MEMÓRIA

    
         
        Yitzhak Navon


BEN-GURION,
profeta e guerreiro

Ben-Gurion era um homem de síntese: retraído e determinado, modesto e ousado, maleável como um junco e firme como um carvalho, simples e complexo, visionário e realista, crítico e conciliador, inteiramente judeu e, ainda assim, tão universal. Essas qualidades se manifestavam em quase tudo que ele fazxa.

Ben-Gurion só proferia seus discursos após investigação detalhada, análise meticulosa dos fatos e profunda reflexão, mas suas palavras eram submetidas a um processo extraordinário de absorção em todos os seus sentidos e emoções. Ele sempre se comovia profundamente antes de um discurso; suas mãos literalmetne tremiam quando ele pegava as folhas de papel de seu bolso. Depois de um discurso, Ben-Gurion era incapaz de ir dormir ou de retornar a sua rotina costumeira por causa da tempestade em sua alma. Quando falava, entregava-se por inteiro, e era por isso que ele provocava uma resposta tremenda da platéia.

Para Ben-Gurion não havia contradição entre o corpo e o espírito. Ele alimentava seu espírito com leituras constantes sobre temas judaicos, história, filosofia, religião, ciência (e todo assunto que se pode imaginar) por longas horas do dia e da noite.
Tinha grande preocupação com o vaso que contém a alma. Toda manhã, às seis horas e meia, ele saía para a sua primeira caminhada, que durava exatamente uma hora e, quando podia, fazia outra à tarde. Zombarias não o desanimavam; ele até aprendeu a se apoiar sobre a cabeça, "para que o sangue, que significa oxigênio, corra para o cérebro". Subia na balança toda manhã e, se o peso tivesse aumentado em poucas gramas, jejuava até que ele voltasse ao normal. Caminhava a passos largos e quando ria as paredes tremiam com sua voz poderosa.

Sua curiosidade não conhecia limites. Quando viajava de Tel Aviv a Jerusalém, bombardeava seu acompanhante de perguntas. "Qual o nome daquele vilarejo? Quantos imigrantes chegaram do Afganistão? Quantos prêmios literários há no país? Por que o grego moderno é tão diferente da língua clássica? O que o presidente do Egito está pensando agora?"

Livros de ciência e biologia se amontoavam sobre sua mesa, lado a lado com livros de filosofia, religião e história. "Como as nações se formam? Como nasceram as esculturas? Qual a alma da China? O que é a Índia? Quais suas religiões? Dois terços da humanidade vivem na Ásia e não temos idéia de quem eles são. E eles não sabem quem nós somos - o que é a Bíblia e a Terra de Israel e quem são os judeus?

E em relação aos judeus? Serão eles tão óbvios, tão completamente conhecidos? "Qual o misterioso ímpeto que traz judeus do Curdistão e do Iêmen, da América e da Polônia? O que têm em comum e em que são diferentes? Quem são os judeus ortodoxos e quem são os laicos?

Ele era judeu até as raízes de sua alma e, ao mesmo tempo, tão universal. Sabia nove línguas. Lia Platão em grego, Maimonides em árabe, Lenin em russo e Cervantes em espanhol. Assim como era capaz de se expandir por uma enorme gama de assuntos, podia se concentrar em um só tema com todo seu coração e espírito.

O Estado de Israel, ele disse mais uma vez, deve se fundamentar na ética dos profetas bíblicos e nas conquistas da cência moderna. Com o auxílio da ciência, Israel podia conquistar o deserto, suprir a falta de água e de fontes de energia e superar a disparidade quantitativa entre sua população e os milhões de árabes.

Para ele, a Bíblia era o alvará do direito do povo judeu à sua pátria, a fonte primeira de sua história e de inspiração moral. Ele encontrava tempo, por mais ocupado que estivesse, para manter um grupo de estudos da Bíblia em sua casa. Nunca abdicou da visão de criar um povo escolhido e um modelo de sociedade. Para ele, esta não era só a única visão dos profetas bíblicos, mas uma necessidade vital, quase uma condição essencial para a sobrevivência de Israel.

Atrás de sua mesa no gabinete do primeiro-ministro havia um enorme mapa do Oriente Médio. Toda manhã ele entrava em seu gabinete e ficava observando o mapa por um logo tempo. Mais de uma vez ele disse: "Não pude dormir a noite inteira por causa deste mapa. O que é Israel? Um pequeno ponto! Como poderá sobreviver neste mundo árabe?

Ben-Gurion nunca cansava de repetir pela milésima vez sua doutrina: nós nunca seremos capazes de competir com os árabes em riqueza ou população, somente em superioridade moral, espiritual e intelectual.

E o Exército não pode ser separado do povo. por isso, todo o povo deve possuir qualidades autênticas, caso contrário não sobreviverá. se Israel for como todos os países, os judeus terão vergonha dele e outras nações não verão nenhuma razão para ajudá-lo. Mas se for uma sociedade exemplar dele emanará uma luz que atrairá a juventude judia e todo e o mundo. O kibutz, o moshav, os grupos pioneiros no Nahal - estes são apenas alguns exemplos característicos do que nosso povo deve criar.

O exército é a garantia da sobrevivência nacional, o caldeirão em que se fundem as tribos de Israel e, acima de tudo, a maior das instituições educacionais. Com que amor ele recebia os soldados que retornavam da frente de batalha! Ele os abraçava, fazia um sem número de perguntas e os encorajava da forma mais maravilhosa.

A reunião semanal de Ben-Gurion com o chefe do estado-maior e seus assistentes era uma experiência única. Ele sempre as abria com uma demonstração, seja uma descoberta arqueológica, uma idéia que tivera lendo a Bíblia ou um raio de luz sobre algum aspecto da história judaica. A conversa se generalizava, horizontes se expandiam, a discussão se tornava mais vívida e ares elevados pousavam sobre os presentes.

Toda a visão do mundo de Ben-Gurion pode ser concentrada em um único verso do Livro de Abacuque: "E o justo viverá em sua fé!" Se você acredita em uma causa, lute por ela e viva de acordo com sua fé sem considerar o que os outros dizem de você.

No ensaio chamado "A eternidade de Israel", escreveu: "A voz de Deus fala ao homem em nossos dias, assim como há 3.000 anos. Alguns acreditam que a voz vem dos céus; outros dizem que ela vem do coração. O que importa é a voz, não o debate de onde ela vem. Todo homem pode ouvir esta voz, freqüentemente ou em intervalos distantes, seja de forma clara ou em tons abafados - se seus ouvidos estão abertos à verdade."

Ele ouviu a voz.

 

Yitzhak Navon, Quinto presidente de Israel
enviado por Leon M.Meyer,
Presidente da Loja Alber Einstein da B'nai B´rith do RJ

 

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