MEMÓRIA

Michel Kubler


HISTÓRIA DE UM ARREPENDIMENTO

A injusta prisão e deportação do capitão do Exército francês Alfred Dreyfus, em 1895, levou o escritor Émile Zola a assinar, em 1898, o seu famoso "Eu Acuso", no jornal L'Aurore. A sua denúncia das campanhas anti-semitas provoca uma raivosa reação na imprensa católica, a começar pelo La Croix. Passado um século. o jornal católico francês mostra seu arrependimento no impactante editorial de primeira página publicado dia 12 de janeiro de 1998, e que reproduzimos abaixo. Adiante, segue artigo sobre a trajetória do jornal na revisão do seu anti-semitismo.


NOSSOS IRMÃOS MAIS VELHOS

Sim, nós escrevemos isso. Sobre Dreyfus: "É o inimigo judeu atraiçoando a França." Sobre Zola, que defendia o inocente: "Arranquemos-lhe as tripas!" Sobre os judeus: "Contra o Cristo que os amaldiçoou e de quem permanecem ferozes inimigos, estariam pretendendo sublevar todas as coisas: o ódio deles vai às raias do delírio." Assim se escrevia, há cem anos, no La Croix. É preciso que nos lembremos. É preciso que nos arrependamos.
Os homens que assinaram estas linhas mortíferas são nossos irmãos antepassados. Assuncionistas ou leigos, os redatores do La Croix tiveram naquele tempo uma atitude que nada - nem o anti-semitísmo generalizado, às vezes mais exacerbadas nos meios católicos, nem o anticiericalísmo odioso que se lhes punha - poderia desculpar. Eles queriam salvar Roma e a França? Não fizeram senão conspurcar o Cristo a quem pensavam servir. Ao gritar "Abaixo os judeus!"e se proclamar o jornal mais antijudaico da França, o nosso diário não percebia que estava traindo o crucifixo então orgulhosamente ostentando na primeira página.

Nosso diária, assim como o conjunto da igreja, não sabia mais, ou não sabia ainda, que os judeus são nossos "irmãos mais velhos". Seriam necessários cem anos, a Shoá, um Concílio, um papa visionário (João Paulo II, na sinagoga de Roma, em 1986) para que se lembrassem disso. A igreja e La Croix o têm reconhecido de forma ampla, há décadas. Mas permanece o dever da memória, que reside na nossa relação com uma história dupla: a nossas origens cristãs, vitalmente enraizadas no judaísma, e aquela, origens cristãs, vitalmente enraizadas no judaísmo, e aquela, indissociável, dos sofrimentos infligidos pelo cristianismo ao povo do qual Cristo é originário. Ninguém, nenhuma comunidade terá futuro enquanto rejeitar o povo do qual nasceu.
Será que nossa memória só se pode purificar, em relação aos judeu, às custas de renegarmos os nossos fundadores? É preciso parar de desprezar os primeiros sem, para tanto, julgar estes últimos, e tirar daí todas as lições do pesado passado que nos legaram. Assim o nosso futuro será liberado. Dentro de uma fidelidade purificada aos nossos irmãos mais velhos.

Michel Kubler
é redator-chefe do La Croix


Charles Monsh

Com a revisão do processo, a direção do jornal sofreria os contragolpes de seus posicionamentos contra os defensores de Dreyfus. O anti-semitismo não desapareceria de uma hora para outra de suas colunas.


PARA O LA CROIX,
A HISTÓRIA DE UMA LENTA CONVERSÃO

Com o caso Dreyfus, o anti-semitismo dos meios de direita chegará ao seu ápice. La Croix não era o único, mas era o mais representativo dentre estes e se viu perigosamente exposto quando foi anunciada uma revisão do processo. A direção do jornal levou o contragolpe: ao criarem estorvos à retomada do diálogo entre Roma e a França, os assuncionistas tiveram que deixar o jornal por ordem de Leão XIII. La Croix passou a ter, momentaneamente, uma direção bicéfala, composta por um padre de diocese e um leigo.
O anti-semitismo não desapareceu de suas colunas. Os anos que precederam à Primeira Guerra Mundial viram-no acreditar - como a quase totalidade do mundo católico - nas elucubrações dos Protocolos dos Sábios de Sion e retransmitir o antijudaísmo da Revue Internationale des Societés Secrétes. Inclinando-se na direção da Ação Francesa, sem a ela aderir formalmente, o jornal manteve-se próximo do anti-semitismo de Maurras. Toda Sexta-Feira Santa ressurgia no editorial o "povo deicida".

Em 1927 a virada decisiva
A indicação, em 1927, pelo Vaticano, do padre Merkien para o comando do jornal, levou este a uma virada decisiva. Sem ser claramente filo-semita, este assuncionista soube evitar qualquer preconceito em relação ao povo eleito. E fez publicar, em manchete de primeira página, a frase de Pio XI (17 de setembro de 1938): "Nós somos espiritualmente semitas".
De 1933 a junho de 1940, La Croix não cessou de denunciar os crimes dos nazistas contra os judeus da Alemanha - muito embora com relativa discreção de 1936 a 1938, ocasião em que a Santa Sé se esforçava para preservar o que havia conquistado no acordo assinado com o Reich em 1933. Contudo, diante do recrudescimento da repressão, o padre Merkien, publicou, em 1 de setembro de 1938, um editorial sobre "O problema judaico e a universalidade da redenção". Ainda que marcada pelo velho anti-semitísmo cristão, esta tomada única de posição do jornal sobre o problema judaico expõe corajosamente os pressupostos do direito natural para concluir que "os judeus são nossos irmãos".

Reaparição em fevereiro de 1945
Chega o período sombrio de 1940 a 1944. Curvando-se em Limoges, La Croix estimou necessário fazer circular a voz do papa na França, mas ao preço de muitos compromissos, sem outra escolha que a de ceder à censura de Vichy. Assim, editou, sem comentários, os dois sucessivos estatutos dos judeus (outubro de 1940 e junho de 1941). Julgada por colaboração, a direção do jornal obteve um nada-consta que lhe permitiu reaparecer em fevereiro de 1945. O horror da Shoá, revelado após a guerra, encontra expressão em seus editoriais. A posição do La Croix face à criação do Estado de Israel é mais reservada - fiel à da Santa Sé, que desejava salvaguardar seus direitos sobre os lugares santos.
Vieram o Concílio, com sua abertura ao diálogo judaico-cristão, a viagem de Paulo VI à Terra Santa e a eleição do papa polonês - o primeiro a visitar a sinagoga de Roma, ali chamando os judeus de "nossos irmãos mais velhos". Esses grandes momentos não apenas encontraram eco no La Croix, como permitiram ao jornal exorcisar todo um passado no qual ele foi o espelho de um ambiente católico cegado pelo ódio, pelo medo e por uma leitura falsa das Escrituras.

 

La Croix
FONTE: ASA - No. 51
Traduzido por Renato Mayer
Enviado por Leon M.Mayer

 

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