MEMÓRIA

Judeus,
  presença milenar  
    na Península Ibérica
     

Sinagoga Kaduri, no Porto - Portugal

Foram necessários 500 anos para que Portugal tomasse a decisão de revogar publicamente o decreto de expulsão dos Judeus, vigente quando o país vivia à sombra de Inquisição. Com a votação no parlamento, em dezembro de 1996, abre-se um novo capítulo na história portuguesa.

Já na década de 70, porém, alguns indícios mostravam o processo de mudança no país. Em 1974, após o Revolução dos Cravos, que substituiu o regime totalitário pela democracia, foram feitas modificações nos compêndios de história, trazendo novas abordagens sobre o período da inquisição. Em 1987, o então Presidente Mário Soares apresentou ao Estado de Israel um pedido formal de desculpas, em nome do país, pelos eventos do passado. A Inquisição foi oficialmente abolida de Portugal em 1821.

Logo após a votação do Parlamento português, foi inaugurada a primeira sinagoga da cidade de Belmonte, onde durante séculos os judeus esconderam sua fé por trás da sua identidade de cristãos novos ou marranos. Tal fato demostra que, apesar do decreto e das perseguições, as páginas da histórias de Portugal, nos últimos cinco séculos, foram permeadas por costumes e tradições de origem judaica, mantidos, às escondidas, por indivíduos que geralmente sequer sabiam o seu real significado.

A Inquisição em Portugal sofreu influência direta da sua atuação na Espanha, onde, por insistência dos reis católicos espanhóis, Fernando e Isabel, o papa Sixtus IV apoiou a criação de uma Inquisição Espanhola Independente, em 1483, presidida por um Conselho e um inquisidor, Entre os mais famosos, está Tomas de Torquemada, um símbolo de crueldade, intolerância e fanatismo religioso, que ajudou a escrever um capítulo especial do Santo Ofício da Península Ibérica e em sua colônias, cujo alvo principal foram os judeus e, em seguida, os cristãos-novos, ou os judeus convertidos à força ao cristianismo.

Passados os séculos, a instituição e seus excessos têm sido motivo de embaraço para muitos cristãos. Durante o Iluminismo, a Inquisição chegou a ser citada como um dos maiores exemplos de barbárie durante a Idade Média. Mas em sua época, despertava a simpatia de muitos setores, que a consideravam um instrumento político, econômico e necessário para a defesa das crenças religiosas.

Pesquisas históricas indicam que a presença judaica em Portugal remonta ao século VI antes da era cristã, sendo anterior à formação do reino de Portugal. No século XII, sob o comando de Afonso Henriques, Portugal torna-se uma nação e surgem as primeiras comunidades judaicas em Lisboa, Oporto (atual Porto), Santarém e Beja.

Durante o reinado de Afonso Henriques, os judeus vivem momentos de prosperidade, possuindo também um sistema comunitário autônomo no qual o grão-rabino era indicado pelo rei. Neste período, o grão-rabino Yahia Ben Yahia foi escolhido ministro das Finanças, sendo também responsável pela coleta de impostos no reino. A tradição implantada por Afonso Henriques, de escolher judeus para a área financeira e de manter um bom relacionamento com as comunidades judaicas, é seguida por seus sucessores.

No entanto, para os judeus, a era de prosperidade e de participação na vida política e econômica do reino termina no início do século XV, com o aparecimento de um anti-judaísmo local e com a influência cada vez maior da Inquisição espanhola. Por trás da deterioração da situação das comunidades judaicas estão as pressões da Igreja, o surgimento da burguesia e, por último, a aliança da Espanha com Portugal, fortalecida através do casamento de Miguel I com Isabel, filha dos reis católicos Fernando e Isabel. Como na Espanha, a prosperidade dos judeus despertou a inveja dos seus vizinhos, impondo-lhes, entre outras punições, maiores impostos.

Para a Igreja, a conversão dos judeus e o fim do judaísmo são as únicas maneiras de afirmar definitivamente a identidade messiânica de Jesus. Para a burguesia, o fim dos judeus significa a possibilidade de conquista uma posição privilegiada na vida econômica da nação. Para os reis católicos, representa a expansão da Inquisição espanhola em solo português, perseguindo aqueles que conseguiram fugir do decreto de 1942, que determinou a expulsão de todos os judeus da Espanha.

Durante o reinado do rei João, pela primeira vez os judeus são obrigados a usar em suas roupas símbolos que indicam sua crença.

 

Fonte: Morashá
Enviado por Leon M. Mayer

 

Editoração e Coordenação:
IRENE SERRA
irene@riototal.com.br

Revista Rio Total