamos nos reunir, discutindo a postura de Vargas, francamente favorável aos países do Eixo, formado pela Alemanha, Itália e Japão. Muito organizados, participamos intensamente da mobilização popular traduzida por vigorosas manifestações de estudantes e operários, culminando com a entrada do Brasil na guerra.

Nossos soldados, em sua maioria recrutados na classe mais pobre, tiveram pouco tempo para se adestrar. Mesmo assim, portaram-se com inegável bravura, compensando sua desvantagem física e bélica frente aos bem-nutridos e preparados soldados nazistas (parece até crônica esportiva, mas a guerra foi e será sempre uma tragédia).

Assim foram temperados muitos heróis, inclusive alguns judeus, como o sargento Max Wolf Filho e Salomão Malina, mais tarde dirigente do Partido Comunista Brasileiro. Não devemos nos esquecer de outros nomes importantes, como o historiador e ex-dirigente do PCB Jacob Gorender e o artista plástico Carlos Scliar.

Com o fim da guerra, em1945, e a inevitável redemocratização do país, as atividades culturais da BIBSA foram substancialmente intensificadas. Organizamos inúmeras conferências e debates, enfocando problemas do Brasil e de outros países, salientando, sempre, a alternativa socialista como caminho ideal para a conquista de uma paz duradoura, embasada numa verdadeira Justiça soclal.

Na comunidade judaica, as divergências entre progressistas e sionistas tornavam-se cada vez mais acentuadas, chegando, algumas vezes, às vias de fato, como se isto resolvesse as nossas eternas diferenças...

A propósito, lembro-me de um episódio protagonizado por mim e Guedálie Gruzman, pai do arquiteto Max Gruzman. Na década de 30, dividíamos um quarto bem modesto na rua Visconde de Itaúna e, como bons amigos, conversávamos bastante. Porém, quando o assunto era política, a coisa esquentava. Certo domingo pela manhã, após uma discussão acalorada eu, pavio curto, pedi-lhe que não mais me dirigisse a palavra, pois recusava-me a falar com um "reacionário empedernido". Horas mais tarde, fui despertado por alguém que me puxava pelo braço. Guedálie estava em pé, na minha frente, segurando com firmeza um pesado banco de madeira. Com os olhos faiscando, vociferou, ameaçador:
- Iossi, escolha. Ou você volta a falar comigo ou racho a sua cabeça agora mesmo.

Mal refeito do susto, comecei a rir e abracei-o, emocionado. Ele, sério, finalizou:
- Graças a Deus, amigo. E quer saber de uma coisa? Dane-se a política e viva a nossa amizade. Guedálie Gruzman, bom e leal amigo.

Em meados dos anos 40, nossos eventos nas áreas cultural e artística atraíam um número crescente de pessoas. A sede da BIBSA tornou-se pequena. Enfim, tínhamos um novo desafio à nossa frente. Precisávamos de mais espaço, num local mais acessível para a comunidade, que, àquela altura, começava a dispersar-se para outros bairros, como Flamengo, Catete, Copacabana, Tijuca e Méier, devido a destruição da praça onze e à abertura da avenida Presidente Vargas.

Arregaçamos as mangas e iniciamos uma campanha visando à compra de uma sede própria. É fácil imaginar o sacrifício que este objetivo nos impôs. Finalmente, em 1956, adquirimos um andar com uma área de quase 500 m2, na rua Álvaro Alvim, de frente para a Cinelândia, cenário de memoráveis manifestações políticas. Lembro-me de que, muitas vezes, enquanto acompanhávamos as obras de adaptação da nova sede, chegávamos junto às enormes janelas e, incrédulos e emocionados com a conquista da BIBSA, olhávamos para o belíssimo prédio da Biblioteca Nacional. Sua imponência nos deslumbrava. Pensando bem, havia coerência em sermos vizinhos daquela casa de cultura. Afinal, nós, judeus, não somos o povo do livro?
 

Fonte: Boletim da ASA nº 57
Abraham Schneider é Diretor da ASA
Enviado por Leon M.Mayer

 

 


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