MEMÓRIA

           
Joana Monteleone


Renasce em Recife a primeira sinagoga das Américas

Templo fundado na Rua dos Judeus, em Recife,
à época do domínio holandês, no século XVII,
será centro de memória hebraica.

A breve ocupação holandesa de Pernambuco, entre 1630 e 1654, foi um hiato de tolerância religiosa num continente marcado pela imposição, à força, do catolicismo e pela severa vigilância da Inquisição.

Maurício de Nassau, que representava, na região, os esclarecidos déspotas dos Países Baixos viu, sob seu domínio florescerem templos de vários credos, dos quais talvez o mais notável tenha sido a Sinagoga Tzur Israel ("Rochedo de Israel"), a primeira das Américas.

Seus fundadores eram os descendentes daqueles judeus portugueses que, quando dos éditos de explusão dos judeus da Península Ibérica, tinham ido buscar abrigo nos Países Baixos - onde continuaram a falar português.

Com a tomada dos nordeste açucareiro pelos holandeses, eles, de refugiados, rapidamente se transformaram em instrumentos-chave na implementação do domínio político e econômico de Nassau. Além da habilidade ao negociar e da lealdade à coroa holandesa, eles conheciam bem o idioma das novas terras de Holanda na América e foram, por isto, essenciais para mediar as relações entre os cidadãos locais e os representantes dos novos soberanos.

Prosperaram, assim, rapidamente e em 1636 a sinagoga Tzur Israel foi erigida em Recife, sob o comando de um rabino de origem portuguesa trazido especialmente de Amsterdã.
A rua onde foi construído o edifício - nos altos de uma próspera casa de comércio - passou a chamar-se Rua dos Judeus, evidenciando a tolerância religiosa dos novos soberanos. A nova liberdade também levou muitos dos cristãos-novos (judeus convertidos ao catolicismo por imposição da Inquisição) - que ali residiam antes da chegada dos holandeses e praticavam secretamente os rituais judaicos - a assumirem em público a verdadeira religião.

Hoje, a Rua dos Judeus, localizada no bairro do Recife Antigo, faz parte de um grande projeto de restauração do bairro. Encontrar o local exato da Sinagoga demandou um grande trabalho de pesquisadores, coordenado pelo historiador José Antonio Gonçalves de Mello. Diversas plantas das ruas tiveram que ser verificadas, pois as fachadas das casas foram modificadas ao longo do tempo, principalmente no século XIX. O trabalho deu resultados. Contudo, hoje, quem quiser visitar o local deve ter paciência para encontrar uma pequena placa comemorativa na fachada do prédio da antiga Sinagoga, a primeira das Américas.

O local deve seguir os passos do bairro do Recife Antigo e ser restaurado . O Banco Safra, em conjunto com a prefeitura e a comunidade judaica, quer fazer da Sinagoga um centro de memória com exposições sobre os judeus no Recife colonial holandês. O projeto deve custar em torno de R$1 milhão. Dentre os documentos expostos deverão estar as listas das famílias judias que vieram da Europa para o Brasil e as histórias de perseguições aos cristão-novos, especialmente aqueles que, com a derrota dos holandeses e a retomada portuguesa de Pernambuco, ficaram no Recife e foram denunciados por terem participado, abertamente, dos cultos na Rua dos Judeus.
"Recuperar esta tradição é muito importante para Recife. A herança holandesa é uma da marcas mais fortes do passado colonial brasileiro", diz o historiador José Antonio Gonçalves de Mello, de 80 anos.

A Sinagoga, quando for reformada, vai servir de centro para os estudos da sociedade religiosamente tolerante que se criou sob o domínio holandês, e onde protestantes, católicos e judeus conviviam em paz.
"Como entender as transformações decorridas depois desse período de liberdade religiosa? A equipe de pesquisadores que vai trabalhar na casa tentará recuperar o passado analisando documentos, mapas e a iconografia do período", diz Gonçalves de Mello. O historiador sabe do que está falando. No final dos anos 80, escreveu "Gente da Nação", livro que aborda o passado judaico de Recife, em 546 páginas.

Para a empreitada intelectual foram consultados os mais de 60 mil documentos relativos ao período, guardados no Arquivo Municipal da Prefeitura de Amsterdã, e que agora se encontram no Instituto de Ciências do Homem de Recife e farão parte do acervo da Sinagoga.

Gonçalves de Mello analisa o período com sobriedade. "O capitalismo comercial faturava alto com um comércio triangular entre o açúcar brasileiro, os escravos africanos e os países europeus. A conquista holandesa esteve pautada no valor do açúcar no mercado internacional", diz. Chamado de ouro branco em pó, a especiaria também foi o motivo de brigas entre judeus e holandeses. Como a maioria dos comerciantes da comunidade judaica falava português, possuíam uma enorme vantagem nas negociações com os comerciantes e fazendeiros brasileiros. A rivalidade entre holandeses e judeus não tardou a virar reclamação para as autoridades holandesas. "Os pedidos foram enviados em diversas formas: cartas de notários, relatório de pequenos burocratas e reclamações dos próprios homens de negócios", explica Mello.

O acervo que será reunido na Sinagoga incluirá uma série de documentos importantes, como os Cadernos do Promotor, do cartório da Inquisição de Lisboa. Aí estão registrados depoimentos prestados às autoridades eclesiásticas por denunciantes, que mencionam "o bairro dos observantes da lei de Moisés".
Em 1642, um denunciante em Lisboa dizia que os judeus ajuntavam-se "três vezes ao dia na esnoga (Sinagoga) que tinham na entrada de Arrecife à mão direita, da banda de dentro, andando vestidos como judeus e guardando os sábados, pois nele fechavam as tendas".
"O cotidiano do mundo holandês em Recife pode ser aferido neste depoimento", diz o historiador. Essas três vezes ao dia eram, usualmente, a manhã, às três da tarde e ao pôr do sol. A referência de andarem vestidos como judeus é significativa pois a roupa era um sinal de distinção entre classes e profissões na época. Em 1648, outro depoente conta a respeito das roupas que: "em uma festa de sua Lei andavam com uns panos brancos na cabeça berrando como bodes". O preconceito dos católicos, acostumados a denunciar os atos judaizantes de seus vizinhos para a Inquisição, aparece claramente.
O pano branco, referido no depoimento e usado sobre os chapéus, era chamado talé, feito de algodão branco, com fios postiços de lã nas quatro pontas. Várias gravuras dos séculos XVII e XVIII mostram essa prática no Recife. A iconografia é uma parte importante do projeto, já que os holandeses são os responsáveis pelo melhor retrato do Brasil na época. "O que eles retrataram em pouco mais de vinte anos, os portugueses não fizeram em séculos de colonização", conta o historiador.

Esta passagem dos judeus por Recife, no século XVII, deixou também uma herança literária: Recife foi o berço dos primeiros textos literários em hebraico do continente americano, com os poemas e orações dos "Hahamim" (em hebraico, sábios, termo com que eram designados os eruditos) Isaac Aboab e Moisés Rafael de Aguiar. O historiador norte-americano Geoffrey Parker diz que os primeiros livros judaicos do continente foram impressos em Recife em 1636.

Com o fim da ocupação holandesa, em 1654, os judeus que eram cidadãos holandeses fugiram pois sabiam que seriam denunciados e implacavelmente perseguidos pelos portugueses.

 

Joana Monteleone

  

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